31 Julho 2026
A entrada do magnata na disputa eleitoral rumo ao pleito de novembro nos Estados Unidos complica ainda mais a campanha dos democratas, que arrastam uma dívida de cerca de dois milhões de dólares, apesar de as pesquisas lhes serem favoráveis.
A reportagem é de Juan Gabriel García, publicada por elDiario.es, 31-07-2026.
Parecia que Elon Musk havia se retirado da linha de frente da política americana depois de seu dramático divórcio do presidente Donald Trump. Mas agora ele planeja retornar para a campanha eleitoral do pleito de meio de mandato de novembro próximo: o bilionário estuda reativar seu comitê de ação política, chamado America PAC, para resgatar os republicanos diante de eleições que se complicam cada vez mais para o partido de Trump.O magnata autorizou que essa entidade gaste entre 10 e 120 milhões de dólares (aproximadamente entre 8 e 100 milhões de euros) na campanha deste outono. Os PACs (sigla em inglês para Comitês de Ação Política) são organizações dedicadas a arrecadar fundos e fazer campanha para diferentes candidatos.
Nas eleições presidenciais de 2024, Musk injetou mais de 290 milhões de dólares (mais de 250 milhões de euros) na candidatura de Trump para ajudá-lo a retornar à Casa Branca. Segundo revelou o jornal The Guardian, o programa de recrutamento de eleitores de Trump em estados-chave estava sendo gerido principalmente pelo America PAC, que, a poucas semanas das presidenciais, tinha entre 300 e 400 funcionários em cada um dos sete estados disputados dos Estados Unidos.
Agora, os veículos Axios e The New York Times revelam que o PAC de Musk prevê se concentrar em ações porta a porta, além de aumentar os anúncios online e por correio. A estratégia, segundo explicam os veículos, seria mobilizar todos aqueles eleitores conservadores que normalmente não costumam votar nas legislativas.
O reaparecimento de Musk na disputa eleitoral tem uma explicação. Faz tempo que o multibilionário fez as pazes com o presidente, embora tenha se encarregado de manter um perfil discreto. Musk voou junto com Trump a bordo do Air Force One rumo à China em maio passado: o sul-africano descendo pelas escadas do avião presidencial diante da recepção oficial chinesa foi a confirmação de que Musk voltava a estar no círculo íntimo do mandatário.
O retorno do America PAC neste momento agravaria ainda mais os problemas econômicos dos democratas. Apesar de as pesquisas indicarem que eles estão à frente, já que a guerra no Irã está causando mal-estar e não há previsão de que termine em breve, o rombo de cerca de dois milhões de dólares (cerca de 1,7 milhão de euros) que sofre o Comitê Nacional Democrata (DNC) ameaça comprometer a reta final da campanha. Especialmente porque, em contraste, o Comitê Nacional Republicano (RNC) conta com cerca de 130 milhões de dólares em caixa, segundo estimativas do The New York Times.
Apesar de o descontentamento dos americanos com o encarecimento do custo de vida ser inegável, uma estratégia de campanha agressiva para mobilizar as bases conservadoras poderia colocar os democratas em apuros diante das próximas votações. Por exemplo, algumas das cadeiras-chave para que pudessem recuperar o controle do Senado americano seguem muito disputadas, de modo que nem tudo está perdido para os republicanos.
Além disso, a diferença de força econômica faz com que os democratas tenham que escolher bem onde investem o dinheiro para garantir a corrida eleitoral. Eles não podem se permitir muitos erros, menos ainda depois do escândalo de seu candidato no Maine, Graham Platner. Os democratas estavam quase certos de poder vencer nesse estado, mas tudo desmoronou há algumas semanas quando Platner renunciou após uma denúncia de agressão sexual.
A quatro meses do pleito, a retirada de Platner arruinou a campanha no Maine e obrigou os democratas a buscar em tempo recorde um novo candidato que tenha o mesmo apelo. A vitória nesse estado da Costa Leste era o caminho mais provável para conseguir a maioria no Senado; agora, essa rota se desviou para o Texas, com o candidato democrata James Talarico.
A pressão financeira é tal que até a liderança de Ken Martin, que assumiu a presidência do DNC no ano passado, tem sido questionada. Nesta mesma semana, o The New York Times revelou que a equipe de Recursos Humanos do partido democrata abriu uma investigação sobre Martin depois que ele jogou seu telefone contra a mesa de um assistente.
O DNC arrasta problemas financeiros desde que Kamala Harris perdeu as presidenciais de 2024. O partido esperava que, depois da queda de doadores em razão da derrota eleitoral, a perspectiva das eleições de meio de mandato e a irritação com Trump reativassem as doações. Mas, por ora, isso não está acontecendo. Segundo a Notus, que cita os registros de propriedade de Washington, no ano passado o DNC ofereceu como garantia sua sede física na capital federal para poder obter uma linha de crédito de 15 milhões de dólares (cerca de 13 milhões de euros) destinada a investir nas eleições de novembro próximo, que serão uma prova de fogo para os democratas.
Leia mais
- Soldados nas urnas e restrições ao voto por correio: é assim que Trump está tentando fraudar as eleições de meio de mandato
- Como as democracias desmoronam? Entrevista com Adam Przeworski
- "Talvez seja o momento mais delicado da democracia estadunidense nos últimos dois séculos". Entrevista com John Feeley
- Os milhões de Musk perdem para uma juíza progressista na eleição para a Suprema Corte de Wisconsin, abrindo caminho para a resistência anti-Trump
- EUA: democracia sem escolha. Artigo de Tatiana Carlotti
- Um saque presidencial. O presidente mais corrupto da história dos EUA. Editorial da revista Commonweal
- Trump anuncia decreto que exige identificação do eleitor e restringe votação por correspondência em novo desafio constitucional
- Trump abre um novo rumo político fundamental para a democracia nos Estados Unidos
- Trump diz aos cristãos que se o apoiarem não terão que voltar às urnas: “Vamos resolver isso tão bem que vocês não terão que votar”
- Com apoio de Trump, conservadores cristãos minam limites entre púlpito e política nos EUA
- Com controle do Congresso e Suprema Corte, Trump não terá dificuldades para impor reformas conservadoras
- “Ditador por um dia”: o que esperar do primeiro dia de Trump no Salão Oval?
- “Donald Trump é o sintoma mórbido de um país que está para repetir a sua guerra civil”. Entrevista com Sylvie Laurent
- Podemos sobreviver a outro mandato de Trump? Artigo de Michael Sean Winters
- No abismo, novamente. Artigo de Stefano Feltri
- “A trajetória histórica dos Estados Unidos como uma democracia liberal está em jogo”. Entrevista com Sylvie Laurent
- "Trump: Um cenário conservador e desafios globais para a Agenda 2030 e a estabilidade internacional"
- Steven Forti, historiador: “Extremas-direitas como Trump estão assassinando a democracia”
- Donald Trump consuma sua vingança quatro anos depois
- Donald Trump declara-se vencedor das eleições nos Estados Unidos