01 Junho 2026
"Mas, com o Partido Republicano controlando tanto a Câmara quanto o Senado, isso agora exigiria a cooperação de parlamentares republicanos mais leais à Constituição e aos seus eleitores do que ao golpista desequilibrado que sequestrou o partido. Continua sendo uma questão em aberto quantos republicanos assim ainda restam. A boa notícia é que apenas alguns seriam necessários. A notícia melhor é que as eleições de meio de mandato estão logo ali, e o presidente acaba de dar aos democratas mais um tema para fazer campanha", afirma editorial da Commonweal, 21-05-2026.
Eis o editorial.
Hoje em dia, ouve-se com frequência Donald Trump ser descrito como o presidente mais corrupto da história dos Estados Unidos. Isso pode soar como hipérbole — apenas mais um insulto extravagante vindo daqueles acometidos pela chamada Síndrome de Perturbação por Trump (Trump Derangement Syndrome) — mas é a pura e bem documentada verdade. Pode até ser um eufemismo: Trump não é apenas o presidente americano mais corrupto; ele é mais corrupto do que todos os outros presidentes corruptos, incluindo Richard Nixon, por ordens de magnitude.
Se isso ainda não é óbvio para todos, é em parte porque tendemos a associar corrupção ao segredo, enquanto grande parte da corrupção de Trump ocorre abertamente, sem qualquer tentativa de ocultá-la ou negá-la. Ele aceitou um avião de 400 milhões de dólares do Catar para ser transformado (a enorme custo público) no novo Air Force One? Sim, claro que aceitou! “Eu poderia ser uma pessoa estúpida e dizer: ‘Não, não queremos um avião gratuito e muito caro.’... Achei que foi um grande gesto.” Não importa a Cláusula de Emolumentos da Constituição. Ele concedeu perdões e comutações de pena a dezenas de criminosos de colarinho branco que fizeram grandes doações para sua campanha? Concedeu — e daí? Todos eram vítimas de lawfare (“perseguição judicial”), como o próprio Trump. Na Terra de Trump, prisão é para imigrantes e plebeus, não para empresários ricos e autoridades eleitas corruptas. O governo Trump favoreceu governos estrangeiros que investiram dinheiro no negócio de criptomoedas de sua família? Contratos governamentais lucrativos foram concedidos a empresas ligadas aos filhos de Trump? Seu Departamento de Justiça abandonou processos contra um poderoso bilionário indiano que prometeu investir dinheiro nos Estados Unidos e contra um prefeito que prometeu cooperar com o ICE? Sim, sim e sim. Com pouca dissimulação e sem pedir desculpas.
Mas toda essa venalidade descarada empalidece diante da criação de um “Fundo Antiarmamentização” (Anti-Weaponization Fund) de 1,776 bilhão de dólares (em homenagem ao 250º aniversário dos Estados Unidos) para compensar aliados e capangas de Trump que alegam ter sido prejudicados pelo Departamento de Justiça de Biden, incluindo aqueles que atacaram o Capitólio em 6 de janeiro de 2021. O fundo foi estabelecido como parte de um “acordo” entre o Departamento de Justiça de Trump e a Receita Federal americana (IRS), depois que o presidente e seus filhos concordaram em retirar um processo de 10 bilhões de dólares contra o IRS por não impedir o vazamento de suas declarações de imposto de renda para o New York Times e a ProPublica. Como parte desse peculiar “acordo” — entre duas partes que, em última instância, respondem a Trump — o presidente também concordou em retirar sua exigência de que o Departamento de Justiça lhe pagasse 115 milhões de dólares em indenização por uma investigação do FBI sobre o manejo inadequado de material sigiloso e outros 115 milhões relativos a uma investigação anterior sobre possível coordenação entre sua campanha presidencial de 2016 e agentes da inteligência russa. O dinheiro do novo fundo será distribuído às vítimas da “instrumentalização” democrata por um painel cujos cinco membros servirão à vontade do presidente. Como observou o New York Times, o fundo “parecia contradizer uma política específica instituída pelo governo Trump no ano passado sob a ex-procuradora-geral Pam Bondi, que proibia em grande parte pagamentos a grupos não envolvidos em um processo judicial subjacente”.
Essa negociação descaradamente voltada para benefício próprio é um abuso evidente e ultrajante do poder presidencial.
Funcionários do governo insistem que nem o presidente nem sua família receberão dinheiro do novo fundo, mas, no dia seguinte ao anúncio do acordo, o procurador-geral interino de Trump e ex-advogado criminalista, Todd Blanche, acrescentou um adendo declarando que o IRS ficaria “para sempre impedido e proibido de processar ou perseguir quaisquer e todas as reivindicações” contra Trump, sua família ou seus negócios. Imunidade contra futuras acusações por violações fiscais pode ser potencialmente mais valiosa para Trump do que qualquer pagamento direto vindo desse novo caixa paralelo.
Essa autopromoção escancarada é um abuso óbvio e revoltante do poder presidencial. Até mesmo alguns republicanos que normalmente apoiam Trump independentemente do que ele diga ou faça se distanciaram do “acordo”. O líder da maioria no Senado, John Thune, afirmou que “não é muito fã” do novo fundo — o que, no dialeto de Dakota do Sul, significa “isso fede até o céu”. O principal advogado do Departamento do Tesouro, Brian Morrissey, renunciou assim que o acordo foi anunciado para não ter de supervisionar essa distribuição altamente irregular de dinheiro público a insurgentes e outros mártires do MAGA. Dois policiais que defenderam o Capitólio em 6 de janeiro já processaram o governo Trump para bloquear o fundo, argumentando que ele não possui autorização do Congresso.
Após o escândalo de Watergate, o Departamento de Justiça criou uma Seção de Integridade Pública encarregada de investigar autoridades corruptas em todos os níveis de governo. Quando Trump iniciou seu segundo mandato, havia cerca de quarenta advogados trabalhando nessa seção; hoje restam apenas dois. No mesmo período, o número de casos em andamento caiu de aproximadamente duzentos para vinte. Pode-se presumir razoavelmente que o novo caixa paralelo de Trump não dará origem ao vigésimo primeiro caso. Em teoria, o Congresso ainda poderia conter Trump. Mas, com o Partido Republicano controlando tanto a Câmara quanto o Senado, isso agora exigiria a cooperação de parlamentares republicanos mais leais à Constituição e aos seus eleitores do que ao golpista desequilibrado que sequestrou o partido. Continua sendo uma questão em aberto quantos republicanos assim ainda restam. A boa notícia é que apenas alguns seriam necessários. A notícia melhor é que as eleições de meio de mandato estão logo ali, e o presidente acaba de dar aos democratas mais um tema para fazer campanha.
Nota
No original, ‘A Presidential Smash and Grab”
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