O clã Bolsonaro exporta o trumpismo

Flávio Bolsonaro. (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado/Flickr)

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30 Março 2026

Na cúpula de Dallas, Jair Bolsonaro foi representado por seus filhos, Flávio e Eduardo. Um deles é pré-candidato à presidência em outubro.

A reportagem é de Darío Pignotti, publicada por Página12, 30-03-2026.

Neste sábado, enquanto milhões de americanos amaldiçoavam Donald Trump em manifestações sob o lema “Chega de Reis”, um grupo de extremistas, em nítido contraste com essa indignação, elogiava o republicano em Dallas, Texas. Entre os apoiadores incondicionais do “Rei” Trump estavam dois representantes de Jair Bolsonaro, seus filhos Flávio e Eduardo.

O ex-presidente foi impedido de viajar para o Texas porque permanece em prisão domiciliar, onde pretende estabelecer uma sede para o neofascismo verde-amarelo, enquanto cumpre uma sentença de 27 anos como líder da tentativa de golpe de 2023.

A revolta brasileira foi inspirada pela ocupação do Capitólio em 2021, apoiada por Trump, que alegava fraude eleitoral por parte do candidato democrata, Joe Biden.

Comitê Central

Na sexta-feira, Bolsonaro chegou em comboio policial à sua residência em um bairro residencial de Brasília, vindo do hospital onde permaneceu internado por quinze dias devido a uma pneumonia contraída no Complexo Penitenciário da Papuda.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a prisão domiciliar a contragosto. Ele cedeu à pressão de grupos poderosos interessados ​​em libertar Bolsonaro e permitir que ele estabelecesse uma espécie de comitê central em seu país.

Em outras palavras, para facilitar o retorno da extrema-direita ao poder.

Isso resulta de um consenso mais ou menos explícito que se estende da Embaixada dos Estados Unidos ao meio financeiro e espiritual (leia-se: as poderosas igrejas evangélicas), ao Congresso, à mídia convencional e às redes sociais.

Noventa dias

Moraes assinou a ordem de prisão domiciliar, sabendo, em primeiro lugar, que isso implica uma espécie de impunidade para o condenado que retorna para casa após passar apenas 125 dias na prisão.

No entanto, o juiz impôs limites à leniência: a prisão domiciliar é temporária e sujeita a condições. As visitas serão limitadas a familiares e, por enquanto, reuniões políticas não serão permitidas.

Além disso, o detido ficará sob supervisão médica constante e será submetido a exames dentro de 90 dias para determinar se retornará à prisão. Ele também estará proibido de assumir qualquer compromisso fora de casa, onde permanece em prisão domiciliar com uma tornozeleira eletrônica, equipamento que ele quebrou há quatro meses.

Naquela ocasião, Moraes confirmou uma possível tentativa de "fuga" de uma embaixada, possivelmente a dos Estados Unidos.

Flávio e Eduardo

Na cúpula de Trump em Dallas, Bolsonaro foi representado por seus filhos, Flávio e Eduardo, figuras importantes no clã familiar, organizado com uma hierarquia de estilo militar. Flávio é pré-candidato à presidência nas eleições de outubro, onde, segundo as pesquisas, enfrentará uma disputa acirrada com o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Seu irmão Eduardo é um ex-congressista que vive nos Estados Unidos há um ano, onde trabalha como lobista para Trump, o Departamento de Estado e o Congresso. Questionado pela imprensa, Eduardo disse que estava em Dallas a mando do pai. Na opinião dele, a política não tem muitos segredos; funciona como o exército: a palavra do general não é questionada, é executada por "coronéis, tenentes e soldados".

“Aos seus pés”

Desde que foi recebido por Trump em março de 2019, três meses após assumir a presidência, Jair Bolsonaro declarou sua devoção a ele sem qualquer constrangimento.

Sua subserviência atingiu extremos constrangedores, como quando se pôs em posição de sentido e se curvou diante da bandeira americana. E afirmou, por meio de seu então ministro das Relações Exteriores, sua disposição de ser um "pária" da comunidade internacional se esse fosse o preço a pagar por seu alinhamento irrestrito. Um alinhamento que manteve inabalavelmente mesmo após perder para Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 2022, quando fez de sua lealdade a Washington uma marca registrada de sua política de oposição.

Assim, em setembro do ano passado, dias antes de ser condenado juntamente com um grupo de generais, ele organizou eventos em São Paulo e no Rio de Janeiro, lembrados pelas imensas bandeiras americanas sob as quais milhares de ativistas se protegeram.

Nesses comícios, os filhos do líder de direita, Flávio e Eduardo, discursaram como porta-vozes de seu superior.

Neste sábado, em Dallas, o formato se repetiu, com Bolsonaro puxando os cordões de Brasília; seus filhos expressaram seu apoio incondicional a Trump e aos Estados Unidos discursando antes e durante o evento da Conferência de Ação Política Conservadora.

"Sepoy"

O deputado Carlos Zarattini, do Partido dos Trabalhadores, deplorou a atitude "servil" do senador Flávio Bolsonaro, candidato à presidência, instando-o a ser menos subserviente politicamente. Ele criticou o senador por prometer entregar de bandeja os minerais de terras raras do Brasil, apesar de o país possuir algumas das maiores reservas mundiais. Ao contrário da abordagem de Bolsonaro, continuou o deputado, o governo Lula rejeita a presença de mineradoras americanas, a menos que elas se comprometam a processar os recursos dentro do país.

A possível tomada de controle dos campos de petróleo brasileiros pelos Estados Unidos foi um dos temas discutidos na semana passada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e seu homólogo, Marco Rubio, à margem da reunião do G7 realizada na França.

Risco de invasão

Outro tema recorrente na agenda dos ministros das Relações Exteriores é a inclusão das organizações criminosas Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital na lista de grupos terroristas ou narcoterroristas do Departamento de Estado. Vieira e o próprio Lula contestam essa inclusão. Para o presidente, esse rótulo mascara o risco de uma "invasão" estadunidense do território brasileiro.

Esse risco de invasão é visto como uma oportunidade por Flávio Bolsonaro, que, durante sua visita aos Estados Unidos, concordou em classificar essas facções como “terroristas”. Ele repetiu, com mais moderação, o que já havia declarado no ano passado, quando disse sonhar com a Marinha dos EUA ancorada na costa do Rio de Janeiro e seus comandos invadindo os morros para caçar os “narcoterroristas” do Comando Vermelho. Uma tese historicamente defendida por Jair Bolsonaro.

Jair contra Lula

Como vocês podem ver, foi Jair Bolsonaro, e não seus filhos Flávio e Eduardo, quem escreveu os discursos na CPAC. Esses discursos variaram de elogios a Trump e às diretrizes de sua política externa, que está intrinsecamente ligada à guerra contra o narcoterrorismo, a críticas ao suposto "intervencionismo" de Joe Biden nas eleições de 2022. Na realidade, Biden não cedeu às pressões golpistas de Bolsonaro após perder para Lula.

Tudo o que Flavio e Eduardo disseram foi roteirizado enquanto estavam em prisão domiciliar em Brasília.

Sem talento ou biografia, Flávio não passa de filho do pai, como Lula da Silva costuma salientar.

Sempre que o atual presidente critica a extrema-direita, ele direciona suas críticas a Jair Bolsonaro, a quem apelida de "a coisa", ignorando deliberadamente seu filho.

É incomum o líder do PT pronunciar o nome "Flavio", algo que certamente fere o ego do jovem pré-candidato.

Esse tratamento injusto dado a Flávio tem um significado político maior: as eleições de 4 de outubro e o possível segundo turno no dia 25 daquele mês serão, em última análise, um duelo entre Lula e Jair Bolsonaro, deixando o senador carioca com o papel de mero figurante.

O próprio Flávio reconheceu isso no fim de semana, durante sua visita aos Estados Unidos. Em declarações à imprensa, afirmou que, se eleito, subiria a rampa do Palácio do Planalto, residência presidencial, ao lado de seu pai. Mais tarde, tentou se retratar, dizendo: "Ele será o presidente, não o pai dele."

Esclarecimento inútil

Sejamos realistas: se chegar ao Palácio do Planalto com Jair Bolsonaro como vice, Flávio provavelmente será, desde o início do seu mandato, pouco mais que uma figura decorativa. Portanto, as eleições de 2026 serão, em certa medida, um terceiro turno, após o segundo turno de outubro de 2022, no qual Lula derrotou Bolsonaro por uma margem estreita.

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