19 Junho 2026
Uma semana antes da cerimônia de abertura da Copa do Mundo no SoFi Stadium, em Los Angeles, surgiram dúvidas sobre se o evento sequer poderia acontecer. O sindicato que representa a maioria dos trabalhadores do estádio, muitos dos quais imigrantes, concordou em entrar em greve. Eles exigiam, além de melhores condições de trabalho, proteção contra possíveis batidas do ICE, a agência de Imigração e Alfândega do governo Trump.
A informação é de Pol Pareja, publicada por elDiario.es, 18-06-2026.
Os funcionários chegaram a um acordo para evitar a greve apenas três dias antes da cerimônia. Eles garantiram aumentos salariais significativos, melhores condições de trabalho e uma cláusula que permite aos funcionários deixarem seus empregos caso as operações do ICE coloquem sua segurança em risco.
"Esses trabalhadores são heróis. Eles enfrentaram a FIFA. Eles enfrentaram o ICE. Eles conquistaram um contrato histórico", disse o presidente do sindicato, Kurt Petersen, na época.
O incidente destaca a extensão da ameaça representada por essa agência federal — já responsável por três mortes diretas por tiroteios nas ruas dos EUA — que paira sobre os milhares de funcionários que tornam a Copa do Mundo possível e sobre o restante da população imigrante do país. As ações do ICE têm sido uma das políticas mais contestadas de Trump, provocando protestos em larga escala contra esses agentes em quase todas as principais cidades americanas.
Não são apenas os trabalhadores que estão em risco: há apenas um ano, na final do Mundial de Clubes, um solicitante de asilo que havia levado seus filhos à partida foi preso, mantido na prisão por três meses e deportado para seu país. Nas últimas semanas, torcedores do Senegal, Costa do Marfim, Irã e Haiti também relataram negativas de visto e restrições de entrada. Torcedores de até 39 países reclamaram de dificuldades para comparecer ao Mundial de Clubes.
A Anistia Internacional, que descreveu o ICE como uma "ameaça assustadora" até mesmo para os jogadores participantes, usou a Copa do Mundo para traçar paralelos com a política de imigração de Trump. Só em 2025, mais de meio milhão de pessoas foram deportadas — mais de seis vezes o número de espectadores esperados para assistir à final no MetLife Stadium, em Nova York.
O Secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, garantiu ao público que não haveria batidas policiais em massa contra imigrantes durante a Copa do Mundo. No entanto, ele afirmou posteriormente que não podia descartar prisões relacionadas à imigração durante os jogos ou em seus arredores. Essa mensagem contraditória gerou ainda mais ansiedade entre as potenciais vítimas do ICE.
A controvérsia levou a FIFA a reconhecer que existem problemas. "Relaxem, fiquem tranquilos", declarou seu presidente, Gianni Infantino, há uma semana, antes de reiterar que sua organização não tem poder para influenciar as decisões governamentais sobre imigração.
Após a Copa do Mundo do Catar, cujos estádios foram construídos por migrantes em um regime de semiescravidão — cerca de 6.500 trabalhadores morreram, segundo uma investigação do The Guardian — e depois que a FIFA decidiu que a edição de 2034 seria realizada na Arábia Saudita, ninguém esperava mais firmeza do presidente da suposta entidade sem fins lucrativos que governa o futebol.
A FIFA afirma ter incorporado uma "Política de Direitos Humanos" em seu processo de seleção de países-sede. A primeira Copa do Mundo realizada sob essa premissa foi coorganizada pelos Estados Unidos, México e Canadá. O torneio de 2034 acontecerá na Arábia Saudita. Nesse meio tempo, Marrocos sediará a Copa do Mundo de 2030, que também será coorganizada por Espanha e Portugal.
Medo em diferentes locais
O medo entre os migrantes de acabarem em um centro de detenção após uma operação do ICE é sentido nas 11 cidades americanas onde os jogos serão realizados, alimentado em parte pela ambiguidade das mensagens divulgadas pelo governo Trump.
Em fevereiro, o diretor interino do ICE afirmou que a agência desempenharia um papel fundamental na operação de segurança durante a Copa do Mundo. Pouco depois, o governo dos EUA esclareceu que a presença desses agentes estaria ligada apenas a tarefas de segurança e contraterrorismo.
O desconforto é sentido com mais intensidade naquilo que os americanos chamam de "cidades-santuário": municípios ou jurisdições que limitam ao máximo a sua cooperação com as autoridades federais para deportar migrantes.
A governadora de Massachusetts, Maura Healey, declarou no final de maio que "não há lugar para o ICE" na Copa do Mundo e descartou as ameaças do governo Trump como "mera retórica". Outras cidades-sede progressistas, como Nova York, Seattle e Los Angeles, afirmam ter recebido garantias de que não haverá batidas policiais.
No entanto, grupos de defesa dos migrantes estão cautelosos. "Temos todo o direito de temer que esta administração use este importante momento cultural para reforçar sua narrativa sobre caos, segurança e quem pertence a este lugar", afirmou recentemente o diretor da filial de Seattle do sindicato Working Washington.
Diante da falta de garantias, diversas organizações lançaram campanhas públicas exigindo que estádios, fan zones e eventos oficiais da Copa do Mundo sejam designados como espaços livres da intervenção do ICE. Elas também argumentam que a presença do ICE poderia desencorajar milhares de torcedores e moradores locais de comparecerem aos jogos ou participarem de eventos relacionados ao torneio.
A tensão também não passou despercebida no Congresso. A representante democrata Nellie Pou, de Nova Jersey, cujo distrito inclui o MetLife Stadium, onde a final será disputada, apresentou o projeto de lei "Save the World Cup Act", que proibiria operações de imigração civil em um raio de uma milha de estádios, estacionamentos e áreas de torcedores. "Quando pedi diretamente ao chefe do ICE que garantisse que eles se manteriam afastados das festas, ele se recusou", afirmou.
Sua colega de partido, LaMonica McIver, também de Nova Jersey, apresentou uma proposta semelhante para impedir que fundos federais de segurança fossem usados para operações do ICE em locais de torneios. Contudo, ambas as iniciativas têm poucas chances de serem aprovadas em um Congresso controlado pelos republicanos antes do início do torneio.
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