O método pastoral e a escuta sinodal. Artigo de Matias Soares

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30 Junho 2026

"A Igreja contempla os desafios potencializados; mas, também as possibilidades que vão sendo reconhecidas à pregação da Verdade testemunhada por Jesus Cristo. O que está em continuidade com o que ela, no transcurso da sua história, foi anunciado e fazendo com que, graças a ação do Espírito Santo, e a sua Tradição, foram sendo as fontes ao genuíno processo de ‘inculturação’ da única e mesma mensagem", escreve Matias Soares, pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório-Natal/RN, Capelão da UFRN.

Eis o artigo.

A sinodalidade é uma proposta performativa e qualificativa da nossa prática pastoral. A Igreja, por sua natureza, é essencialmente comunhão. Mas, o seu estilo precisa ser sinodal. Uma é a sua ontologia; a outra a sua existência. Enquanto uma é reconhecida a partir da relação trinitária; a outra é o reflexo de como a Igreja é chamada a agir. O Papa Francisco tinha total consciência quando afirmou que o “estilo da Igreja no terceiro milênio é o da sinodalidade”; pois, num mundo marcado por tantas polarizações e negações das alteridades, quem é cristão deve ser sinodal. Sem a abertura ao Outro, não conseguimos ser testemunha credível do Evangelho. Sem esse modo de operar, fechamos as portas para que o anúncio do Reino de Deus chegue aos corações e às mentes de quem ainda não viveu o encontro pessoal com o Senhor; e sem essa experiência “a Alegria do Evangelho não enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. E quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (cf. EG, 1).

A pastoralidade, além do conteúdo querigmático e da proclamação do reinado de Deus, exige as metodologias, que levem em conta os muitos contextos antropológicos, com suas pontecialidades e perspectivas diversas (cf. Leia aqui.); ou seja, os caminhos, as formas e sistematizações da ação evangelizadora devem ser desenvolvidos e atualizados constantemente. Num mundo que tornou-se uma grande “aldeia global” (cf. M. Mcluhan), a Igreja precisa reconhecer que “’Jesus caminha pelas ruas, atravessa as praças, visita os nossos bairros, habita os lugares da nossa vida quotidiana. Ele é o Deus próximo que caminha com o seu povo, o Senhor da história’ (Homilia na “Plaza de Cibeles”, Madrid, 7 de junho de 2026). Também hoje o Senhor continua a preceder-nos na história, e a Igreja, antes de mais, é chamada a reconhecer a sua presença”(cf. Leia aqui), pontuou o Papa Leão XIV. Temos que nos envolver com a dinâmica da história, sem medos, nem subterfúgios, que nos colocam em situação de distanciamento e auto-centrados, falando para nós mesmos, sem horizontes que precisam ser vistos, tendo em vista um mundo, que não é mais o da cristandade e que pode ser fecundado pela força transformadora do Evangelho.

A Igreja contempla os desafios potencializados; mas, também as possibilidades que vão sendo reconhecidas à pregação da Verdade testemunhada por Jesus Cristo. O que está em continuidade com o que ela, no transcurso da sua história, foi anunciado e fazendo com que, graças a ação do Espírito Santo, e a sua Tradição, foram sendo as fontes ao genuíno processo de ‘inculturação’ da única e mesma mensagem (cf. Hb 13,8-9). Na perenidade desta qualificada e quantificada Verdade, conteúdo e método exigem-se mutuamente. Jesus Cristo não dispensou os contextos e parábolas para anunciar o Reino de Deus. Era o grande Pedagogo do Pai (cf. Mt 5,1-12). Ensinava como quem tinha autoridade (cf. Mc 1,22.27). Favorecia as equipes; fossem os doze, ou os setenta e dois (cf. Mt 10,5-15; Lc 10,1-24). Como Mãe e Mestra, o cuidado, a proximidade, o olhar atento e personalizado, reconhecendo em cada pessoa a sua identidade única e integral, a Igreja também tem a tarefa de pedagoga do Evangelho, ensinando e conduzindo a humanidade aos valores que têm a sua fonte no que o Senhor ensinou (cf. Mt 28,19-20). A cultura contemporânea, mais uma vez, está carente destas verdades e sentimentos que continuam a ser sugados e preconceituosamente renegados às urgências civilizatórias e sistêmicas do nosso Povo.

No processo sinodal a “arte da escuta” ocupa um lugar de primazia. A escuta do outro, da comunidade e do Espírito Santo (cf. Ap 2,7). Num mundo triturado pela neurose coletiva, que não permite mais a atenção ao Outro, aprimorar esta arte é um ato subversivo. Ela é emergente e deve ser fortalecida (cf. Leia mais). Os primeiros a serem ouvidos, precisam ser os que estão nas periferias geográficas e existenciais. No estilo sinodal ainda falhamos nessa urgência. Com isso, perdemos a oportunidade de acolher o ‘magistério dos mais pobres e sofridos’, que são os preferidos de Deus, sem serem exclusivos; já que o convite à conversão ao Reino dos Céus é para todos (cf. Mc 1,14-15). Esse modo de agir não pode ser esquecido pelas nossas distorções no exercício do ‘poder na Igreja’, que é sempre uma questão marcada por complexidades existenciais e estruturais. Por isso, também faz-se necessária a revisão das nossas conjunturas, sejam formativas ou de governo, enquanto canais facilitadores desta proximidade evangélica, que deve ter a marca do serviço e da compaixão de cada discípulo missionário, que compõe o corpo místico de Cristo (cf. Jo 13,13-15; Lc 10,25-37; Cl 1,24).

Enquanto Igreja Particular de Natal, considerando a sua renovação pastoral, com o olhar ao seu passado de protagonismo e de promoção humana, com o maravilhoso “Movimento de Natal”, que aportou um conjunto de ações diferenciadas e integradas, porque tinha no seu coração os valores do Evangelho, sentindo com a Igreja na sua catolicidade, que renova a sua opção de atualizar os ensinamentos do Concílio Vaticano II, que, de acordo com o Papa Leão, estão sintetizados no que o Papa Francisco nos deixou no seu documento programático, a “Alegria do Evangelho”, e, por isso, a convocação dos Cardeais para um Consistório, com o objetivo de aprofundar aquelas atualizações, somos chamados à superação das tensões que nos são impostas na atualidade; caso assumamos tenazmente o anseio de promover a “conversão pastoral” das nossas realidades internas, com o olhar atento e vigilante aos novos sinais dos tempos (cf. Leia mais). Sem cairmos na tentação de um ‘nominalismo fóssil’, que nos tornará saudosistas de um passado, que pode ser farol, caso façamos uma ‘justa hermenêutica’ desta transição epocal pela qual estamos passando, temos as condições de lançarmos as redes para águas mais profundas (cf. Lc 5,1-11).

Enfim, assumindo com lucidez a ideia de que a metodologia é uma construção permanente, auto-crítica e processual à ação evangelizadora, podemos trazer para o nosso contexto pastoral os quatro referenciais apresentados pelo Papa Leão XIV, no segundo Consistório convocado por ele para que os Cardeais o auxiliem na condução da Igreja. Em Natal, já que estamos vivendo o nosso primeiro sínodo arquidiocesano, podemos trazer essas mesmas questões contemporâneas aos nossos espaços de debate, especialmente, durante as assembleias sinodais, que à luz da ação do Espírito Santo, serão espaços privilegiados, não só ao amadurecimento da construção do nosso Diretório Pastoral, como também poderão ser lugares da reflexão e do aprofundamento destes mesmos desafios conjunturais, a saber: 1- Somos convidados a contemplar o mundo no qual a Igreja é chamada a anunciar o Evangelho; 2- Refletirmos juntos sobre a cultura do poder e a civilização do amor; 3- O contributo que a Igreja pode oferecer à construção do bem comum; e 4- Os caminhos seguidos à implementação do Sínodo.  Temos que olhar os canteiros nos quais devemos estar para testemunhar o Reino de Deus; mas sempre ‘sentindo com a Igreja’. A nossa metodologia pastoral tem uma história de alegrias e esperanças. Em nossos dias, temos um rico magistério eclesial e muitas possibilidades que podem ser utilizadas para que sejamos sal e luz para os nossos tempos. Vamos em frente. Assim o seja!

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