05 Mai 2026
"Um passo importante visado pela Palantir é desenvolver seu próprio feudo tecnológico (tecnofeudalismo) por meio do qual se destrua totalmente o que resta da privacidade das pessoas. A metodologia reside em semear o medo para vender a falsa sensação de segurança"
O artigo é de Alexandre Aragão de Albuquerque.
Alexandre Aragão de Albuquerque é arte-educador (UFPE), especialista em Democracia Participativa (UFMG) e mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE).
Eis o artigo.
O que é Palantir Technologies Inc?
É uma empresa de tecnologia, especialista em coleta de dados, fundada em 2004 por Peter Thiel e Alex Karp, com investimento inicial proveniente do Fundo In-Q-Tel, ligado à Central Intelligence Agency (CIA) — cuja função é a espionagem internacional na coleta de informações sobre governos e governantes, organizações e indivíduos estrangeiros, desenvolvendo operações secretas em defesa dos interesses geopolíticos estadunidenses.
A Palantir não se limita a produzir ferramentas com o propósito de manter a CIA equipada com a mais recente tecnologia de informação. Suas plataformas Gotham, Foundry e Apollo não só integram dados, como também os reorganizam sob uma lógica operacional que traduz a complexidade social em padrões acionáveis: o mundo surge como uma superfície legível, suscetível de intervenção em tempo real, por meio de programas de vigilância global.
O PRISM é um programa de vigilância da Palantir, descoberto e tornado público pelos documentos fornecidos por Edward Snowden, ex-funcionário da NSA — National Security Agency —, que permite aos operadores da NSA coletar vários tipos de dados de usuários da internet, incluindo histórico de pesquisas, conteúdo de e-mails, transferências de arquivos, vídeos, fotos, chamadas de voz e de vídeo, detalhes de suas redes digitais, logins e quaisquer outros dados em poder das empresas de internet. Segundo o jornal The Washington Post, o PRISM é a principal fonte primária de inteligência usada nos relatórios de análise da NSA.
Quais as implicações dessas novas tecnologias?
Antes havia o conflito, a interpretação e a disputa. Agora emerge uma arquitetura de tomada de decisões baseada em correlações, probabilidades e alertas automatizados, reconfigurando a política como uma gestão de riscos. Nesse processo, aqueles que projetam a infraestrutura não só executam decisões, como também delimitam de antemão o que pode ser visto, pensado e decidido.
A doutrina da Palantir identifica-se, sem ambiguidades, com a capacidade de exercer poder e com a produção de superioridade estratégica. A tecnologia deixa de ser um espaço de inovação aberta para se tornar infraestrutura de soberania. E para tanto, a militarização é fundamental. Consequentemente, deve haver uma integração entre Estado e empresas de tecnologia por meio da qual tais empresas devem agir, como imperativo político, no desenvolvimento de funções estratégicas do aparato de segurança nacional. Nesta doutrina, a democracia deixa de ser o espaço de debates públicos, soluções pacíficas de conflitos, deliberações e representação, para constituir-se como um cálculo técnico de governar a partir de um único lugar: o meu e de ninguém mais.
Nos últimos anos, a Palantir fortaleceu sua colaboração com o aparato militar e de inteligência de Israel, oferecendo recursos de análise de dados, integração de fontes e modelagem de alvos em contextos bélicos. Diversos relatórios de organizações de direitos humanos apontaram que sistemas desse tipo participaram — e continuam participando — da estratégia de destruição seletiva, típica das ações de guerra do estado sionista, como ocorreu com o assassinato de 170 adolescentes estudantes em Teerã no dia 28 de fevereiro de 2026.
O economista, ex-ministro das Finanças da Grécia (2015) e membro do partido Syriza, Yánis Varoufákis, teceu uma breve reflexão sobre o manifesto de 22 pontos publicado pela Palantir, expondo a nova ideologia fascista do Vale do Silício: sequestrar totalmente o Estado por meio da guerra sem fim. A Democracia deve ser esvaziada, em nome do pragmatismo tecnológico e militar, intensificando o ataque a populações descartáveis.
Primeiramente a relação de extrema dependência entre as empresas de tecnologia do Vale do Silício (Califórnia, EUA) com o capital financeiro predador que lhes possibilitou o surgimento. Segundo Varoufákis, a elite da engenharia tecnológica siliciana defenderá essa fração da classe dominante até a morte.
Um passo importante visado pela Palantir é desenvolver seu próprio feudo tecnológico (tecnofeudalismo) por meio do qual se destrua totalmente o que resta da privacidade das pessoas. A metodologia reside em semear o medo para vender a falsa sensação de segurança.
Neste sentido, a Palantir é bastante clara: "O poder coercitivo neste século será baseado em softwares. A ética é para os ingênuos. Glória à força bruta!" O Ocidente precisa de mais softwares assassinos da Palantir, como por exemplo, robôs assassinos com inteligência artificial. Além disso, toda pobre alma deve ser recrutada para o serviço militar. A Palantir está trabalhando incansavelmente para equipar os fuzileiros navais estadunidenses com robôs assassinos que os privem de qualquer resquício de discernimento ético no campo de batalha.
Ou seja, a sociedade estadunidense deve ser completamente impossibilitada de qualquer debate que possa restringir a capacidade da Palantir de garantir que as Forças Armadas dos EUA eliminem qualquer possibilidade de rejeitar a seleção de alvos feita por seus softwares, como ocorreu com o ataque seletivo a uma Escola de Meninas em Teerã, que assassinou 170 adolescentes em salas de aula.
Por fim, registre-se o tópico 9 no qual a "Palantir acredita que Donald Trump deveria ser beatificado por sua dedicação à causa nacional".
Portanto, o Manifesto neofascista da Palantir é um catecismo para a sacralização do mal: "Os negros, muçulmanos, a maioria dos asiáticos e, claro, as mulheres são subumanos inferiores. Nunca se deve permitir a entrada desses subumanos (nos EUA), exceto como serventes ou provedores de serviços sexuais" (Tópico 22).
A Nova Estratégia de Segurança Nacional (NSS) do Governo Trump: breves considerações
A publicação da NSS tem valor não por apresentar uma estratégia propriamente dita, mas para fornecer uma visão de como uma determinada administração pretende se posicionar. No caso específico, este documento destaca a ideologia trumpista com sua "inovação" da condução da política externa estadunidense.
Publicada em 4 de dezembro de 2025, a NSS estranhamente adota um tom conciliatório em relação aos seus dois grandes concorrentes mundiais — Rússia e China — enquadrando o desafio competitivo global como "gerenciar as relações europeias com a Rússia" e trabalhar para "reequilibrar a relação econômica com a China para uma condição mutuamente vantajosa".
A ordem global, segundo o documento, "se baseia no domínio dos maiores, mais ricos e mais fortes", uma perspectiva que parece colocar Washington, Moscou e Pequim em um patamar exclusivo de potências dominantes, sinalizando aos outros países sua capacidade de ação estratégica limitada. A visão de mundo subjacente parece representar um afastamento considerável daquilo que orientou a política externa dos EUA desde o pós-guerra, com fortes críticas às instituições multilaterais, ensejando o abandono da ordem internacional baseada em regras como fundamento para a paz e para a prosperidade global.
Uma segunda questão não menos importante: ao reorientar os Estados Unidos para o Hemisfério Ocidental, o governo Trump reitera a Doutrina Monroe, afirmando uma presença neoimperialista na região, na qual as forças armadas se concentrarão prioritariamente. Sua estratégia identifica três grandes ameaças: Migração — define explicitamente toda migração, inclusive a legal, como algo indesejável, considerando o papel da América Latina como o de impedir o fluxo de migrantes para os EUA; Drogas e Crimes — ampla permissão para que os EUA mobilizem seu poderio militar contra ataques a cartéis e a grupos designados como organizações terroristas estrangeiras, em qualquer lugar do Hemisfério; China — necessidade de contrariar fortemente os múltiplos aspectos da presença da China no Hemisfério Ocidental, como expulsá-la de portos latino-americanos e de outras estruturas críticas.
O documento afirma textualmente que "a força é o melhor dissuador", em um cenário onde a inovação econômica, as vantagens tecnológicas e o próprio sistema financeiro apresentam-lhe fragilidades, colocando sua hegemonia em risco. Um exemplo clássico são as sanções econômicas que, se por um lado desempenham um papel estratégico na política externa, por outro podem tensionar alianças e minar o status do dólar como moeda de reserva global. Ao exagerar sua influência econômica, abre espaço para que outros países se adaptem, construindo cadeias de suprimentos, sistemas de pagamento e alinhamentos políticos alternativos.
Na apresentação do documento, Trump afirma que em tudo o que faz coloca a "América Primeiro" (America First). E continua: "Este documento é um mapa do caminho para assegurar que os EUA continuem sendo a maior e mais bem sucedida nação da história." Muito provavelmente ele conta com a tecnologia da Palantir, com seu catecismo vil, para realizar esse devaneio.
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