02 Junho 2026
Ele atende à ligação em um trem rumo a Hamburgo e se despede quase uma hora depois em seu escritório na sede do modesto clube que preside desde 2014. Oke Göttlich (Hamburgo, Alemanha, 50 anos) é presidente do St. Pauli e um dos 13 vice-presidentes da DFB, a Federação Alemã de Futebol. E no início deste ano, em meio à ameaça de invasão da Groenlândia pelo governo de Donald Trump, Göttlich, jornalista de formação, disse que já bastava. "Quais razões justificaram os boicotes de certos países aos Jogos Olímpicos da década de 1980?", questionou ele, referindo-se a Moscou 1980 e Los Angeles 1984. "Na minha opinião, a ameaça atual [dos Estados Unidos] é maior do que era naquela época, então precisamos ter essa discussão; a vida de um jogador de futebol não vale mais do que a vida de qualquer pessoa que esteja sendo atacada direta ou indiretamente pelo país anfitrião da próxima Copa do Mundo."
A reportagem é de Daniel Arribas, publicada por El País, 02-06-2026.
Göttlich estava se referindo aos Estados Unidos, que em pouco mais de um mês sediarão a final do torneio mais prestigioso do futebol mundial, bem como 84 das 104 partidas programadas pela FIFA — o restante será dividido entre México e Canadá — de 11 de junho a 19 de julho.
A mera ideia de considerar um possível boicote à Copa do Mundo gerou um debate nacional na Alemanha, país cuja seleção masculina conquistou o torneio quatro vezes. Göttlich enfrentou uma enxurrada de críticas dentro da própria federação alemã, a DFB, que rapidamente se distanciou do hipotético boicote.
"Eu nunca disse que a Alemanha deveria boicotar a Copa do Mundo de 2026. Fui questionado se achava correto jogar em um país que, poucos dias antes, havia ameaçado tomar a Groenlândia à força, e simplesmente refleti sobre o assunto, abrindo um debate."
A questão não se limitou às manchetes da imprensa alemã; ela permeou os escritórios da DFB. "Discutimos longamente quais seriam nossas linhas vermelhas para boicotar um torneio dessa natureza", diz Göttlich. "E me lembro que, por exemplo, concluímos que, se os Estados Unidos atacassem um país da OTAN, chegaríamos a um ponto sem retorno."
A linha não foi cruzada, pelo menos não até o momento em que este texto foi escrito, mas até agora neste ano os Estados Unidos sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro, ameaçaram invadir a Groenlândia e entraram em guerra com o Irã — algo que não passou despercebido pelo vice-presidente da Federação Alemã de Futebol. "O que venho dizendo há meses é que precisamos abrir nossas mentes e aceitar o debate; temos que nos perguntar se devemos ir à Copa do Mundo. A Alemanha vai jogar, mas estou preocupado com a questão subjacente."
"Muitos dos principais eventos esportivos dos últimos tempos foram realizados em países com regimes autoritários ou que violam os direitos humanos: Rússia, China, Catar, agora os Estados Unidos… É hora de levantarmos nossas vozes e ampliarmos o debate", propõe Göttlich. "Será que a seleção alemã, que defende a diversidade, os direitos humanos e se opõe ao racismo, apontará algumas das medidas questionáveis do governo de Donald Trump, um homem errático que parece querer mergulhar o mundo no caos?"
"O futebol e a Copa do Mundo são uma plataforma incomparável para demonstrar nossas crenças", afirmou o dirigente, cuja federação já havia estado em evidência no Catar 2022, quando os jogadores alemães cobriram a boca em protesto após a FIFA proibir o uso de braçadeiras com as cores do arco-íris. "Lamento o crescente medo das pessoas de se manifestarem, de debaterem. As redes sociais estão colorindo tudo de preto e branco, bom ou ruim, e assim que uma questão como essa é levantada, tudo se polariza e se distorce a tal ponto que ninguém quer se arriscar e ser colocado do lado errado. É assim que o debate morre e, com ele, a democracia."
"Quando fiz essas declarações no início do ano, disseram-me que eu só falava daquela maneira porque era presidente de um clube modesto como o St. Pauli e que queria chamar a atenção para o meu clube. E só posso sorrir diante de tal acusação. Antes de ser um dirigente, sou uma pessoa, um cidadão, e não deixo meus ideais de lado quando saio de casa. Estamos imersos em uma tremenda crise geopolítica, e isso também afeta o esporte. Não podemos ficar de braços cruzados e aceitar tudo passivamente. Não podemos ter medo de levantar a voz por causa de algumas críticas. Porque aqueles que criticam, na maioria dos casos, fazem isso em defesa dos negócios, para manter a máquina funcionando."
"Não vou à Copa do Mundo, isso é certo", afirma Göttlich categoricamente. "Só espero que o torneio permita ao menos que milhares de jornalistas do mundo todo viajem aos Estados Unidos e reportem livremente o que está acontecendo lá, algo que a FIFA, aliás, garante em seus estatutos, assegurando auxílio e proteção àqueles que reportam de regiões que sediam um evento como a Copa do Mundo. Será interessante ver como eles cumprem a promessa nas próximas semanas."
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