09 Julho 2026
"Reconhecer a bondade da sexualidade e o direito a uma felicidade plena, não apenas no além, mas também nesta vida percebida como parte da vida eterna prometida e não como sofrida preparação das alegrias futuras, não podia deixar de colocar em crise um sistema cujo funcionamento e renovação geracional devia muito a situações de pobreza material em busca de promoção social e a uma radical culpabilização das consciências para poder controlá-las e orientá-las", escreve Michael Davide Semeraro, monge beneditino do mosteiro Koinonia de la Visitation, em Rhêmes-Notre-Dame (Aosta), na Itália, e doutor em Teologia Espiritual pela Pontifícia Universidade Gregoriana, com comentário de Andrea Grillo, publicado no blog Come se non, 07-07-2026.
Este é o sexto de uma série de artigos de Andrea Grillo intitulada "Após o Cisma: Tradição Viva". O teólogo Grillo apresenta o texto de fr. Michael Davide nos seguintes termos:
"Esta contribuição de fr. Michael Davide constitui o documento de um ato de memória que se transforma numa pergunta de discernimento. A história do monaquismo do último século atesta o esforço de uma passagem entre formas rituais, que exige uma inteligência acurada. A consciência das mediações delicadas não permite generalizações demasiado marcadas: reduzir a relação com a liturgia a 'gosto' ou a 'apego' não interpreta corretamente nem o que aconteceu nem o que deve acontecer. Por isso, a proposta de uma solução que faça do Novus Ordo a base comum a todos os usos católico-romanos se traduz na hipótese de introduzir um 'missal bilíngue' que teria uma função nova. Não mais, como há 100 anos, para dar a luz de uma língua compreensível a um texto latino inacessível para muitos, mas para dar um pano de fundo latino comum às diversas versões das línguas nacionais, de que vive ordinariamente o povo de Deus."
Eis o artigo.
Insiro-me novamente no diálogo de "Tradição viva" para partilhar uma recordação pessoal e um pensamento que me acompanha nestes dias.
No início do meu percurso monástico, pude ainda conhecer pessoalmente o rastro dos esforços comunitários que marcaram os nossos mosteiros sublacenses na preparação, recepção e efetivação do Concílio.
O esforço de abandonar o passado
No mosteiro de La Pierre-qui-Vire, o mosteiro do padre Ghislain Lafont, nos anos oitenta havia ainda algum irmão a quem era concedido não participar da liturgia da comunidade em francês para celebrá-la pessoalmente "em latim". O grande abade Denis Huerre havia concedido essa possibilidade a alguns irmãos que manifestavam um profundo mal-estar em viver a mudança, mas sem permitir-lhes fazê-lo juntos, apenas pessoalmente. A mensagem era clara: compreendemos o mal-estar e concedemos poder continuar a celebrar segundo o próprio costume, mas no sentido da epiqueia, sem criar absolutamente uma dupla possibilidade comunitária e sem dar um futuro ao esforço de abandonar o passado.
Não se deve esquecer e convém recordar que foi precisamente de um mosteiro sublacense, Tournay, que partiu dom Gérard Calvet para fundar em seguida o mosteiro de Le Barroux. Esse mosteiro ainda hoje se orgulha da ascendência sublacense, reconhecendo como seus "fundadores" dom Roman Banquet, fundador de En Calcat, e o próprio padre Muard, fundador de La Pierre-qui-Vire. Nos nossos mosteiros sublacenses da França, o Concílio foi acolhido com entusiasmo espiritual e, ainda que em graus e modos diversos, marcou o caminho das nossas comunidades francesas mediante uma reflexão partilhada. Por anos, La Pierre-qui-Vire foi sede de um Studium monástico que eu mesmo frequentei e no qual eram convidados também professores protestantes, além de personalidades como Paul Beauchamp para a Bíblia, Pierre Lenhardt para as relações com o judaísmo e Pierre Fruchon para um repensar de Platão a partir da hermenêutica contemporânea.
Conheci pessoalmente o esforço de alguns irmãos em acolher as mudanças pós-conciliares, mas também a grande alegria da maioria em entrar num processo de incremento de inteligência evangélica e de reapropriação da tradição monástica. Pessoalmente sou grato pelo que me foi transmitido por monges e teólogos como o padre Ghislain Lafont, em quem a renovação do pensamento andava a par com a fidelidade à tradição monástica, não mais relegada na sua versão do final do século XIX e cada vez mais fundamentada no seu plurissecular processo de crescimento e de transformação. Do mesmo mosteiro foi monge o padre Adalberto de Vogué, que dedicou toda a sua vida a refundar os estudos sobre o monaquismo antigo com a acribia de um cirurgião e a observância monástica digna de um faquir.
Monaquismo e Concílio Vaticano II: os sinais dos tempos
Por que recordo tudo isso? Para não esquecer o que aconteceu nestas últimas décadas como esforço e fadiga para acolher aquilo que o Concílio Vaticano II exigiu como conversão de mentalidade e de postura, no interior e em relação ao exterior. Não foram poucos os monges que, na época do Concílio, consideravam que os seus conteúdos não tocavam a vida dos mosteiros, chamados a custodiar e a propor as coisas de sempre. Na realidade, em muitos dos nossos mosteiros aconteceu exatamente o contrário: a renovação litúrgica foi a alma propulsora de uma renovação total do modo de ser monges no tempo presente. A concessão a alguns irmãos de se subtrair ao esforço de adaptação ao novo ritmo de vida e, em particular, litúrgico era vivida como um ato de caridade que, de modo algum, deixava ambiguidade sobre o caminho empreendido a nível comunitário e em relação aos candidatos à vida monástica, aos quais era pedido que entrassem decisamente nesse espírito.
É preciso reconhecê-lo com serenidade e honestidade: os mosteiros que acolheram e viveram as instâncias do Concílio, sobretudo na liturgia e no modo de viver as relações no interior da comunidade e com o mundo exterior, dão a impressão de ser estéreis. Enquanto os que se referem de modo forte a formas tradicionais, entre o clássico moderado e o tradicionalista exacerbado, não carecem de "homens" e de "meios", chegando a fundar novas realidades ou a adotar situações agonizantes para fazê-las reviver. Do ponto de vista "estratégico", uma rendição incondicional a esse modelo emergente seria não só útil, mas aconselhável. Ao mesmo tempo, nasce uma pergunta: os candidatos "neo-ortodoxos" são expressão dos "sinais dos tempos" do nosso tempo ou não são talvez a "moda dos tempos" do nosso tempo? Difícil responder a essa pergunta e, sinceramente, talvez prematuro, mas cada vez mais urgente após 1º de julho de 2026.
A pergunta de discernimento após o cisma
Após o cisma consumado no passado 1º de julho em Écône, torna-se urgente formular a pergunta a quantos se valem da concessão de usar o Vetus Ordo na liturgia. As razões dessa prática são justificadas por várias partes, inclusive por Enzo Bianchi e por Alberto Melloni, e, após o cisma, quase sustentadas por respeito a uma "sensibilidade" e até a uma questão de "gosto". A pergunta a ser feita seria esta: quais são as razões do mal-estar em usar o Ordo aprovado e promulgado por Paulo VI? Tenho a impressão de que uma resposta honesta a essa pergunta revelaria que as razões do mal-estar não são, em boa substância, dissimilares daquelas que finalmente se revelaram plenamente no momento do recente cisma, nos gestos e nas palavras dos expoentes da FSSPX. Se o mal-estar está ligado, como creio, precisamente aos temas controversos que levaram ao cisma, então é necessário um esclarecimento e é preciso exigir uma conversão para não viver na hipocrisia. O risco é querer conservar e defender o Vetus Ordo litúrgico para restaurar e radicalizar o Vetus Ordo eclesial, antropológico, social, cultural e político!
Torna-se urgente não só reiterar a importância do Concílio Vaticano II, mas também ativar critérios de discernimento para verificar se a sua acolhida é autêntica ou apenas formal. Com a FSSPX as coisas se esclareceram finalmente, porque vieram à tona ao manifestar claramente que é a Igreja católica que deve se converter, abjurando o Concílio, e não o contrário. Agora é preciso esclarecer a posição de quantos continuam a dizer, em palavras, que aceitam o Concílio e que obedecem ao Papa como verdadeiros filhos da Igreja, citando inoportunamente Teresa de Ávila, e, ao contrário, continuam a se pôr substancialmente com a mesma postura em relação ao mundo contemporâneo e ao modo de ser Igreja no tempo presente. O risco é que, para além das afirmações de princípio, essas realidades definidas "tradicionalistas" permaneçam impermeáveis à reflexão teológica e ao magistério das últimas décadas.
Um papel "disfuncional" da teologia?
Parece-me que a consequencialidade teológica é disfuncional: a esmagadora maioria dos sacerdotes, religiosos e monges já estudou a teologia pós-conciliar, mas frequentemente parece que, apesar de terem superado brilhantemente os exames, esses estudos não "formaram" a sua "personalidade crente e ministerial". Por vezes, o percurso de estudos teológicos parece vivido como uma portagem a pagar para depois ter via livre para seguir o próprio sentir ou, para retomar os artigos destes dias, o próprio "gosto"!
A questão litúrgica é o elemento revelador de uma sensibilidade e agora torna-se imperioso cessar de mimar e acarinhar os "tradicionalistas" de casa para pedir-lhes que se declarem e não que se camuflem. Isso deve ser feito com o mesmo rigor e impaciência com que se contêm as posições consideradas "vanguardistas". Assim como os órgãos competentes freiam as corridas para a frente, penso em todas as questões colocadas pela Igreja alemã, é necessário que peçam para acelerar o passo a quem fica para trás, sem ser perturbado e quase protegido por uma espécie de imunidade ligada ao respeito pela "sua" sensibilidade espiritual e pelo seu particular "gosto". Se fosse assim, então seria preciso condescender também com outros "gostos", ainda que de sinal radicalmente oposto.
Na lógica da comunhão, é preciso exigir não só frear, mas também acelerar.
O único rito comum e as suas formas
A tese defendida neste blog parece-me fundamental: o único Rito aprovado como lugar de experiência de comunhão e de crescimento na comunhão, ainda que vivido de modo seletivo-eletivo, torna-se uma exigência incontornável. De fato, quem negasse poder "rezar" assim deveria explicar honestamente, antes de tudo a si mesmo e depois aos outros, por que o Ordo promulgado por Paulo VI coloca problema na vida espiritual. Tenho a impressão de que as explicações, caso fossem honestamente explicitadas, revelar-se-iam não muito diferentes, nem suficientemente distantes do que finalmente pudemos ler e ouvir nestes últimos dias dos irmãos "fideístas", como me permito chamá-los.
Muitos falam nestas horas de um momento de dor e de crise por essa separação declarada. Mas, como já no passado, essa crise poderia e talvez devesse ser uma ocasião de discernimento, se for tomada a sério do ponto de vista teológico e não simplesmente emocional. Todo discernimento espiritual tem como condição prévia a disponibilidade para perder tudo para reencontrar tudo na lógica pascal e evangélica.
Se, ao contrário — e seria de esperar —, o mal-estar de quantos praticam o Vetus Ordo na plena comunhão católica não corresponde ao dos "fideístas", então penso que é preciso pedir que adotem o Ordo aprovado de modo seletivo-eletivo, como fazem todos os outros. No seu caso, privilegiando as formas mais próximas à sua sensibilidade, como a língua, o latim, e a eucologia, o Cânon Romano.
Uma edição "bilíngue" do Missal Romano
Para ajudar a evitar a confusão entre a língua adotada na celebração e a diferença do Ordo, poder-se-ia aventar a publicação de uma edição bilíngue do Missal Romano nas diversas traduções devidamente aprovadas, com o texto latino em frente: assim a ninguém escapará que se trata do mesmo e único Ordo, e não se trapaceará mais na confusão entre celebração em latim e celebração em Vetus Ordo. Desse modo, tirar-se-ia proveito da sugestão do abade de Solesmes, mas sub contrario, evitando assim aproximar os dois Ordines num mesmo livro, de fato equiparando-os, quando não são equiparáveis, como esclareceu o papa Francisco com a Traditionis Custodes.
Chegou o tempo das perguntas certas para chegar com honestidade a tentar respostas adequadas. Para isso, não se deve deixar tomar pelo medo de que alguém ainda vá embora, mas dar-se reciprocamente e honestamente os meios para qualificar a comunhão, até saber pagar o preço da comunhão.
Datar com precisão a liturgia "de sempre"
Seria ainda muito útil começar a datar o que é invocado como "tradição ab immemorabili". Como foi recordado por Grillo, na realidade e apesar de tudo, a "liturgia de sempre" sofreu uma mudança considerável com a restauração da Vigília Pascal nos anos cinquenta do século passado, por vontade de Pio XII. Como é que essa inovação, ostensivamente combatida pelo cardeal Siri, é acolhida e praticada, e não tudo o que aconteceu depois sob o impulso de um Concílio inteiro? Quando se fala da liturgia "de sempre e desde sempre", a contas feitas, trata-se de um quarto dos dois milênios do cristianismo, um punhado de cinco séculos! Também sobre esse ponto seria preciso entender-se. Quando no site de Solesmes se fala com admiração e nostalgia da beleza do latim na liturgia, diz-se que "para conservar e fazer viver esse tesouro, não nos parece excessivo passar alguns meses para aprender o latim". E por que não empregar um ano para aprender o grego litúrgico e dois anos para aprender o aramaico falado por Jesus?
A reescrita da tradição
Os irmãos de Solesmes lembram justamente o seguinte: "Uma grande parte dos textos da liturgia latina é muito antiga. Alguns têm mais de 1500 anos. São verdadeiras joias doutrinárias e literárias, polidas por séculos de uso ininterrupto. O mesmo pode ser dito do canto gregoriano: essas melodias, frequentemente com mais de 1000 anos, foram especialmente compostas para valorizar textos redigidos em latim, em sua maioria tirados da Bíblia." Nestes últimos sessenta anos, em alguns mosteiros — sobretudo franceses — o trabalho de reescrita de textos e de sua remusicalização foi notável e, onde foi feito, marcadamente fiel ao princípio de lex orandi-lex credendi. Quanto aos textos, superou-se o enquadramento amatriocentrico da himnografia latina para dar espaço a uma centralidade da graça e da misericórdia do Evangelho! Quanto às músicas, basta pensar nos cânones de Taizé, que fizeram vibrar, sentados no chão de pernas cruzadas, milhares de jovens de todo o mundo, e cujo primeiro compositor, Jacques Berthier, colaborou junto com outros na renovação do repertório litúrgico em língua francesa. Não se trata certamente de impor isso, mas é tempo de superar a ideia de que o que é "datado" é automaticamente "mais adequado": por vezes pode ser ao menos equivalente para nutrir a vida espiritual dos crentes.
A insistência, por vezes obsessiva, nas formas litúrgicas e consuetudinárias recebidas como Lex vitae, que produz um juízo negativo sobre o modo de viver e de esperar da esmagadora maioria dos nossos irmãos e irmãs em humanidade, faz surgir alguma pergunta sobre a compatibilidade evangélica de tal modo de perceber-se no interior e de perceber o exterior. A liturgia como lugar de abertura à transcendência, sempre excedente sobre qualquer sua formalização dogmático-ritual, produziu nestes últimos sessenta anos grandes experiências de autêntica espiritualidade, para além de qualquer forma de guetização, com o consequente risco de deixar-se tentar pelo senso de exclusividade que, frequentemente, gera a exclusão para cultivar o exclusivismo.
O preço a pagar pela conversão
Talvez o verdadeiro mal-entendido acerca do impulso para uma Igreja evangelizada antes que evangelizadora, tal como proposto pelo Concílio Vaticano II, tenha sido a ingênua remoção do preço a pagar que esse caminho de conversão teria comportado e continua a exigir para quem não dele se desvia. Renunciar a uma postura sacral, tomando distância de um suporte cultural-político para sustentar a própria identidade e missão, segundo o estilo constantino, não podia deixar de ter consequências em termos de minimalidade numérica, de irrelevância e de marginalidade, como "profetizou" o teólogo Joseph Ratzinger logo após o Concílio e no início do Pós-Concílio. Reconhecer a bondade da sexualidade e o direito a uma felicidade plena, não apenas no além, mas também nesta vida percebida como parte da vida eterna prometida e não como sofrida preparação das alegrias futuras, não podia deixar de colocar em crise um sistema cujo funcionamento e renovação geracional devia muito a situações de pobreza material em busca de promoção social e a uma radical culpabilização das consciências para poder controlá-las e orientá-las.
Falar com parresía
A quem havia errado era quem pensara que o Concílio teria reforçado a imagem e o funcionamento da Igreja, tornando-a mais acessível. A conversão evangélica criou margens de liberdade como consequência da recuperação de uma igual dignidade de todos os batizados e do reconhecimento da respeitabilidade das outras religiões e de diferentes percursos espirituais. Que os seminários e os conventos se esvaziassem dos números habituais e desejáveis era uma consequência natural e, paradoxalmente, providencial. Dito isso, não significa que não se possa melhorar e crescer nesse processo de conversão e de renovação, nem tampouco integrar o que, talvez com demasiada pressa, foi posto de lado. Não obstante, é indesejável recriar um mundo e um modo de estar no mundo que, apesar da sua beleza estética e ética, não honra a lógica da encarnação, em virtude da qual a salvação está incardinada na história em processo por sua própria natureza.
Talvez seja chegado o tempo de falar com parresía de tudo isso, e não do "latim"!
Fratel Michael Davide — Novalesa, 6 de julho de 2026
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