A guerra dataficada: Big Techs, soberania digital e imperialismo no século XXI

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16 Abril 2026

“Se há algo verdadeiramente novo na guerra dataficada, não é apenas sua capacidade destrutiva com base na análise massiva de dados, mas sua pretensão de eliminar o próprio conflito moral que historicamente acompanhou o ato de matar com fins militares”, escrevem Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Nelson Diniz, professor do Colégio Pedro II, em artigo publicado por Observatório das Metrópoles, 02-04-2026.

Eis o artigo.

“Uma distopia como a retratada no filme americano O Exterminador do Futuro pode um dia se tornar realidade” [1]. A frase do porta-voz do Ministério da Defesa chinês, Jiang Bin, resume o conteúdo da recente advertência da China aos Estados Unidos sobre um possível “apocalipse” provocado pela expansão do uso militar da inteligência artificial (IA). Em nossa perspectiva, não se trata apenas de exagero retórico. Ela ecoa, ainda que de forma dramática, um processo já em curso, cuja principal consequência será profunda e duradoura: a consolidação de uma nova forma de guerra, estruturada pela articulação entre finanças, extração massiva de dados, georreferenciamento, tecnologias algorítmicas e a crescente convergência entre poder corporativo e aparato militar.

O que está em jogo, portanto, não é só a criação e introdução, no campo de batalha, de novas armas, como os drones. Estamos diante da completa reorganização da racionalidade da guerra e de suas conexões com a vida econômica, política e social. Argumentos como esse podem ser encontrados, por exemplo, em As Big Techs e a guerra total, ensaio no qual o sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira propõe o conceito de “complexo industrial-militar-dataficado”. Como o título sugere, o autor oferece uma atualização do clássico conceito de complexo militar-industrial, destacando a incorporação das grandes empresas de tecnologia ao núcleo estratégico das operações militares contemporâneas. Nesse novo arranjo, big data, inteligência artificial e infraestruturas digitais (hardwares e softwares) tornam-se elementos centrais para a vigilância, a tomada de decisões e a condução da guerra, ampliando o foco da produção de armamentos para o controle e processamento de dados.

Ainda que existam precedentes, uma vez que o complexo militar-industrial sempre esteve na vanguarda do desenvolvimento tecnológico, estamos diante de transformações bastante radicais. Assim, os grandes conglomerados digitais deixam de ser meros fornecedores e passam a atuar como agentes fundamentais do referido complexo. Ao fazê-lo, articulam interesses econômicos e militares em conformidade com um modelo que revoluciona a capacidade de monitoramento e intervenção, ao mesmo tempo que intensifica riscos à democracia, à soberania e aos direitos civis.

A operação dos Estados Unidos e de Israel contra a liderança do Irã, iniciada em 28 de fevereiro de 2026, sintetiza essa inflexão histórica. Está cada vez mais explícito que a violência e os atos de guerra deixaram de ser mediados, prioritariamente, por decisões humanas limitadas por princípios éticos (ou, no mínimo, pelo cálculo dos riscos políticos). O que observamos, agora, são as ações de sistemas capazes de processar, em tempo real, volumes gigantescos de dados, abrangendo desde metadados de comunicações e rastros digitais até dados geoespaciais em tempo real, imagens de sensoriamento remoto, padrões de mobilidade urbana e militar, fluxos econômicos e logísticos, interações em plataformas digitais e informações biométricas e comportamentais. Tudo isso abrindo caminho para decisões letais que podem ser tomadas quase instantaneamente, quando não automaticamente.

Cálculo algorítmico e a janela de oportunidade no ataque ao Irã

A chamada “janela de oportunidade” que teria precipitado o ataque responsável pela morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, está longe de ser um mero detalhe operacional: ela expressa a aceleração radical do tempo decisório que caracteriza a guerra contemporânea. Tudo indica que o tradicional ciclo militar de observar, orientar, decidir e agir (conhecido como ciclo OODA) tende a ser reduzido a minutos, segundos ou até frações de segundos, em uma dinâmica na qual a velocidade de processamento passa a ser decisiva para a condução do conflito.

Há relatos de que a operação levada adiante pelos Estados Unidos e por Israel foi precedida por meses de monitoramento intensivo e de que, nos momentos que antecederam o ataque, sistemas de inteligência identificaram a presença simultânea de altas lideranças iranianas em um mesmo complexo em Teerã. Esse tipo de informação, obtida a partir de interceptações, vigilância eletrônica e análise de sinais, teria sido decisivo para o início da ofensiva.

É plausível supor, como assinalam algumas fontes jornalísticas [2], que essa identificação tenha resultado do cruzamento de múltiplas bases de dados heterogêneos processados por sistemas de inteligência artificial capazes de detectar anomalias e correlações invisíveis à análise humana convencional. Quer dizer, a janela de oportunidade não teria surgido de um único indício, mas da convergência probabilística de dados que, combinados, apontaram a iminência de uma fragilidade estratégica iraniana.

Seja como for, mais do que reconstituir os detalhes da operação, que permanecem, em grande medida, sob sigilo, o que importa é compreender sua lógica: a transformação de um volume gigantesco de dados, capturados inclusive de fragmentos dispersos do cotidiano, em sinais acionáveis, convertidos em decisão letal por meio de sistemas algorítmicos. É precisamente esse tipo de atividade que expressa a racionalidade da guerra dataficada.

Ao ser mobilizado no Irã, esse poder algorítmico-informacional, amplamente concentrado nos Estados Unidos e em seus aliados, instaurou, na verdade, uma grande janela de incertezas, arrastando diversos países para um novo conflito cujas proporções e repercussões permanecem em aberto. O que já se pode antever, entretanto, é que seus efeitos extrapolam o terreno geopolítico imediato e a escala geográfica do Oriente Médio.

Esses efeitos tendem, por exemplo, a incidir sobre a dinâmica da “Grande Inflação” que, ao menos desde a pandemia de COVID-19, vem pressionando os preços em todo o mundo. É possível, do mesmo modo, que eles venham a reconfigurar o cenário das eleições de meio de mandato norte-americanas, previstas para o segundo semestre de 2026. Ainda assim, estamos apenas no limiar de um processo conflitivo cujas transformações mais importantes seguem, por ora, indeterminadas. O que é certo, diga-se novamente, é que estamos testemunhando mudanças disruptivas na forma como a guerra é conduzida.

Essas transformações na “arte da guerra” não podem ser compreendidas apenas como um salto tecnológico. Como dito, elas expressam uma reconfiguração estrutural do próprio poder militar, que passa a se sustentar em infraestruturas digitais monopolizadas por poucos Estados e grandes corporações. Por mais que aqui também existam precedentes, trata-se de um deslocamento histórico que vincula, de maneira cada vez mais estreita, capacidades bélicas, arquitetura informacional e circuitos financeiros globais.

Mas esse processo não se deu de forma espontânea. Ele foi viabilizado por um maciço redirecionamento de capitais desde a crise de 2007-2008, quando políticas monetárias expansionistas, impulsionadas sobretudo pelos bancos centrais dos países desenvolvidos, alimentaram a valorização e a expansão das empresas de tecnologia. Foi nesse ambiente de abundância de liquidez e financeirização que se estabeleceu a base material do atual poder algorítmico-informacional. Como resultado, empresas como Palantir Technologies, Google, Amazon e Microsoft já não podem ser compreendidas como meras prestadoras de serviços. Elas constituem, hoje, a própria ossatura do complexo militar-industrial-dataficado.

No entanto, tudo isso não ocorre sem contradições. A disputa entre a Anthropic e o Pentágono [3], que chegou à capa da revista Time, é sintomática. Ela revela um embate entre, de um lado, tentativas, ainda que limitadas, de impor salvaguardas éticas aos usos militares de sistemas de IA e, de outro, a pressão estatal por sua flexibilização em nome da “segurança nacional”.

Gestão algorítmica da morte: a dimensão antropológica da guerra dataficada

A guerra dataficada explicita, ainda, uma mutação antropológica profunda. À luz dos argumentos de Grégoire Chamayou, em seu ensaio Teoria do Drone, pode-se sustentar que a conversão do inimigo em “assinatura de dados” constitui o núcleo dessa transformação. Já não se trata de confrontar um adversário identificado no campo de batalha, mas de rastrear e neutralizar perfis construídos a partir de correlações algorítmicas, aquilo que o autor descreve como uma passagem do combate à lógica da caça. Nesse enquadramento, o alvo deixa de ser um sujeito concreto para tornar-se um padrão de comportamento inferido à distância, inscrito em fluxos de dados e suscetível de eliminação remota, frequentemente dissociada de qualquer forma de reciprocidade ou reconhecimento.

Por conseguinte, a morte, nesse regime, deixa de ser um ato moralmente imputável e passa a ser um output técnico. No limite, quando um erro ocorre, como no bombardeio de alvos civis, não estaríamos mais diante de um crime, mas de uma falha de sistema ou de uma imperfeição corrigível na base de dados. Essa desumanização é agravada pela assimetria absoluta entre ataque e risco. Como se sabe, o uso de drones, por exemplo, e de equipamentos semelhantes reduz drasticamente as possibilidades de reciprocidade. A guerra deixa de ser confronto e se aproxima de um processo industrial de caça e eliminação.

A advertência chinesa, portanto, deve ser lida menos como profecia distópica e mais como diagnóstico geopolítico. O “apocalipse” não é um evento futuro repentino, mas um processo em desenvolvimento: a naturalização de uma forma de violência cada vez mais automatizada, opaca e desumanizada. Em suma, se há algo verdadeiramente novo na guerra dataficada, não é apenas sua capacidade destrutiva com base na análise massiva de dados, mas sua pretensão de eliminar o próprio conflito moral que historicamente acompanhou o ato de matar com fins militares.

A questão da soberania digital

As implicações desse modelo no sistema mundial de acumulação de poder e riqueza são igualmente radicais. A centralização da infraestrutura de dados nas mãos de grandes corporações, em sua maioria sediadas nos Estados Unidos e em outros países centrais, engendra uma nova forma histórica de dependência. Como argumenta o manifesto da Frente pela Soberania Digital [4], a concentração das capacidades de armazenamento, processamento e circulação de dados em plataformas privadas estrangeiras compromete a autonomia tecnológica e política dos países periféricos, submetendo-os a regimes jurídicos extraterritoriais e a interesses estratégicos que escapam ao controle democrático local.

Essa dinâmica torna-se ainda mais evidente quando articulada ao debate sobre as cidades inteligentes e o urbanismo de plataforma. A urbanização contemporânea, intensamente mediada por sensores, plataformas e sistemas de gestão algorítmica, transforma a vida urbana em uma fonte contínua de extração de dados. Mobilidade, consumo, segurança pública e serviços básicos passam a ser organizados por infraestruturas digitais frequentemente operadas ou fornecidas por grandes empresas transnacionais. Assim, o espaço urbano converte-se em um terreno privilegiado de captura não só de valor, mas também de informação, reforçando a dependência tecnológica e aprofundando assimetrias no controle dos dados produzidos cotidianamente pela população.

Portanto, pode-se concluir que fenômenos como a guerra dataficada não indicam o desaparecimento das dinâmicas do imperialismo e das relações de dependência, mas a sua reconfiguração em novas bases. Embora o poder econômico, a ocupação territorial e o controle direto de recursos naturais permaneçam relevantes, tais dinâmicas deixam de se assentar exclusivamente nesses elementos e passam a se estruturar, de modo decisivo, na capacidade de dominar infraestruturas digitais, governar fluxos de dados e construir arquiteturas algorítmicas que organizam o mundo contemporâneo.

Notas

[1] Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/03/11/china-alerta-eua-para-apocalipse-ao-estilo-exterminador-do-futuro-por-uso-militar-da-ia.ghtml. Acesso em 24 mar. 2026.

[2] Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1l7r97r3qvo. Acesso em: 24 mar. 2026.

[3] Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/crk8g6d5d5no. Acesso em 24 mar. 2026.

[4] Disponível em: https://soberania.digital/manifesto/. Acesso em: 25 mar. 2026.

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