A Copa do Mundo que temos e a Copa do Mundo que deveríamos ter

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12 Junho 2026

“Estamos construindo uma Copa do Mundo para os povos do mundo ou apenas um grande negócio global?”, questiona Roberto (Beto) M. Barbosa, membro das Comunidades de Vida CristãCVX e da Comissão Nacional de Formação do Conselho Nacional do Laicato do BrasilCNLB.

Eis o artigo.

A Copa do Mundo sempre foi apresentada como a maior celebração esportiva do planeta. Mais do que um torneio de futebol, ela simboliza o encontro entre povos, culturas, idiomas e nações. Durante algumas semanas, o mundo se reúne em torno de uma paixão comum, lembrando-nos de que existem valores capazes de superar fronteiras.

Por isso, os acontecimentos que antecedem a Copa do Mundo de 2026 merecem uma reflexão profunda.

Nos últimos dias, o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, escolhido pela FIFA para atuar no Mundial e que seria o primeiro árbitro da Somália a participar de uma Copa do Mundo, teve sua entrada negada nos Estados Unidos. Mesmo portando visto válido, foi submetido a um longo processo de verificação e acabou impedido de ingressar no país.

Também a seleção do Iraque enfrentou dificuldades. Seu principal atacante, Aymen Hussein, foi retido por aproximadamente sete horas pelas autoridades migratórias antes de ser liberado. Um fotógrafo ligado à delegação teve sua entrada negada.

A seleção do Irã igualmente enfrentou incertezas relacionadas a vistos e condições de permanência durante a competição, gerando questionamentos sobre a participação plena de algumas delegações no torneio.

Outro episódio chamou atenção quando a FIFA determinou alterações no uniforme da seleção do Haiti. O modelo original continha referências históricas à luta pela independência do país e precisou ser modificado para atender às regras da entidade.

No campo econômico, surgiram críticas aos preços dos ingressos. Em alguns casos, os valores para a final alcançaram patamares nunca vistos na história do futebol, levando muitos torcedores a questionar se a Copa continua sendo um evento popular ou se está se tornando um espetáculo acessível apenas a uma pequena parcela da população.

Também não passou despercebido o fato de que, em 2025, a FIFA criou o Prêmio da Paz da FIFA e concedeu sua primeira edição ao presidente Donald Trump, decisão que gerou debates e críticas em diferentes partes do mundo.

Tomados isoladamente, cada um desses episódios pode ser explicado por razões administrativas, políticas, jurídicas ou comerciais. Entretanto, quando observados em conjunto, eles revelam uma tendência preocupante: o risco de que a Copa do Mundo se afaste de sua vocação original.

A Copa não nasceu para ser um privilégio.

Ela nasceu para ser um encontro.

Nasceu para aproximar povos que pensam diferente, falam idiomas diferentes e vivem realidades diferentes.

Quando um árbitro, um atleta, um jornalista ou um torcedor enfrenta barreiras que dificultam sua participação, não estamos diante apenas de um problema burocrático. Estamos diante de uma questão que toca o próprio sentido do evento.

Da mesma forma, quando os custos de participação se tornam proibitivos para milhões de pessoas, corre-se o risco de transformar a maior festa popular do planeta em um produto destinado principalmente aos que possuem maior poder econômico.

A Copa do Mundo que deveríamos ter é uma Copa aberta aos povos.

Uma Copa que acolhe.

Uma Copa que facilita encontros.

Uma Copa que reconhece a diversidade cultural como riqueza da humanidade.

Uma Copa que garante dignidade aos atletas, árbitros, profissionais da comunicação e torcedores.

Uma Copa em que os interesses econômicos estejam a serviço do esporte, e não o contrário.

O futebol possui uma linguagem que poucas instituições conseguiram construir. Em um único estádio podem estar presentes pessoas de diferentes religiões, ideologias, etnias e nacionalidades, torcendo lado a lado. Essa capacidade de reunir a humanidade é um patrimônio que precisa ser preservado.

Talvez a principal pergunta que esta Copa nos apresenta não seja quem levantará a taça no dia da final.

A pergunta mais importante é outra: Estamos construindo uma Copa do Mundo para os povos do mundo ou apenas um grande negócio global?

A resposta a essa pergunta ajudará a definir não apenas o futuro do futebol, mas também o significado humano de suas maiores celebrações.

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