Banda podre. Artigo de Alexandre Aragão de Albuquerque

Donald Trump. (Foto: Foto: Emily J. Higgins/Flickr)

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17 Abril 2026

"Esses desvarios trumpistas podem parecer isolados, sem nexo. Porém, se retornarmos no tempo, iremos constatar que o comportamento de Jair Bolsonaro e seu clã, ao longo de toda a sua carreira política, demonstrou publicamente sua inimizade com a Igreja Católica, principalmente contra aqueles setores mais comprometidos com as causas sociais e os direitos das pessoas empobrecidas, quando, por exemplo, da tribuna do Congresso Nacional afirmou que o Cardeal Paulo Evaristo Arns, um dos grandes baluartes da luta contra a ditadura militar (1964-1985), era alguém 'sem honestidade e um aproveitador'", escreve Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque é arte-educador (UFPE), especialista em Democracia Participativa (UFMG) e mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE) 

Eis o artigo.

Diante dos últimos lances no tabuleiro geopolítico da guerra do consórcio Epstein contra o Irã, o presidente estadunidense Donald Trump partiu para uma agressão desleal contra o Papa Leão XIV, publicando um longo ataque direto, em sua rede social, debochando do pontífice ao afirmar que “Leão XIV é fraco no combate ao crime (weak on crime), terrível em política externa (terrible for Foreign Policy) e alguém que não deveria criticar o presidente dos Estados Unidos”. E acrescentou: “Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano. Não quero um papa que critique o presidente dos EUA”.

Tal canalhice trumpista aconteceu imediatamente após Leão XIV condenar a guerra do consórcio EUA-Israel contra o Irã, classificando as ameaças de destruição total da civilização iraniana (persa) como moralmente inaceitáveis e pedindo publicamente a união de todos os países pelo fim imediato da guerra e pela retomada do diálogo.

Perguntado se iria pedir desculpas ao Papa, Trump retrucou dizendo que não era fã de Leão XIV, esbravejando que ele não está fazendo um bom trabalho na Igreja Católica, recusando-se terminantemente a desculpar-se. Em seguida, publicou em sua rede uma imagem gerada por IA na qual ele, Trump, se identifica com Jesus Cristo, autointitulando-se “o médico curador das pessoas”.

Esses desvarios trumpistas podem parecer isolados, sem nexo. Porém, se retornarmos no tempo, iremos constatar que o comportamento de Jair Bolsonaro e seu clã, ao longo de toda a sua carreira política, demonstrou publicamente sua inimizade com a Igreja Católica, principalmente contra aqueles setores mais comprometidos com as causas sociais e os direitos das pessoas empobrecidas, quando, por exemplo, da tribuna do Congresso Nacional afirmou que o Cardeal Paulo Evaristo Arns, um dos grandes baluartes da luta contra a ditadura militar (1964-1985), era alguém “sem honestidade e um aproveitador”.

No mês de outubro de 2018, o então candidato Bolsonaro, em seus canais de comunicação social, por meio de um vídeo amplamente difundido, insultou a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), dizendo que “são a parte podre da Igreja Católica”.

Em Nota Pública de resposta às infames declarações de Bolsonaro, os Conselheiros e Conselheiras, Coordenação Executiva Nacional e Diretoria da Comissão Pastoral da Terra (CPT), após reunião do Conselho Nacional, desagravaram a injúria, afirmando que “as ofensas dirigidas a estes Organismos se estendem também a todos os católicos e católicas do Brasil e do Mundo, já que somos muitos e muitas, mas formamos um só Corpo (cf. 1Cor 12, 13)”.

Portanto, não se trata de fato isolado. Mas é a forma de ação estrutural da extrema-direita brasileira e internacional, a partir de sua perspectiva de poder autoritário e total. Conforme tivemos a oportunidade de expor em nosso livro “Religião em Tempos de Bolsofascismo” (Editora Dialética, 2024, 104 páginas), os fundamentos religiosos que os movem centram-se, por exemplo, nas teologias da prosperidade e do domínio, por meio das quais buscam legitimar sua violência visando implantar um mundo desigual.

Religião em Tempos de Bolsofascismo, de Alexandre Aragão de Albuquerque. (Editora Dialética, 2024)

O fascismo, como uma doutrina política, ancora-se na devoção a um líder todo-poderoso, mitificado pela manipulação ideológica, que busca a homogeneização de um povo por meio de ideais nacionalistas e militaristas, de forma totalitária, impondo o domínio do líder e de seu grupo, numa autoridade sem limites, com poderes de controle da vida pública e da vida privada.

Não há diversidade de ideias e comportamentos, apenas uniformidade de pensamento e costumes. Para tanto desenvolve uma prática violenta, incitando agressões contra todos seus opositores que os declara como sendo inimigos do Estado. Consequentemente, o fascismo é o grande apoiador e promotor da guerra, das violências, seja por ações de indivíduos ou de grupos paramilitares.

Neste sentido, é importante registrar que a religião se situa no coração da sociedade, portanto, na cultura. As manifestações e estímulos vindos de outras realidades sociais, econômicas, políticas e culturais afetam diretamente esse coração, o movimento da religião conectado com esses contextos.

Mas, ao mesmo tempo, como a religião tem o seu próprio ritmo, dialeticamente ela exerce sua influência nas outras áreas da vida humana. A pergunta que se faz, diante da banalidade do mal do tempo presente, é: por que explode o sentimento religioso no tempo presente, principalmente nas hostes neofascistas da extrema-direita?

Ampliando nosso universo reflexivo acerca da relação entre religião e política, vamos encontrar o pensador florentino Nicolau Maquiavel, em seu clássico Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio. Para Maquiavel, todos os homens possuem tendências à prática do mal, chegando à disposição em agir com perversidade sempre que haja ocasião. Os homens só fazem o bem somente quando necessário, por isso é indispensável e imperiosa a existência da Lei.

Consequentemente, a religião passa a ser um agente estruturante poderoso da manutenção de uma determinada ordem, em virtude do temor de Deus. Em seus estudos ele constatou que os romanos respeitavam mais seus juramentos aos deuses do que suas obrigações para com a Lei humana, convencidos de que a Potência dos deuses é maior do que a dos homens.

Segundo o autor florentino, a antiga religião romana foi introduzida por Numa Pompílio (753 – 673 a. C.), servindo para comandar os exércitos, levar concórdia ao povo, zelar pela segurança dos justos e fazer com que os maus pagassem por suas infâmias.

Para este imperador romano, nos Estados onde a religião é todo-poderosa, pode-se facilmente introduzir o espírito militar.  Ele criou uma narrativa espiritual na qual encontrava-se pessoalmente com a Ninfa Conselheira Egéria (não numa goiabeira, nem no Monte Sinai) de quem recebia conselhos e leis para serem transmitidos ao povo, pois sabia que não bastava sua própria autoridade para governar Roma. Maquiavel assevera que um legislador sábio compreende que para outorgar leis de caráter extraordinário ao seu povo é fundamental apelar para a autoridade divina, caso contrário tais leis não seriam aceitas, devido ao temor de Deus.

O curioso é que, mesmo com os ataques disparados contra as lideranças católicas, como chamando-os de “banda podre”, Bolsonaro foi eleito em 2018 com votos de padres, freiras e leigos católicos.

Será que, ao saber dos votos dos católicos brasileiros a Bolsonaro em 2018, mesmo depois de tamanha humilhação aos seus líderes, Trump se entusiasmou e partiu para um ataque truculento ao Papa Leão XIV? Afinal, pelo menos aqui no Brasil, eles não se constituíram em 2018 como “um só Corpo”, como foi dito acima.

Vale a pena investigar a hipótese.

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