EUA, uma equipe inter-racial e mestiça, entram em campo em um estádio que teme as batidas de imigração de Trump

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12 Junho 2026

"Dos 26 jogadores convocados por Mauricio Pochettino, treinador da seleção dos EUA, 12 são afro-americanos e três são latinos. Esse fato obriga o presidente dos EUA a confrontar a realidade da nação que governa".

O artigo é de Lorenzo Calonge, jornalista esportivo espanhol, em artigo publicado por El País, 12-06-2026.

Eis o artigo.

A equipe de Pochettino, com 12 afro-americanos e três latinos, estreia contra o Paraguai no SoFi Stadium, em Los Angeles, cujos funcionários podem entrar em greve caso o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) seja acionado. 

O circo da Copa do Mundo começa, e David Beckham vai inaugurar sua estrela na Calçada da Fama de Hollywood nesta sexta-feira. É a homenagem do império do entretenimento à Copa do Mundo, e quase a única. Na avenida do Oscar, em meio a festas e imitadores de Michael Jackson, é preciso procurar bastante para encontrar qualquer referência ao grande evento de futebol, mesmo que a apenas 20 quilômetros de distância, os Estados Unidos iniciem seu torneio contra o Paraguai (22h, no horário de Brasília).

A Copa do Mundo começa nos Estados Unidos, em Los Angeles, no SoFi Stadium, com a seleção nacional — uma combinação que, longe do glamour de Hollywood, carrega um peso significativo no atual clima político do país. A população californiana, uma das primeiras a ir às ruas há um ano contra as batidas do ICE lançadas por Donald Trump, recebe a estreia de uma equipe que, enquanto aguarda seu desempenho em campo, reflete inegavelmente a natureza inter-racial e mestiça do país. Dos 26 jogadores convocados por Mauricio Pochettino, 12 são afro-americanos e três são latinos. Esse fato obriga o presidente dos EUA a confrontar a realidade da nação que governa. E, como se não bastasse, essa estreia acontecerá em um estádio cujos funcionários assinaram um acordo com a empresa que lhes permite entrar em greve caso o ICE seja mobilizado para efetuar prisões.

No SoFi Stadium, o estádio mais caro do mundo segundo o Guinness Book of World Records (5 bilhões de dólares), é quase impossível dar um passo sem ouvir uma palavra em espanhol. Localizado em Inglewood, ao sul do tapete vermelho de Hollywood, seus funcionários e transeuntes refletem com precisão a demografia da cidade, a segunda maior do mundo em população mexicana. Lá, por exemplo, Alejandro Zendejas e Ricardo Pepi, ambos atacantes da seleção americana, ficam em posição de sentido durante o hino nacional dos Estados Unidos. Zendejas é originário de Ciudad Juárez, no México, e cresceu em El Paso, no Texas, desde os seis meses de idade. Pepi nasceu lá. Pepi, como ele mesmo confessou, sempre se sentiu atraído pela seleção mexicana, por causa de seus pais, que são mexicanos como os de Zendejas, mas, no fim, foi a seleção dos Estados Unidos que demonstrou mais interesse nele.

O trio latino é completado pelo meio-campista Cristian Roldán, filho de pai guatemalteco e mãe salvadorenha, nascido perto de Los Angeles. “Já sofri bastante racismo, mas nada comparável ao que a comunidade negra enfrenta. Para mim, é muito importante gerar essa mudança”, declarou ele há cinco anos, quando se juntou a uma organização de jogadores negros na Major League Soccer (MLS).

A integração de crianças e jovens latinos no sistema de identificação de talentos frequentemente enfrenta um obstáculo econômico dentro do sistema do futebol americano. Para ingressar em uma academia, cada família precisa pagar entre 100 e 300 euros por mês, um fardo, especialmente para os setores mais desfavorecidos, como este. Há mais de uma década, relatos de treinadores da federação nacional alertam que essa taxa dificulta a identificação de jovens jogadores talentosos, principalmente nas categorias de base.

Do lado afro-americano da seleção, as histórias de ativismo são bem conhecidas, embora ainda seja incerto se eles também amplificarão suas vozes na Copa do Mundo em seus países de origem.

Talvez o exemplo mais famoso seja o de Weston McKennie meio-campista da Juventus que, há cinco anos, chamou Trump de "ignorante e racista" no auge do movimento Black Lives Matter. No verão passado, porém, ele visitou a Casa Branca com seu clube e não hesitou em oferecer a saudação de praxe. No centro da defesa, Chris Richards tem tatuagens de Martin Luther King, "uma grande inspiração" para ele, assim como de Muhammad Ali e Barack Obama. E no meio-campo ofensivo, joga Timothy Weah, cujo pai, o liberiano George Weah, vencedor da Bola de Ouro, foi, como ele mesmo afirmou, vítima da "doença do racismo" quando era jogador. Seu filho, atacante do Olympique de Marselha, foi um dos poucos a reclamar dos preços dos ingressos.

Embora ricos e livres das ameaças do ICE, eles também são um reflexo da nação imigrante que são os Estados Unidos. O zagueiro Mark McKenzie, nascido no Bronx, é descendente de jamaicanos; o atacante Folarin Balagun tem pais nigerianos; e o atacante Haji Wright tem ascendência liberiana e ganense. Todos eles estão fazendo suas estreias em Los Angeles, uma das cidades para as quais Trump enviou milhares de soldados há um ano em resposta aos protestos contra as batidas policiais contra a imigração, e onde a prefeita democrata (Karen Bass) decretou sete noites de toque de recolher para conter os distúrbios. Esses dias tensos, aliás, interromperam o calendário do Mundial de Clubes.

Hoje, o centro de Los Angeles parece respirar um pouco mais aliviado. A inquietação concentra-se entre os 2 mil funcionários do SoFi Stadium, que, além das reivindicações salariais, obtiveram garantias da empresa de que podem entrar em greve caso ocorram batidas da imigração. Quem até agora evitou se posicionar foi o técnico da seleção nacional, Mauricio Pochettino. “Não somos políticos. Nossa responsabilidade é jogar”, afirmou categoricamente.

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