“Neste momento, o antifascismo nos Estados Unidos é o movimento anti-ICE”. Entrevista com Mark Bray

Fonte: Reprodução | Youtube

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09 Fevereiro 2026

Mark Bray (Nova York, 1982) é um historiador, escritor e ativista estadunidense especializado em movimentos sociais. Professor de História na Rutgers University (Nova Jersey), antes no Dartmouth College, Bray se consolidou como uma das vozes mais influentes do Ocidente no debate internacional sobre o antifascismo contemporâneo, graças à sua prestigiosa obra Antifa: o manual antifascista (2017), que o levou à fama e, por sua vez, o colocou na mira do fascismo nos Estados Unidos.

A entrevista é publicada por Diario Socialista, 27-01-2026. A tradução é do Cepat.

Escreveu outras obras como Translating Anarchy: The Anarchism of Occupy Wall Street e The Anarchist Inquisition: Assassins, Activists and Martyrs in Spain and France (1891–1909)’. Seu trabalho combina pesquisa histórica e compromisso intelectual com o pensamento crítico sobre as estratégias de resistência contra o fascismo e o autoritarismo. Sua trajetória acadêmica e sua participação em movimentos como Occupy Wall Street fizeram dele uma figura tão respeitada quanto controversa no debate público estadunidense.

Em outubro de 2025, Bray foi alvo de uma campanha de ameaças e assédio na qual seguidores do movimento MAGA (Make America Great Again) divulgaram seu endereço residencial, sendo forçado a deixar os Estados Unidos com sua família. Da Espanha, onde vive exilado atualmente, reflete nesta entrevista sobre a crise interna nos Estados Unidos, as fissuras no movimento MAGA, a ascensão do fascismo nas instituições do país, a escalada da violência estatal em Minneapolis e a articulação da nova resistência antifascista de massas.

Eis a entrevista.

A crise global do capitalismo está atingindo os Estados Unidos como potência imperial dominante. Quais fraturas sociais internas você vê emergindo deste declínio, especialmente entre as classes médias estadunidenses?

Penso que há grandes rupturas e tensões. Obviamente, há irracionalidade no capitalismo, mas especialmente há irracionalidade no fascismo. Existe um conflito, uma tensão, por exemplo, entre o projeto de deter todos os imigrantes e a necessidade capitalista de ter trabalhadores baratos. No setor agrícola, por exemplo, estamos vendo reclamações dos proprietários de fazendas, até mesmo de proprietários conservadores, gente MAGA, porque não têm trabalhadores.

As tarifas também não estão ajudando a posição econômica dos Estados Unidos no mundo. Trump pensa que representa uma posição forte, e sua perspectiva sobre a política interna e internacional é demonstrar sua força, sem pensar na diplomacia, no “poder brando” ou em algo do tipo. Então, de um ponto de vista do “centro”, o que ele está fazendo é um horror porque está destruindo décadas de poder brando e acordos neoliberais.

Outra coisa interessante é tudo o que está relacionado à Palestina. Recentemente, vimos uma ruptura no movimento conservador nos Estados Unidos por causa da Palestina, pois há um grupo que ainda apoia Israel. Dizem ser contra o antissemitismo, mas isso é obviamente uma mentira, porque para eles o sionismo e o povo judeu são a mesma coisa, e isso não é verdade. Atualmente, observamos uma tendência contrária a Israel no mundo conservador, mas são contra Israel porque são mais explicitamente antissemitas. São pessoas como Tucker Carlson, Marjorie Taylor Green e outras.

Além disso, há toda essa reação aos assassinatos do ICE, porque cada vez mais pessoas se opõem. Disseram que Alex Pretti, o homem assassinado no último sábado, estava armado. Por décadas, a direita estadunidense defendeu o direito de ter e portar armas. Há muitas tensões em tudo isso.

Há também uma teoria da conspiração da extrema-direita nos Estados Unidos de que o Partido Democrata quer usar o governo federal para atacar os estados. E, agora, quem está fazendo isso? Trump, os republicanos e o movimento MAGA.

Como você interpreta a divisão entre trabalhadores estadunidenses e o proletariado migrante, amplificada por plataformas digitais que ventilam ressentimento?

Durante as eleições de 2024, Trump falava muito sobre a necessidade de aumentar os poderes do ICE para “deter os imigrantes criminosos”. E, infelizmente, muitas pessoas acreditavam em suas palavras, acreditavam que o objetivo era apenas deter imigrantes “criminosos”, ou não apenas “criminosos”, mas especialmente pessoas sem documentos que cometeram crimes. Agora, quase todo mundo consegue ver que foi uma mentira, que não só querem deter pessoas sem documentos, como também estão detendo latinos com documentos e matando manifestantes. Então, penso que é uma situação em que cada vez mais trabalhadores entendem que tudo isto é uma mentira racista.

Em cidades como Minneapolis, Los Angeles e Washington, D.C., existem redes de apoio mútuo entre a classe trabalhadora, famílias e sindicalistas ajudando com comida e casas de refúgio. Para mim, obviamente, a resposta deve ser que nenhum ser humano é ilegal. E é possível ver que este lema ganha força. Nem sempre chegamos a esse ponto em termos mais gerais, mas existe essa perspectiva em muitos sindicatos, de que precisamos nos unir para resistir ao ICE e resistir a Trump, como na greve geral em Minneapolis. Cada vez mais pessoas estão falando sobre uma greve nacional. Nesse sentido, penso que essa crise também trouxe coisas positivas, mas precisamos trabalhar mais.

Observando a rotulação do movimento antifascista como terrorista, a ascensão de grupos fascistas nas ruas e as próprias execuções extrajudiciais pelo ICE, estamos diante de uma nova caça às bruxas ou é mais do que isto?

Antes de tudo, um pouco de história. Entre 2016 e 2019, não me lembro exatamente, existia um problema com grupos fascistas nas ruas, especialmente no noroeste do país, ao norte da Califórnia, no Oregon, no estado de Washington. Diante disso, havia uma forte resposta de grupos antifascistas, com suas alianças com grupos antirracistas. O exemplo mais famoso foi em Charlottesville, em 2017.

De modo geral, o movimento antifascista vencia a luta, especialmente por meio da tática do doxxing (exposição pública na internet), porque depois de Charlottesville houve uma tentativa do Unite the Right (unir a direita) número II, em 2018. No entanto, os líderes dos grupos fascistas diziam a seus seguidores que não era uma boa ideia comparecer, pois os antifascistas fariam um doxxing e iriam perder o emprego.

Então, desde 2019, quase não vimos esses grupos fascistas realizando manifestações públicas. Muitos deles “se infiltraram” - embora essa palavra não seja exatamente adequada neste contexto - no movimento MAGA, durante a pandemia, participando de protestos contra as vacinas e as máscaras. Agora, há apenas um grupo fazendo aparições públicas: o Patriot Front. Não anunciam protestos, mas vão a um local, sem dizer nada antes, para marchar um pouco, tirar algumas fotos e fugir antes que algo a mais aconteça.

Consequentemente, o contexto mudou. Não estamos vendo grupos antifa organizando respostas, talvez desde 2019, porque não há uma presença notável de grupos fascistas nas ruas. Existem grupos antifascistas, mas o que mais fazem é investigar a ultradireita nas redes sociais e coisas do tipo. Então, quando Trump emitiu essa ordem executiva de rotular os grupos antifascistas como “terroristas”, não foi uma resposta a algo real na sociedade, mas um termo ou palavra útil como o bicho-papão ou uma palavra como “comunista” no passado, que serve para demonizar a esquerda.

Estão dizendo agora que o protesto é uma forma de “terrorismo”. É interessante que não estejam utilizando a palavra antifa, mais recentemente. Foi algo muito sério, obviamente para mim, mas durou mais ou menos duas semanas, em outubro. Depois disso, nada. Agora, falam de “terroristas” e “terrorismo”. Disseram que Alex Pretti e Renee Nicole Good eram “terroristas” e que, mais ou menos, a esquerda e as pessoas que protestam lá são “terroristas”. Não sei se voltarão a utilizar o termo antifa; é possível, não sei, mas foi isso que aconteceu.

As reformas judiciais, a vigilância em massa e a militarização da polícia cresceram tanto com os republicanos quanto com os democratas. Você percebe um consenso oligárquico em direção a uma nova forma de Estado?

Sim, penso que sim. É verdade que ambos os partidos têm sido mais ou menos favoráveis à força da polícia e do sistema de vigilância. Durante o movimento Black Lives Matter, muitas pessoas no movimento falavam do lema Defund the police, desfinanciar a polícia. Não diz explicitamente abolir a polícia, mas para muitas pessoas é um passo necessário para o objetivo de aboli-la, embora não para todos. É um pouco ambíguo, mas foi um lema famoso e, em consequência, alguns políticos democratas se viram obrigados a tentar implementá-lo em um nível muito local. Mas, em termos gerais, o Partido Democrata decidiu que esse lema foi um problema para eles.

Mesmo agora, os líderes do Partido Democrata não estão dizendo “abolir o ICE”, pois não querem ser vistos como “antipolícia”. É uma posição perigosa para eles. No que diz respeito à imigração, também não querem ser considerados “fracos”. Então, sua resistência não é forte. Fundamentalmente, não resta nada mais a esperar até as próximas eleições. Se o ICE não estivesse matando pessoas nas ruas e se suas operações fossem um pouco menos agressivas, os líderes do Partido Democrata estariam plenamente de acordo com eles. Não são tão diferentes.

Há um consenso, pelo menos entre os líderes dos democratas e republicanos: uma força policial forte, com muito equipamento, e um estado de vigilância, como visto durante a presidência de Barack Obama, quando Edward Snowden revelou tudo isso.

Quais divisões internas estão surgindo dentro do movimento MAGA e da extrema-direita estadunidense em geral? Quais são seus pontos fracos?

Existe uma forte ruptura em torno de Israel e o sionismo porque existe uma forte tendência na direita estadunidense, há muitos anos, considerada favorável ao isolacionismo. Há um grupo isolacionista, também antissemita, que pergunta: “Por que estamos ajudando esses judeus?” Essa é uma ruptura personificada por figuras como Nick Fuentes. Agora, ele é muito famoso, e talvez a figura mais importante da extrema-direita antissemita. Ele criticava essa posição, que também foi exposta em uma conferência da extrema-direita. Alguém perguntou ao vice-presidente J.D. Vance: “Por que estamos tão envolvidos com Israel?” Sua resposta foi algo assim: “Porque os israelenses podem proteger as igrejas no Oriente Médio”. Foi uma resposta para justificar tudo isto a partir de uma perspectiva “cristã”. Para mim, isso mostra que ele quer dialogar com os dois lados do movimento MAGA ao mesmo tempo.

Em relação ao ICE e as armas, com a arma de Alex Pretti, as autoridades disseram que ele “tentou matar vários agentes do ICE”. A reação dos setores que defendem o direito a portar armas foi que ele tinha o direito de possuir armas, que não fez nada ilegal. Há debates desse tipo.

Além disso, qualquer pessoa que assista ao vídeo do que aconteceu pode ver que ele não tentou matar ninguém. Embora não sejam muitos, até mesmo alguns conservadores dizem que é ridículo, porque era apenas um manifestante.

Marjorie Taylor Greene é outra figura importante. Ela foi do MAGA por muitos anos, mas recentemente criticou Trump em relação a Israel. Também está falando sobre o ICE e como eles mataram Alex Pretti. Em geral, vemos que Trump está em uma posição frágil, mas pode ser mais perigoso nesta posição, pois teme pelo seu futuro.

Que oportunidades você vê para elevar o antifascismo de um nicho contracultural, como mencionamos antes, a um verdadeiro movimento de massas?

É isso que está acontecendo agora. Existem grupos antifa que estão participando de protestos aqui e ali, e isso já é alguma coisa. Mas, neste momento, o antifascismo nos Estados Unidos é o movimento anti-ICE, com greves, com redes de apoio a imigrantes, com grupos que vigiam os agentes do ICE por onde vão, grupos de pais de crianças que todos os dias protegem as creches e as escolas. Isto é, para mim, o verdadeiro antifascismo de massas e o antifascismo cotidiano em um sentido público, de autodefesa comunitária. Traz muita esperança, muita inspiração, porque a maioria dessas pessoas não é ativista. Para muitos, é a primeira vez que participam de algo assim: as pessoas viram que atacaram escolas com gás lacrimogêneo e sentiram a necessidade de se organizar.

A extrema-direita sempre pensa que essa forma de organização é como “uma conspiração” e que sempre existe um rico por trás de tudo subornando a todos, porque não conseguem imaginar uma colaboração com seus vizinhos ou algo assim, pois possuem uma perspectiva extremamente individualista.

É o que está acontecendo agora, e surgem muitas perguntas: Qual será o papel da esquerda, depois de tudo isso? Este momento de resistência influenciará um futuro de resistência? Não sei a resposta para tudo isso, mas muitas pessoas estão se radicalizando e pensando em resistência a partir da base, em seus bairros. Isso é muito importante porque até agora não tínhamos nada disso.

Diante do rearmamento, da violência fascista nas ruas e do belicismo, você considera possível articular uma frente de defesa ampla, sem subordinar-se ao programa reformista e ao Partido Democrata?

No momento, o Partido Democrata não está realmente apresentando uma posição de resistência, então, não temos esse perigo porque não estão apresentando nada. Há algumas exceções, alguns políticos que em alguns estados estão falando de forma mais dura, mas não são muitos. Então, as pessoas nesses bairros, grupos de ativistas, sindicatos etc., estão criando suas próprias formas de resistência.

Mas nos Estados Unidos, e imagino que aconteça o mesmo aqui na Europa, durante uma época de luta, obviamente, algumas pessoas sempre tendem a ficar mais à esquerda, serão mais radicais, revolucionárias. Outras, após o “fim do problema”, regressarão às suas vidas, sem pensar na luta. Sempre tivemos esses dois lados. Imagino que desta vez será assim novamente, infelizmente.

Para mim, a questão fundamental em tudo isso é o que eu dizia antes: o Partido Democrata e os centristas dizem ser contra o ICE, dizem estar ao lado dos imigrantes, mas ainda acreditam em fronteiras, acreditam na necessidade de documentos para existir em outro país. Então, não é uma oposição completa, é parcial. Espero que cada vez mais pessoas entendam isso e reflitam sobre o quão ridículo é tudo isso e sobre a necessidade de solidariedade aos imigrantes, sem importar a situação legal. Essa é a posição de quem é radical e anticapitalista.

Outra questão que me interessa menos - porque não sou fã dos democratas -, mas que é importante: o papel do voto latino nas eleições futuras. Parece-me que uma geração de latinos não vai votar nos republicanos.

Quais táticas de polarização do descontentamento social você imagina para disputar a hegemonia com o fascismo e o autoritarismo de Estado?

Trump e seus amigos querem normalizar soldados nas ruas, normalizar a impunidade diante das vítimas do Estado, normalizar o racismo, o machismo e a xenofobia. Qualquer ação em oposição a isto ajuda. A campanha antifascista em Minneapolis é um bom exemplo: quase toda a cidade resistindo de várias maneiras. O homem que foi assassinado no sábado era um enfermeiro, e o sindicato dos enfermeiros está organizando uma greve para sexta-feira desta semana.

Outro debate que existe na esquerda - em termos gerais - é esta questão: “É isso que significa ser estadunidense?” “Estes são os Estados Unidos de verdade?” Há pessoas no centro liberal dizendo: “tudo isto não é o meu país”, “não somos isso”. Mas os radicais dizem que a história dos Estados Unidos é o genocídio e a escravidão. Então, não é tão diferente do passado deste país.

Acredito que precisamos de resistência imediata, mas também é importante entender a história do país e compreender que se vamos ter capitalismo e racismo, o perigo do fascismo persistirá; não desaparecerá.

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