A Palantir não vende mais apenas ‘software’: vende uma teoria tecnofascista de governança global

Fonte: Unsplash

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24 Abril 2026

O manifesto de 22 pontos divulgado pela Palantir representa a exposição resumida de um programa histórico no qual a guerra, a gestão algorítmica de populações e a aliança entre as grandes empresas de tecnologia e o Estado aparecem como um horizonte desejável. E convém lê-lo dessa forma, porque a Palantir já obtém 54% de suas receitas de clientes governamentais e fez dessa proximidade com o aparato estatal o cerne de seu modelo de negócios.

A reportagem é de Guillem Pujol, publicada por La Marea, 23-04-2026. A tradução é do Cepat.

Vamos por partes. Durante anos, grande parte do discurso dominante sobre o Vale do Silício se concentrou na fábula infantil da inovação, disrupção e criatividade individual. A garagem, o fundador visionário, o app que melhora a vida cotidiana, a tecnologia entendida como uma extensão amigável do consumo e outras narrativas ilusórias que constituíam o imaginário do self mad man e que serviam para justificar, basicamente, por que alguns ganharam muito e outros muito pouco.

O breve catecismo agora publicado pela Palantir tem a virtude de acabar com essa fachada. Faz isto de forma brutal e, por essa mesma razão, reveladora. Enquanto outras empresas ainda disfarçam seu poder com a linguagem asséptica da eficiência, a Palantir optou por declarar sua ambição sem muitos rodeios.

O Vale do Silício, afirma, tem uma “obrigação afirmativa” de participar da defesa da nação. De acordo com sua perspectiva tecnofascista, o mundo caminha para um futuro apocalíptico no qual os Estados não terão mais capacidade de defender suas populações; consequentemente, o papel que o setor privado deve desempenhar para garantir a “segurança” das “democracias” é inevitável. O mundo pós-Segunda Guerra Mundial acreditou na ilusão ingênua do multiculturalismo e da paz mundial, provocando um “abrandamento” da ordem ocidental do pós-guerra.

A primeira tentação é ler esse texto como mais uma provocação do ecossistema Thiel-Karp, um artifício delineado para escandalizar a opinião pública liberal e ganhar centralidade no debate. Essa leitura capta parte do fenômeno, mas é limitada: o manifesto importa menos pela sua estridência do que pela sua função. A Palantir não busca simplesmente descrever sua visão de mundo, mas normalizar uma nova relação entre capital tecnológico, soberania e violência. Almeja tornar senso comum a ideia de que o futuro das democracias depende de uma integração cada vez mais orgânica de infraestruturas digitais, defesa, inteligência e vigilância.

O que é a Palantir: do Vale do Silício ao complexo tecnomilitar

A Palantir é uma empresa fundada com apoio inicial da In-Q-Tel, um fundo ligado à CIA, e hoje profundamente inserida em contratos militares, policiais, migratórios e de saúde. O antigo complexo militar-industrial de inteligência, após o golpe em sua credibilidade provocado pelos ataques do 11 de setembro, lançou-se nos braços do setor privado.

Então, novos lobbies e think tanks se somaram ao complexo militar-industrial, o monstro que corrói por dentro a “democracia mais antiga do mundo” e que o presidente Eisenhower, em sua mensagem de despedida, no ano de 1957, descreveu como “o principal inimigo” dos Estados Unidos.

Ao contrário das empresas contratadas habituais, a Palantir não se limita a fornecer ferramentas. Suas plataformas - Gotham, Foundry, Apollo - não só integram dados, como também os reorganizam sob uma lógica operacional que traduz a complexidade social em padrões acionáveis. O mundo surge como uma superfície legível, suscetível de intervenção em tempo real. Algo muito bem descrito no livro organizado por Júlia Nueno, Genocidios: Una lectura forense (Galaxia Gutenberg, 2025).

Essa mudança tem implicações profundas: onde antes havia conflito, interpretação ou disputa, agora emerge uma arquitetura de tomada de decisões baseada em correlações, probabilidades e alertas automatizados. A política se reconfigura como gestão de riscos. O governo, como otimização contínua. E nesse processo, aqueles que projetam a infraestrutura não só executam decisões, como também delimitam de antemão o que pode ser visto, pensado e decidido.

A doutrina Palantir

A primeira é uma redefinição do papel da tecnologia. A Palantir rejeita explicitamente a deriva consumista do Vale do Silício e reivindica um retorno à “missão”. Identifica-se sem ambiguidade com a defesa nacional, com a capacidade de exercer poder e com a produção de superioridade estratégica. A tecnologia deixa de ser um espaço de inovação aberta para se tornar infraestrutura de soberania.

A segunda operação é mais sutil. Consiste em uma releitura da ordem internacional posterior a 1945. Onde o consenso liberal havia situado valores como cooperação, multilateralismo e direitos humanos, o manifesto introduz uma narrativa de decadência. O problema não seria mais o excesso de poder, mas, sim, sua ausência. O “abrandamento” do Ocidente é visto como uma anomalia histórica que precisa ser corrigida. Desse modo, a militarização não é apresentada como ruptura, mas como restauração.

A terceira operação talvez seja a mais relevante. Trata-se da naturalização da integração entre Estado e empresa de tecnologia. O manifesto não discute se essa aliança deve existir, mas a toma como dada: o Vale do Silício não só pode colaborar com o aparato de segurança, como deve agir assim. Trata-se de um imperativo moral onde a externalização de funções estratégicas deixa de ser um problema democrático para se tornar um imperativo político.

Nessa lógica, e lido em conjunto, o texto não propõe simplesmente uma agenda, mas um deslocamento: a democracia deixa de ser pensada em termos de deliberação, conflito ou representação, e passa a ser entendida como a capacidade de antecipação, cálculo e desdobramento técnico. Não se trata apenas de governar melhor, mas de governar a partir de outro lugar. O seu, nada mais, nada menos.

A contribuição da Palantir para o genocídio em Gaza

Nos últimos anos, a Palantir fortaleceu sua colaboração com o aparato militar e de inteligência de Israel, oferecendo recursos de análise de dados, integração de fontes e modelagem de alvos em contextos bélicos. No âmbito da ofensiva em Gaza, diversos relatórios e denúncias de organizações de direitos humanos apontaram que sistemas desse tipo participam da seleção e priorização de alvos.

É aqui que o manifesto deixa de ser um texto ideológico para se tornar uma chave de leitura concreta. O apelo ao hard power, à defesa da superioridade tecnológica como condição para a democracia e a naturalização do uso da inteligência artificial em contextos bélicos encontram uma tradução direta em práticas concretas.

Falar de “crimes de guerra” nesse contexto não remete exclusivamente à ação direta de um Estado, mas à configuração de um ecossistema técnico que facilita, acelera e legitima determinadas formas de violência. A automação parcial da seleção de alvos, a expansão do raio de dano aceitável sob parâmetros probabilísticos e a opacidade dos sistemas empregados introduzem uma camada adicional de irresponsabilidade distribuída.

A aliança da Palantir com Israel deve ser entendida nesse marco. Não apenas como mais um contrato em seu portfólio, mas como uma articulação estratégica entre empresa e Estado, em um cenário no qual a guerra funciona como laboratório. E o manifesto publicado busca simplesmente preparar o terreno cultural para a aceitação de processos que já estão em curso como inevitáveis.

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