“O algoritmo se tornou uma arma de guerra”. Entrevista com Júlia Nueno

Fonte: Pexels

Mais Lidos

  • "Um certo tipo de tranquilidade está chegando ao fim." O Consistório e a teologia numa perspectiva conciliar. Artigo de Andrea Grillo

    LER MAIS
  • Dez teses sobre a nova era. Artigo de Steven Forti

    LER MAIS
  • “O ataque testa limites de tolerância interna e externa a uma gramática de exceção que pode ser replicada em outros cenários”, adverte o professor

    A Doutrina Donroe e o sequestro de Maduro: a exceção como método de governo no “Hemisfério Ocidental”. Entrevista especial com Armando Alvares Garcia Junior

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

14 Janeiro 2026

As novas ferramentas digitais são como um martelo. “Dependendo de como você as usa, podem ter uma função negativa ou ajudar a nos emancipar e construir uma sociedade mais justa”, aponta Júlia Nueno.

A partir da agência Forensic Architecture, a acadêmica catalã e sua equipe trabalharam com essas tecnologias para demonstrar como Israel cometeu genocídio na Palestina usando Inteligência Artificial e outros sistemas similares.

Parte do trabalho realizado nesta agência, localizada na Goldsmiths, University of London, foi compilado por Nueno no livro Genocidios: Una lectura forense (Galaxia Gutenberg), no qual diversos especialistas redefinem o conceito de genocídio à luz dos processos coloniais e do caso de Gaza.

A entrevista é de Álex Romaguera, publicada por Naiz, 13-01-2025. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Na questão palestina, onde há uma disputa pela narrativa, por que demorou tanto em se reconhecer que é um genocídio?

Foi difícil porque, no atual contexto da pós-verdade, existem imagens que não sabemos se são reais ou falsas. Então, essa tarefa exigiu a colaboração de especialistas e o ímpeto da mobilização cidadã.

Afirma que o genocídio da Palestina remonta à Nakba, o êxodo que ocorreu entre 1946 e 1948. É importante ressaltar este ponto?

Sem dúvida, pois supõe o deslocamento de 750 mil pessoas e a destruição de 500 municípios, o que fragmentou o povo palestino em diversos status legais e territoriais: ser palestino dentro de Israel (a Palestina de 1948) não é o mesmo que ser palestino em Gaza, na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental ou na diáspora.

O que observamos é que esse processo de fragmentação se acelerou em 7 de outubro de 2023, quando o Exército de Israel iniciou um plano destinado a destruir as infraestruturas que sustentavam a população e sua soberania.

Qual foi a sequência dessa destruição?

Se nos referimos aos hospitais, Israel primeiro atacou as imediações e, enquanto as bombardeava, avançou por terra. Sempre justificou isto dizendo que havia ativistas do Hamas escondidos nas instalações, mas com nossas análises observamos que atuou seguindo um mesmo padrão: nas incursões de outubro e dezembro de 2023, desmantelou os hospitais do norte de Gaza; em março de 2024, destruiu o de Khan Younis, localizado no centro da cidade, e dois meses mais tarde, em seu avanço por Rafah, assediou o hospital deste local.

Esse padrão se repetiu em outras ações?

Também atuou na destruição das terras agrícolas e nos ataques à ajuda humanitária, seja contra os armazéns com suprimentos, os comboios que os distribuíam ou as padarias onde o pão é produzido.

Somente entre outubro e novembro de 2023, Israel bombardeou 17 padarias, quase todas no norte e no centro de Gaza, o que revela a vontade de dificultar a autossuficiência do povo palestino na produção de alimentos.

Tudo isso foi documentado a partir de uma metodologia que vocês chamam de “arquitetura forense”. Em que consiste?

Trata-se de reconstruir a violência perpetrada por estados, corporações ou forças reacionárias usando métodos de análise espacial. Combinamos ferramentas de projeto arquitetônico, desenvolvimento de software, bem como de coleta de dados de satélites e outras fontes que nos permitem registrar o que aconteceu e produzir evidências.

No caso dos hospitais, por exemplo, criamos uma ferramenta de scraping que extrai dados de redes sociais, usamos canais do Telegram que relatavam informações de Gaza e coletamos mais de 8 mil notícias, imagens e vídeos.

Com isso, questionamos como se produz a verdade, pois nesse cenário de pós-verdade não há mais confiança nas instituições que antes narravam os fatos através dos meios de comunicação, os tribunais e até mesmo da ciência.

A diferença entre os genocídios do século XXI e os anteriores está no fato de que, hoje, o poder utiliza as novas tecnologias para distorcer nossa visão dos fatos?

Sem dúvida, o algoritmo se tornou uma arma de guerra, pois não apenas as provas são apagadas, como também centenas de gravações e vídeos contraditórios circulam. E, no caso da Palestina, Israel usa a Inteligência Artificial (IA) para atribuir uma pontuação entre 1 e 100 àquela população de Gaza que pode pertencer à resistência armada. Um sistema que, ao não contemplar o valor zero, faz com que ninguém possa contar com a presunção de inocência.

Isso transforma qualquer palestino em um ativista perigoso?

Regulamenta o que o direito humanitário estabelece em relação à distinção, que consiste em diferenciar entre um civil e um combatente, e à proporcionalidade, como aquela premissa que será necessário aceitar um dano colateral.

Sendo assim, por meio da Inteligência Artificial, busca formas de maximizar esses limites, justificando assim que a atuação de um civil – ou de um jornalista – é similar à de um combatente do Hamas. Uma economia da violência que, como vimos, gerou a matança de milhares e milhares de pessoas.

Em sua análise, você também estabelece uma triangulação entre os genocídios da Namíbia, o Holocausto e Gaza. Existem parâmetros comuns?

Os três correspondem a lógicas de desapropriação e colonização, embora, em geral, seus atores não tenham interesse em admiti-las. No caso da Namíbia, ocorrido entre 1904 e 1908, a Alemanha deslocou as populações autóctones para as áreas mais áridas para assentar seus colonos, para mais tarde ordenar o extermínio das comunidades herero e nama. Ainda hoje, 70% das terras agrícolas estão nas mãos de 0,4% da população branca.

E em relação ao que acontece em Gaza, encontramos também a expulsão da população e a confiscação de suas terras, além das táticas usadas na Namíbia e que, posteriormente, também foram empregadas no Holocausto.

Nos três casos, aparece um grupo cuja finalidade é destruir nacional ou religiosamente outro grupo, seja eliminando seus membros ou evitando as condições para que vivam e se reproduzam.

Cartografar esses genocídios é essencial para a busca de reparações?

É o que pretendemos, pois em geral os autores se esquivam de suas responsabilidades. Foi o que aconteceu com o genocídio da Namíbia, sobre o qual realizamos uma reconstrução ambiental das áreas ocupadas pela Alemanha para demonstrar que, por meio do deslocamento, desertificou as terras que a população regenerava por meio da pecuária. Reconstruir como eram antes nos serviu para avançar nas demandas de restituição.

Além disso, a arquitetura forense deu fundamento ao processo que a África do Sul empreendeu no Tribunal Internacional de Justiça contra Israel pelo genocídio da Palestina. Isto oferece garantias de que prosperará?

Infelizmente, esses processos levam mais tempo do que seria desejável. No momento, está na fase de instrução, à espera da resposta de Israel e o início da audiência, que dará voz às testemunhas.

Veremos o que acontece, embora já possamos afirmar que, independentemente da decisão judicial, o processo e as provas que apresentamos significam uma mudança de paradigma na forma como os genocídios foram abordados até agora.

Em que sentido significam uma mudança?

A história sempre foi contada pelos vencedores, portanto, na medida em que é narrada pelos vencidos, implica uma justiça epistêmica e política sem precedentes. Não só porque coloca o foco nas vítimas e nos efeitos que tiveram de suportar. Também interpela a repensar o direito internacional para que abandone a noção economicista com a qual se pretende justificar uma ação militar e a morte de tantos civis, para enfatizar que, nesses episódios, prevalece uma lógica colonial.

Um fato que, com a arquitetura forense, fica evidenciado e que, de certa forma, retoma as reflexões feitas pelo judeu polonês Raphael Lemkin, que cunhou o termo “genocídio”, em 1944, para se referir não só ao extermínio físico, mas também à desapropriação, à colonização e à destruição da vida das comunidades afetadas; ou seja, à eliminação das condições políticas, sociais e culturais que permitem a existência de um povo.

Leia mais