"A vida religiosa pode ter um lugar insubstituível, ao apontar uma forma de estar no mundo, que, por suas próprias características, é um sinal de Esperança. Mas este sinal só será eficaz se conseguir expressar-se existencialmente, trazendo um autêntico testemunho de vida, que supõe uma busca pessoal e a construção do próprio itinerário, no diálogo com os outros, permanentemente em busca do Encontro maior. É aí que se descobre o próprio cerne da vida religiosa, que pode assumir formas as mais diversas, mas que busca sempre a dimensão essencial e mais profunda da Vida."
O artigo é de Lucia Ribeiro, socióloga, trabalhou como pesquisadora, nas áreas de saúde, sexualidade, reprodução, migrações, envelhecimento e religião. É membro do Conselho Editorial do Boletim REDE e assessora de movimentos sociais. Foi casada com Luiz Alberto Gomez de Souza, com quem teve três filhos/as e seis netos/as.
Lucia Ribeiro | Foto: Arquivo Pessoal.
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
Ao pensar em vida religiosa, imediatamente me vêm à mente figuras diversas de religiosos e religiosas, que povoaram minha existência, desde os tempos de infância e adolescência, na cidadezinha do interior, até o mundo globalizado de hoje. Tal diversidade poderia explicar-se pela transformação que vem ocorrendo nas formas de viver esta experiência. Não se trata, entretanto, de um processo linear: mudanças significativas convivem com aspectos mais conservadores ou mesmo com retrocessos. Neste processo, minha própria maneira de enfocar a vida religiosa também mudou: o olhar de hoje é talvez menos ingênuo e certamente mais exigente...
As primeiras imagens estão envoltas no clima de respeito e admiração característico de uma época pré-conciliar: os religiosos eram vistos como aqueles que “haviam escolhido a melhor parte”, a virgindade era considerada um “estado superior”. Estabelecia-se uma certa distância e, no caso das freiras de clausura, esta era claramente marcada por grades e cortinas, que delimitavam suas fronteira. Contudo, no caso das professoras do meu colégio -, com quem convivia diariamente -, a distância era marcada pela própria posição, já indicada pelo uso do hábito. O hábito dissimulava as formas do corpo e era completado por um véu montado sobre uma estranha armação, que lhes dava um ar medieval. Além disso, a rigidez e disciplina típicas de freiras alemãs não estimulavam nenhuma aproximação.
Não esqueço minha surpresa e, aí sim, uma autêntica admiração, quando, já universitária, no Rio, descobri uma antiga companheira da JEC, que vinha de uma família quatrocentona paulista e que havia deixado tudo para se tornar irmãzinha de Foucauld. Ela vivia em plena favela carioca, no alto do morro de São Carlos, identificando-se com o povo e adotando suas condições de vida. Esta total abertura ao outro, numa “opção pelos pobres”, vivida existencialmente – antes mesmo de a expressão ser assumida pela Teologia da Libertação -, me impressionou. E continua me impressionando até hoje: penso no padre italiano, que entrevistei, em minha pesquisa sobre o clero. Era jovem e inteligente, além de belíssimo, e abandonou possibilidades de sucesso no Primeiro Mundo para assumir uma vida simples junto com o povo, enfrentando a pobreza e a violência da Baixada Fluminense. Lembro ainda minha amiga Marília, excepcionalmente inteligente e extremamente competente, no campo profissional, que foi viver no Irã, como religiosa, abrindo o diálogo com os muçulmanos e traduzindo o Evangelho para o persa.
Esta é a primeira característica que me impressiona e que gostaria de ver estampada em uma imagem de vida religiosa no século XXI: a capacidade de se abrir ao outro e de se entregar totalmente à causa dos mais pobres. Capacidade que significa eliminar distâncias, sem com isto perder a própria identidade.
Percebemos, assim, o quanto o encontro consigo mesmo é fundamental. Supõe justamente um autoconhecimento e uma autoaceitação que são a base de um encontro autêntico com o outro. O contrário é o que involucra a pessoa como um todo, inclusive com sua dimensão sexual, com a qual a Igreja sempre teve tanta dificuldade. Assumir a própria sexualidade e o próprio corpo é o primeiro passo.
Aqui outra imagem me vem à mente: há vários anos atrás, participando de um encontro inter-religioso de mulheres, fiquei encantada quando a mãe de santo, com seu vestido de rendas, adornada com colares e pulseiras, começou a dançar, entregando-se de corpo inteiro ao ritmo da música. No meio do evento, entretanto, entrou na sala uma freirinha, absolutamente tradicional, com um hábito comprido e largo que dissimulava totalmente o corpo, completado por um véu ocultando cabelos e parte do rosto, numa total negação da própria feminilidade. O contraste não podia ser maior. É evidente que, neste caso, eu me limitava às aparências. Não poderia julgar o que a diversidade de imagens poderia representar, em um nível mais profundo. Mas, certamente, a maneira de se colocar no mundo era diferente...
Há mais um elemento: no caso das freiras, reconhecer a própria feminilidade pode ser um fator importante para identificar-se com a luta das mulheres por seus direitos, ainda tão ignorados em um sistema patriarcal. E aqui ressalto o exemplo de Ivone Gebara: ao assumir existencialmente seu compromisso com as mulheres dos setores populares, teve a coragem de expressar sua solidariedade com as que, diante de condições completamente insustentáveis, fizeram a opção radical de interromper a gravidez. Ivone não escapou, é claro, da dura punição eclesiástica subsequente, que só um profundo espírito de fé ajudaria a suportar. Continuou, entretanto, a desenhar uma trajetória de abertura e de liberdade, que ilumina a todos nós.
São presenças assim que a realidade atual necessita: marcada pela diversidade e pela fragmentação e por uma pluralidade de valores – ou pela ausência deles –, tal realidade frequentemente é permeada por uma situação de anomia, onde impera certo relativismo e uma impressão do “vale-tudo”.
Neste contexto, a vida religiosa pode ter um lugar insubstituível, ao apontar uma forma de estar no mundo, que, por suas próprias características, é um sinal de Esperança. Mas este sinal só será eficaz se conseguir expressar-se existencialmente, trazendo um autêntico testemunho de vida, que supõe uma busca pessoal e a construção do próprio itinerário, no diálogo com os outros, permanentemente em busca do Encontro maior. É aí que se descobre o próprio cerne da vida religiosa, que pode assumir formas as mais diversas, mas que busca sempre a dimensão essencial e mais profunda da Vida.