11 Fevereiro 2026
Elisa Belotti, do Bonding 2.0, é coautora de um novo livro sobre catolicismo, feminismo e vivências queer intitulado La Chiesa che (non) ci vuole, escrito em parceria com a socióloga Paola Lazzarini e com a teóloga Sandra Letizia. A obra foi publicada na Itália em novembro de 2025 pela Edizioni Tlon. O livro busca provocar uma renovação do debate sobre justiça social no interior da Igreja Católica. A seguir, um resumo da obra apresentado por Belotti.
A informação é publicada por New Ways Ministry, 10-01-2025.
O título do livro é um jogo de palavras. La Chiesa che (non) ci vuole pode significar tanto “A Igreja que (não) nos quer” quanto “A Igreja de que (não) precisamos”. Desde a capa, nosso objetivo foi convidar as leitoras e os leitores a refletirem sobre sua própria experiência com a Igreja e sobre suas esperanças em relação a ela. Que tipo de Igreja realmente importa para o presente e para o futuro? Uma que exclui, ainda incapaz de acolher as diferenças, temerosa da mudança e defensiva até mesmo em relação ao Evangelho que proclama? Ou uma capaz de escuta e de relação, apta a reconhecer a pluralidade de corpos e experiências, e a redescobrir sua promessa mais autêntica na liberdade da fé?
A capa do livro também carrega um forte simbolismo. A ilustradora Caterina Di Paolo reinterpretou a iconografia tradicional de Nossa Senhora da Misericórdia, geralmente representada de pé, com o manto aberto para proteger pessoas necessitadas e perseguidas. Em nossa versão, Maria acolhe os marginalizados. Sem julgamento ou vergonha, ela nos recorda que já há lugar para todas as pessoas na Igreja, sem necessidade de permissão.

O livro, disponível apenas em italiano, é fruto de dois anos de trabalho, pesquisa e discernimento compartilhado. Ele nasceu do primeiro podcast italiano dedicado ao catolicismo, ao feminismo e às vivências queer, chamado Cristianə a chi?, que nós três apresentamos. Ao longo de seis temporadas, exploramos muitos dos temas mais urgentes enfrentados pelo cristianismo hoje: o corpo, a sexualidade, o pecado, a família, o privilégio, a política, a justiça reprodutiva, o dinheiro, a sustentabilidade, entre outros. Esse projeto revelou o quanto pode ser transformador criar espaços onde narrativas pessoais, análise crítica e fé possam coexistir sem medo e com profunda honestidade.
Sandra Letizia
A teóloga Letizia explica: “Este livro é o fruto de um caminho compartilhado. Com Elisa e Paola, reunimos conversas, feridas, intuições e esperanças para mostrar que aqueles que estão à margem também são Igreja. Escrever este livro foi um ato de fé e de coragem. Acreditamos profundamente que a Igreja é uma realidade viva, mais ampla, mais real e mais acolhedora do que às vezes parece. É um lugar onde todas as pessoas deveriam poder se reconhecer. Este não é um livro contra a Igreja, mas um livro a partir de dentro da Igreja: um convite a ampliar o olhar e a afirmar que um espaço diferente é, de fato, possível.”
Quando a editora nos convidou a escrever este livro, dedicamos um tempo ao discernimento do que precisava, de forma inadiável, ser abordado. Começamos com uma pergunta fundamental: o que significa ser católico? Para explorá-la, nos debruçamos sobre a consciência, o magistério, o dogma e a vida comunitária. Desenvolver uma fé adulta exige perguntar por que acreditamos no que acreditamos e onde escolhemos nos posicionar.
O livro analisa a ideologia binária e o privilégio, examinando como a Igreja historicamente construiu papéis que empurram sobretudo as mulheres para as margens. Ainda assim, de dentro da própria Igreja, continua a crescer uma corrente libertadora: a teologia feminista e queer. A partir desse ponto, escrevemos sobre o corpo e sobre como a cultura católica moldou experiências de amor, sexualidade, culpa e prazer, muitas vezes de maneiras que feriram inúmeras pessoas. Ao refletir sobre o corpo, não pudemos ignorar as vidas de pessoas trans, cujas experiências são frequentemente silenciadas ou maltratadas nos contextos eclesiais.
Outro tema central é a família. Examinamos o ensinamento católico sobre o matrimônio entre um homem e uma mulher, mas também as muitas formas de família presentes na Igreja de hoje: famílias marcadas pela separação ou pelo divórcio, casais não casados, relações queer, famílias escolhidas, casais sem filhos e famílias adotivas.
Paola Lazzarini
Outro capítulo aborda o poder e os abusos. Analisamos diferentes formas de violência: abusos de consciência, manipulação espiritual, violência sexual e os danos sofridos por crianças, religiosas e pessoas LGBTQ+ por meio das chamadas terapias de conversão (SOGIECE, Sexual Orientation and Gender Identity Change Efforts — esforços para mudar a orientação sexual e a identidade de gênero). Por fim, escrevemos sobre a fé e a espiritualidade como uma relação viva com Deus, enraizada na experiência e no discernimento, e não na mera obediência.
A socióloga Lazzarini reflete: “Acredito que este livro ofereça uma oportunidade importante para enfrentar algumas das questões mais controversas do nosso tempo e do ensinamento católico. Tudo isso é feito a partir do olhar de três mulheres que escolhem interrogar sua fé com competência, consciência, liberdade e sem medo. É também fruto de inúmeros encontros nascidos ao longo de cinco anos de trabalho com o podcast. Sem eles, jamais teríamos alcançado esta primeira síntese.”
Somos profundamente gratas a todas as pessoas que, muito antes de nós, trabalharam incansavelmente para ampliar direitos tanto na sociedade quanto dentro da Igreja Católica. Seu testemunho abriu um caminho de coragem e possibilidade que agora temos o privilégio e a responsabilidade de continuar trilhando.
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