10 Abril 2026
O jornal The Free Press documentou uma reunião a portas fechadas no Pentágono, na qual um alto funcionário do governo Trump deu uma lição ao embaixador do Papa Leão XIV sobre a supremacia militar americana.
O artigo é de Christopher Hale, publicado por Letters from Leo, 07-04-2026.
Eis o artigo.
[Letters from Leo agora confirma de forma independente a reportagem do The Free Press de que a reunião ocorreu — e que alguns funcionários do Vaticano ficaram tão alarmados com as táticas do Pentágono que engavetaram os planos para a visita do Papa Leão XIV aos Estados Unidos ainda este ano.
Outros funcionários do Vaticano interpretaram a referência do Pentágono a um papado em Avignon como uma ameaça de uso da força militar contra a Santa Sé.]
Em janeiro, a portas fechadas no Pentágono, o Subsecretário de Guerra para Políticas, Elbridge Colby, convocou o Cardeal Christophe Pierre — então embaixador do Papa Leão XIV nos Estados Unidos — e proferiu uma palestra.
Os Estados Unidos, disseram Colby e seus colegas ao cardeal, têm o poder militar para fazer o que quiserem no mundo. A Igreja Católica faria melhor em ficar do lado deles.
Com os ânimos exaltados, um oficial americano não identificado pegou uma arma do século XIV e invocou o Papado de Avignon, período em que a Coroa Francesa usou a força militar para dobrar o bispo de Roma à sua vontade.
Essa cena, revelada esta semana por Mattia Ferraresi em uma extraordinária reportagem para o The Free Press, pode ser o momento mais notável na longa e complexa história da relação da república americana com a Igreja Católica.
Não há registro público de nenhum funcionário do Vaticano ter participado de uma reunião no Pentágono, e certamente nenhum de um alto funcionário americano ameaçando o Vigário de Cristo na Terra com a perspectiva de um cativeiro babilônico americano.
VATICAN: “In response to journalists' questions, Matteo Bruni, director of the Holy See Press Office, stated that, as confirmed by Cardinal Christophe Pierre, former apostolic nuncio to the United States, his meeting with Mr. Elbridge Andrew Colby took place within the framework…
— Rich Raho (@RichRaho) April 10, 2026
A reportagem também confirma — com novas fontes e detalhes — o que relatei pela primeira vez em fevereiro : que o Vaticano recusou o convite da Casa Branca de Trump-Vance para receber o Papa Leão XIV para o 250º aniversário dos Estados Unidos em 2026.
Ferraresi obteve relatos de autoridades do Vaticano e dos EUA informadas sobre a reunião no Pentágono. Segundo suas fontes, a equipe de Colby analisou minuciosamente o discurso do papa sobre o estado do mundo em janeiro, linha por linha, e o interpretou como uma mensagem hostil dirigida diretamente ao governo.
O que mais os enfureceu foi a declaração de Leão de que “uma diplomacia que promove o diálogo e busca o consenso entre todas as partes está sendo substituída por uma diplomacia baseada na força”.
In the speech that enraged Pete Hegseth and top Pentagon officials, Pope Leo XIV said: “A diplomacy that promotes dialogue and seeks consensus among all parties is being replaced by a diplomacy based on force.”
— Christopher Hale (@ChristopherHale) April 8, 2026
“War is back in vogue, and a zeal for war is spreading.
“The… pic.twitter.com/q76XtqxNXU
O Pentágono interpretou essa frase como um desafio frontal à chamada "Doutrina Donroe" — a atualização da Doutrina Monroe feita por Trump, que afirma o domínio americano incontestável sobre o Hemisfério Ocidental.
O cardeal ouviu a palestra em silêncio. Desde aquele dia, a Santa Sé não cedeu um milímetro sequer.
A reportagem de Ferraresi também acrescenta detalhes importantes ao fracasso da visita do 250º aniversário. JD Vance estendeu pessoalmente o convite em maio de 2025, apenas duas semanas após a eleição de Leão no conclave.
Segundo um alto funcionário do Vaticano citado na reportagem, a Santa Sé inicialmente considerou o pedido, mas depois o adiou indefinidamente devido a divergências em política externa, à crescente oposição dos bispos americanos ao regime de deportação em massa de Trump-Vance e à recusa em se tornar um troféu partidário nas eleições de meio de mandato de 2026.
“O governo tentou de todas as maneiras possíveis trazer o Papa aos EUA em 2026”, disse um funcionário do Vaticano ao The Free Press.
BREAKING: A “Vatican source close to Pope Leo XIV” tells NBC Chicago that the Pentagon meeting between Trump officials and the Vatican’s top American diplomat “was most unpleasant and confrontational.”
— Christopher Hale (@ChristopherHale) April 9, 2026
This is now the fourth news outlet to describe the meeting in this way. pic.twitter.com/ZEMcefBkQT
Em vez disso, em 4 de julho de 2026, o primeiro papa americano viajará para Lampedusa, a ilha italiana onde milhares de migrantes norte-africanos chegam às suas praias. Robert Francis Prevost é um homem ponderado demais para ter escolhido essa data por acaso.
A reunião no Pentágono também esclarece a intensidade moral da postura pública de Leão nas últimas seis semanas.
Após a palestra de Colby, o papa não se refugiou na diplomacia do Vaticano. Ele pressionou ainda mais.
🚨MAJOR BREAKING: The Pentagon threatened the Pope’s ambassador.
— Brian Allen (@allenanalysis) April 9, 2026
The direct message delivered to the Vatican’s diplomat:
“America has the military power to do whatever it wants in the world. The Catholic Church had better take its side.”
The Pope declared the Iran War unjust.… pic.twitter.com/5QBhVaBJj1
Leia mais
- Trump recua horas depois de o Papa Leão XIV ter considerado sua ameaça ao Irã "inaceitável". Artigo de Christopher Hale
- "Prevost desmascara a guerra ao removê-la da geopolítica". Entrevista com Antonio Spadaro
- “Toda guerra militar é uma guerra contra Deus”. Entrevista especial com David Neuhaus
- Leão XIV implora a Trump que acabe com a guerra até a Páscoa
- “O ódio está aumentando” — Por dentro da campanha de 25 dias do Papa Leão XIV contra a guerra com o Irã
- O Papa Leão XIV afirma que os bombardeios aéreos devem ser proibidos para sempre
- Trump rejeita apelo do Papa Leão XIV por cessar-fogo no Irã: “Estamos aniquilando o Irã”
- O "não" do Papa à guerra: "Não podemos permanecer em silêncio diante do sofrimento de tantas pessoas inocentes"
- “O Pecado Mais Grave” — Enviado do Papa Leão XIV para o Oriente Médio repreende Hegseth por invocar Deus na guerra com o Irã
- Papa Leão XIV se apoia em grupos aliados para condenar a guerra no Irã
- Vaticano intensifica suas críticas aos EUA e teme que o conflito seja retratado como uma guerra religiosa
- Aos mercadores da morte. Carta de Dom Mimmo Battaglia, cardeal arcebispo de Nápoles
- Irã. Leão XIV: "Profunda tristeza pelo pároco assassinado no Líbano e pelas muitas crianças inocentes"
- Preocupação com o cardeal-arcebispo de Teerã: sem contato há dias
- Trump está atolado em uma guerra sem apoio popular e sem fim à vista
- "É assim que o direito internacional deixa de vigorar". Entrevista com Anne Applebaum
- EUA e Israel intensificam os ataques contra o Irã, enquanto Trump promete escoltar