Guerra: os EUA tragados pela Era Palantir. Artigo de Janet Abou-Elias e William D. Hartung

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12 Março 2026

Com o supremacismo de Trump, emerge novo complexo industrial-militar. Sua lógica: IA e armas autônomas para assassinar em massa, como em Gaza; vigiar e perseguir, como em distopia de Orwell. Mas as armas salvarão um império em colapso?

O artigo é de Janet Abou-Elias e William D. Hartung, publicado por Tom Dispatch e reproduzido por Outras Palavras, 11-03-2026. A tradução é de Antonio Martins.

Janet Abou-Elias é pesquisadora do Projeto Democratizando a Política Externa do Instituto Quincy para a Governança Responsável e fundadora da organização Mulheres pela Transparência no Comércio de Armas.

William D. Hartung é pesquisador sênior do Quincy Institute for Responsible Statecraft e autor, juntamente com Ben Freeman, de The Trillion Dollar War Machine: How Runaway Military Spending Drives America into Foreign Wars and Bankrupts Us at Home.

Eis o artigo.

“Adoro a ideia de usar um drone para borrifar urina levemente misturada com fentanil nos analistas que tentaram nos prejudicar”, disse Alex Karp, executivo-chefe da Palantir, a empresa emergente de tecnologia militar. Longe de ser um desabafo casual, sua declaração reflete uma mentalidade mais ampla que vem se consolidando no setor militarizado do Vale do Silício. Ela trata a coerção como inovação, a crueldade como franqueza e a aplicação irrestrita do poder tecnológico como inevitável e desejável.

Karp gosta tanto de debates acalorados quanto de administrar uma empresa que fabrica armamentos de alta tecnologia. Sua empresa ajudou Israel a intensificar os bombardeios e massacres contra palestinos em Gaza, e sua tecnologia auxiliou a polícia antiimigrante dos EUA, a ICE, a acelerar as deportações, além de ajudar a localizar e identificar manifestantes em Minneapolis. Karp não apenas não demonstra nenhum remorso pelos danos causados pelos produtos de sua empresa, como também se deleita abertamente com eles.

Em fevereiro deste ano, ele disse a um entrevistador da CNBC: “se você critica o ICE, deveria estar protestando por mais Palantir. Nosso produto, em sua essência, exige que as pessoas se conformem à Quarta Emenda à Constituição dos Estados Unidos (que protege os cidadãos de “buscas e apreensões ilegais”). No entanto, a provocação de Karp não o levou a pedir ao ICE que parasse de usar seu software na guerra contra a dissidência pacífica, nem o dissuadiu de aceitar um contrato de US$ 1 bilhão, sem prazo definido, com a agência matriz dessa polícia, o Departamento de Segurança Interna (DHS).

Em consonância com seu apoio incondicional à repressão interna e externa, no auge da guerra em Gaza, Karp realizou uma reunião do conselho da Palantir em Tel Aviv, Proclamou que “nosso trabalho na região nunca foi tão vital. E continuará”.

Em entrevista a Maureen Dowd, do New York Times, ele resumiu sua filosofia da seguinte forma: “Na verdade, sou progressista. Quero menos guerras. Só se acaba com uma guerra tendo a melhor tecnologia e apavorando ao máximo — estou tentando ser gentil aqui — nossos adversários. Se eles não estiverem com medo, se não acordarem com medo, não forem dormir com medo, se não temerem que a ira dos Estados Unidos caia sobre eles, eles nos atacarão. Eles nos atacarão em todos os lugares.”

A realidade está longe de ser tão simples. A tecnologia da Palantir foi usada para matar dezenas de milhares de pessoas em Gaza e em outros lugares, incluindo muitas que não tinham nenhuma ligação com o Hamas, não tinham controle sobre suas ações e, em muitos casos, nem sequer haviam nascido quando o grupo venceu as eleições locais em 2006 e começou a administrar Gaza.

Não deve haver dúvidas de que o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 foi inconcebível. Ainda assim, a reação de Israel, que resultou na morte de mais de 70 mil palestinos em Gaza — um número relativamente conservador, como até mesmo o governo israelense agora reconhece — , constitui uma resposta inteiramente desproporcional, que a maioria dos especialistas independentes define como genocídio. A ideia de que tal massacre em massa possa ser justificado como uma forma de intimidar os inimigos e reduzir a violência é intelectualmente insustentável e moralmente obscena.

Sejam bem-vindos ao mundo de Alex Karp, um dos líderes da nova onda de tecnomilitaristas do Vale do Silício.

Militarização da IA ou tecno-otimismo descontrolado

Não estamos falando do complexo militar-industrial (CMI) do sécculo XX. Os atuais gestores do CMI — executivos que comandam gigantes industriais como Lockheed Martin, RTX (antiga Raytheon), Boeing, General Dynamics e Northrop Grumman — são muito mais cautelosos em suas declarações do que Karp. Seus líderes podem ocasionalmente fazer alguma declaração sobre como o aumento das tensões no Oriente Médio ou na Ásia poderia gerar demanda por seus produtos entre os aliados dos EUA nessas regiões. Mas jamais se envolveriam no tipo de retórica abertamente orwelliana na qual Karp parece se especializar.

Ainda assim, o complexo militar-industrial do futuro prenuncia não apenas uma mudança na tecnologia ou nas práticas comerciais, mas — como sugere Karp — uma mudança cultural. Na nova etapa, o militarismo é abertamente celebrado, sem a necessidade de qualquer discurso disfarçado sobre a promoção da estabilidade global ou a defesa de uma “ordem internacional baseada em regras”. Pense no novo complexo militar-industrial como uma versão individualista e tecnológica da “guerra de todos contra todos” do filósofo Thomas Hobbes. Aqueles que o comandam querem que acreditemos que a única maneira de “vencer” uma guerra futura é entregando as chaves do mundo político a uma camarilha de seres autoproclamados superiores, liderada por figuras como Alex Karp, o fundador da Palantir, Peter Thiel, o chefe da Anduril, Palmer Luckey, e o inimitável Elon Musk.

Alex Karp é coautor do livro The Technological Republic: Hard Power, Soft Belief, and the Future of the West, no qual articula sua visão do que supostamente seria necessário para tornar os Estados Unidos novamente dominantes. O livro é um longo lamento sobre como a maioria dos norte-americanos supostamente perdeu seu senso de propósito e patriotismo, desperdiçando seu tempo em atividades triviais como reality shows e videogames. Ele e o coautor Nicholas W. Zamiska defendem uma nova missão nacional unificadora para endireitar uma nação de preguiçosos e restaurar os Estados Unidos em seu devido lugar como potência política e militar inigualável do mundo.

A resposta de Karp sobre o que é necessário: um novo Projeto Manhattan (que produziu a bomba atômica,na II Guerra Mundial). Desta vez, o foco não seria o desenvolvimento de armas nucleares, mas a aceleração das aplicações militares da inteligência artificial (IA) e a obtenção de uma vantagem tecnológica permanente para os Estados Unidos sobre a China. É difícil imaginar uma visão mais empobrecida ou equivocada do futuro norte-americano, ou mais desprovida de senso básico de humanidade.

A Tecnoguerra protegerá alguém? E será mais barata?

Deixando a ideologia de lado, há a questão mais específica de saber se as empresas de tecnologia emergentes podem realmente produzir sistemas de guerra melhores por menos dinheiro. Palmer Luckey, da Anduril — um protegido do fundador da Palantir, Peter Thiel — foi notícia recentemente ao declarar em entrevista à CNBC que os EUA poderiam gastar talvez metade do atual orçamento de US$ 1 trilhão do Pentágono e ainda assim ter um sistema de defesa mais eficaz se simplesmente parassem de comprar as “coisas erradas”.

A ideia de que um fornecedor de armamentos se ofereça para fazer mais por menos parece quase revolucionária, em uma era onde a ganância e a corrupção no complexo militar-industrial continuam desenfreadas. A filosofia por trás da declaração de Luckey à CNBC está, na verdade, sintetizada em um notável documento da Anduril intitulado “Renovando o Arsenal da Democracia“, uma crítica mordaz às práticas comerciais atuais do Pentágono e de gigantescas empresas contratadas pelo setor militar, como a Lockheed Martin.

O manifesto de Luckey deve ser considerado um ataque aos cinco maiores conglomerados de armamentos — liderados pela Lockheed Martin e pela RTX (antiga Raytheon) — que agora recebem um terço de cada dólar dos contratos assinados pelo Pentágono. Essas gigantescas empresas já tiveram seu tempo, sugere o ensaio, realizando trabalhos necessários e úteis nos anos da Guerra Fria, no século XX. “Por que as empresas de defesa existentes simplesmente não conseguem fazer melhor?”, questiona o texto. E tenta responder: “Essas empresas trabalham devagar, enquanto os melhores engenheiros apreciam trabalhar com rapidez… Essas empresas construíram as ferramentas que nos mantiveram seguros no passado, mas elas não são o futuro da nossa defesa.”

O documento praticamente sugere que empresas como a Lockheed Martin deveriam receber um prêmio por realizações ao longo da vida e, em seguida, serem descartadas para que figuras como Thiel, Karp, Luckey e Musk possam assumir o comando da indústria armamentista.

Mas gastar menos em armamentos — por mais útil que isso seja, considerando outras prioridades nacionais urgentes — não pode ser o único objetivo da política de defesa. A questão mais importante é se os sistemas supostamente mais baratos, mais ágeis e mais precisos, baseados em inteligência artificial, podem, de fato, ser implantados de forma a promover a paz e a estabilidade, em vez de mais guerras. Na realidade, existe o perigo de que, se os Estados Unidos acreditarem que puderem usar tais sistemas para intervir militarmente de forma rotineira, sofrendo menos baixas, a tentação de entrar em guerra acabe, na verdade, aumentando.

Mesmo considerando tudo isso, a ideia de romper com o domínio das grandes empreiteiras no desenvolvimento e produção do arsenal americano é atraente. Mas as alegações do novo setor tecnológico, de que pode fazer o trabalho melhor e por menos, precisariam ser comprovadas. Um drone é certamente mais barato que um caça F-35. Mas, e quanto aos enxames de drones usados em ondas e reabastecidos rapidamente em meio a uma guerra, ou aos navios não tripulados e veículos blindados que operam com softwares complexos e não testados, que podem falhar em momentos cruciais? E se, como o velho setor tecnológico e seu crescente grupo de lobistas preferem, os militaristas da nova era forem autorizados a operar com pouca ou nenhuma fiscalização, com o enfraquecimento de salvaguardas — como testes independentes e restrições à especulação de preços – que já são insuficientes para cumprir plenamente a missão?

O lobby da tecnologia militar: disruptores turbinados

Antes da atual onda de desenvolvimento de armas no setor tecnológico, houve um tempo em que algumas empresas do Vale do Silício agiam como se seus produtos fossem tão superiores e acessíveis que não precisassem se envolver com o lobby tradicional. Por mais irrealista que isso pudesse ser, o Vale do Silício agora se entregou completamente à corrupção legalizada — desde contribuições de campanha cuidadosamente direcionadas até a contratação de ex-funcionários do governo para fazer o que eles mandam. O primeiro exemplo é, claro, o vice-presidente JD Vance, que foi empregado, mentorado e financiado por Peter Thiel, fundador da Palantir, durante sua ascensão ao Senado e, posteriormente, à vice-presidência. Quando foi escolhido para compor a chapa de Donald Trump em 2024, uma enxurrada de dinheiro novo entrou na campanha, vinda do setor de tecnologia militar — incluindo dezenas de bilhões de dólares de Elon Musk. Uma vez na chapa, uma das principais funções de Vance passou a ser a de extrair ainda mais doações dos militaristas do Vale do Silício.

Em seguida, veio o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) de Musk, a organização que deu à “eficiência” a péssima reputação ao cortar programas e pessoal federais de forma aparentemente aleatória e desmantelar ferramentas como a USAID, enquanto deixava o Pentágono praticamente intacto. Embora a USAID tivesse seus problemas, ela também financiava iniciativas essenciais de desenvolvimento e saúde pública em todo o mundo. Uma verdadeira iniciativa de eficiência teria analisado o que funcionava e o que não funcionava naquela agência. Em vez disso, os seguidores de Musk, que não entendiam nada de assistência econômica, simplesmente a desmantelaram.

Atualmente, há um número significativo de executivos do Vale do Silício em posições-chave no governo Trump, liderados por Vance, mas incluindo dezenas de outros em cargos importantes nas forças armadas, na cúpula do Pentágono e em diversas agências de política interna e externa.

Peter Thiel e Alex Karp claramente acreditam que o que é bom para a Palantir é bom para os Estados Unidos, mas a visão de país que eles estão promovendo é perigosa e desumanizadora.

Voltando à realidade (e controlando os tecnófilos)

O problema com os novos tecnomilitaristas não é que estejam enganados sobre o poder da tecnologia, mas sim que estejam perigosamente equivocados sobre quem deve utilizá-la, para quais fins e sob quais restrições. Poder sem restrições não é inovação. É imprudência disfarçada de inevitabilidade. Uma parcela crescente das ferramentas que moldam a política externa e de segurança interna dos Estados Unidos está sendo concebida, implementada e promovida por um pequeno grupo de atores privados cujos incentivos são agressivamente financeiros, cujas visões de mundo são profundamente militarizadas e cuja responsabilidade perante o público é, na melhor das hipóteses, mínima.

O mundo precisa de tudo, menos de um novo sacerdócio de engenheiros bilionários para dizer que a guerra é inevitável, que o medo é o único caminho para a paz e que a democracia deve se curvar à sabedoria superior daqueles que programam algoritmos e constroem armamentos. Na realidade, já ouvimos essa história antes — dos estrategistas nucleares da Guerra Fria, dos entusiastas da contagem de corpos da era do Vietnã e dos arquitetos da doutrina de “choque e pavor“, que ajudou a destruir o Iraque. A cada geração é prometido que essa tecnologia (seja ela qual for) finalmente tornará a guerra, ao estilo norte-americano, limpa, precisa e decisiva. A cada vez, os corpos se acumulam da mesma forma.

O que torna o momento atual especialmente perigoso é a velocidade e a opacidade com que esses sistemas estão sendo desenvolvidos e implementados. Ferramentas de direcionamento baseadas em IA, plataformas de vigilância preditiva, armamentos autônomos e sistemas de fusão de dados estão sendo integrados às estruturas militares e policiais internas com debate público mínimo, supervisão frágil e praticamente nenhum consentimento significativo das pessoas que suportarão as consequêncis — e morrerão por causa delas. A retórica da disrupção impulsionada pela IA tornou-se uma desculpa conveniente para atropelar completamente os processos democráticos.

A premissa fundamental dos tecnomilitaristas é que a guerra permanente é o estado natural do nosso mundo e que a nossa única escolha é a eficiência com que se decide travá-la. Na realidade, a segurança nunca é alcançada aterrorizando o resto do planeta até a submissão. Ela é alcançada por meio da diplomacia, da contenção, do respeito ao direito internacional e à justiça econômica, e do trabalho lento e pouco glamouroso de construir instituições que tornem a violência em massa menos provável, em vez de mais automatizada.

Alex Karp e seus pares podem se ver como realistas, que dizem corajosamente o que outros não ousam. Na verdade, a visão de mundo deles é frágil e niilista, confundindo dominação com força e inovação com sabedoria. A humanidade merece mais do que uma corrida armamentista sem fim, conduzida por homens (e são quase todos homens!) que acreditam ser os únicos aptos a decidir quais vidas são descartáveis. A nova máquina de guerra, construída para algo como o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, deveria nos assustar a todos.

Se a tecnologia moldar o futuro da guerra, então a sociedade deve moldar as regras que a regem. Do contrário, o que resta é entregar nossa responsabilidade moral a um punhado de profetas da distopia e esperar que eles acertem. A história sugere que esse é um risco que não podemos nos dar ao luxo de correr.

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