11 Fevereiro 2026
"A Luz do Tabor é menos um tratado técnico do que uma grande proposição teológica: Cristo como a revelação não apenas de quem Deus é, mas também do que, em última análise, o homem é", escreve Paolo Gamberini, jesuíta italiano, capelão da Universidade La Sapienza de Roma, em comentário do livro de David Bentley Hart, publicado em seu blog, 11-01-2026.
Eis o artigo.
Em The Light of Tabor: Toward a Monistic Christology (A luz do Tabor: rumo a uma cristologia monista, em tradução), David Bentley Hart oferece uma das reflexões cristológicas mais radicais e ambiciosas dos últimos anos. O livro, fruto das Palestras Stanton realizadas em Cambridge em 2024, trilha um caminho delicado: permanecendo plenamente fiel ao núcleo dogmático do cristianismo clássico, ao mesmo tempo que demonstra que muitas formulações comuns da "união hipostática" são conceitualmente instáveis. Hart começa com um diagnóstico claro: grande parte da cristologia pós-nicena acabou interpretando a fé por meio de categorias metafísicas ("natureza", "pessoa", "hipóstase") que não coincidem com a imagética original das Escrituras, que era mais narrativa, genealógica e simbólica. O resultado é uma tensão permanente entre a linguagem bíblica de descendência e ascensão, transfiguração e divinização, e o aparato conceitual que fala de "duas naturezas" a serem mantidas juntas sem confusão ou separação.
Diante desse impasse, Hart propõe o que chama de "cristologia monista". Não se trata de reduzir Deus e o mundo a uma única substância indiferenciada, mas de levar a sério a ideia de que a união em Cristo só pode ser verdadeiramente inteligível se o divino e o humano não forem concebidos como duas realidades originalmente estranhas que se encontram de fora. Na raiz, argumenta Hart, deve haver uma comunalidade mais profunda: o fato de que toda realidade criada já existe como participação no Logos. Em Cristo, essa participação não é parcial, opaca ou alienada, mas perfeitamente transparente. Jesus, portanto, não seria o locus de uma coexistência difícil entre dois centros, mas o homem em quem a identidade humana coincide, sem resíduos, com a presença do Logos eterno. Por essa razão, sua humanidade nada "acrescenta" a Deus, mas é inteiramente recebida por Deus como seu próprio ato de manifestação.
David Bentley Hart. The Light of Tabor: Toward a Monistic Christology (Foto: Divulgação)
Uma seção crucial do livro é dedicada a desmistificar o uso ingênuo de categorias como "natureza" e "pessoa". Hart demonstra como, no Novo Testamento, "natureza" frequentemente indica pertencimento, genealogia e proveniência, em vez de uma essência metafísica. A imagem original é a de família, herança e filiação, não a de duas substâncias incompatíveis. De forma semelhante, ele critica o "personalismo" moderno que trata a pessoa como um recipiente neutro de propriedades: se a hipóstase é real, argumenta Hart, ela só existe como a subsistência concreta de uma natureza. Daí a questão crucial: como a plena subsistência do divino e do humano podem ser a mesma subsistência? A única resposta coerente, para Hart, é que a distinção deve ser interna a uma identidade mais original, e não a concordância entre dois princípios externos.
O símbolo que permeia todo o livro é a Transfiguração no Monte Tabor. Nesse momento, escreve Hart, não acontece algo "excepcional", mas algo revelador: a glória que sempre habita no Logos resplandece através da carne e revela o que toda criatura é chamada a se tornar. Cristo é o homem totalmente "não opaco", aquele em quem não há distância entre o "eu" humano e o "eu sou" divino. Por essa razão, ele é absolutamente único e profundamente revelador do destino humano: a divinização não como um acréscimo sobrenatural, mas como a realização da verdade mais profunda da criatura.
O resultado é um livro que é, ao mesmo tempo, exegético, metafísico e místico. Hart dialoga com Paulo, João, Orígenes, Máximo, o Confessor, Gregório de Nissa e Bulgákov, mas também com a metafísica clássica e temas do pensamento vedântico indiano. Seu estilo é polêmico, brilhante, muitas vezes implacável com as simplificações modernas, mas sempre guiado por uma intenção precisa: demonstrar que a fé na encarnação não é um paradoxo a ser tolerado, mas sim a chave para a compreensão da própria estrutura da realidade. A Luz do Tabor é, nesse sentido, menos um tratado técnico do que uma grande proposição teológica: Cristo como a revelação não apenas de quem Deus é, mas também do que, em última análise, o homem é.
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