O Papa Leão enfrenta o teste do consistório. Artigo de Alberto Melloni

Foto: Vatican Media

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08 Janeiro 2026

"O consistório terá, portanto, que decidir se a Igreja é capaz de extrair do Vaticano II sugestões teológicas férteis e fecundas. Não citações, como a máquina redacional do papado fez por décadas, mas caminhos de investigação teológica tão necessários quanto o ar".

O artigo é de Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, publicado por Corriere della Sera, 06-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Nesta quarta-feira Leão celebrará seu primeiro consistório, ou seja, a reunião de todos os cardeais, entre os quais ainda estão todos os seus eleitores. Costuma-se dizer que é o momento de "retomar as questões discutidas nos ‘novendiali’": mas é uma fórmula pouco explicativa. Naquela oportunidade Francisco foi duramente criticado, mas, no fim, foi eleito um religioso desconhecido, projetado para os mais altos escalões do governo romano no mais puro estilo bergogliano. E o pedido que surgiu então foi prontamente aceito por Leão, porque ficar esperando na surdina até à beira da inação é do seu caráter e da sua regra.

Será o consistório o momento em que ele mudará de rumo? Será como o de 25 de janeiro de 1959, quando o Papa João X anunciou um sínodo para Roma, um novo código de direito canônico e um concílio geral? Na teoria, sim; mas, na prática, é mais provável que seja uma síntese entre duas demandas.

O consistório é o momento em que os muitos eleitores que se concentraram no nome de Prevost apresentarão instâncias mais articuladas do que as que ocorreram durante os dias do conclave. Correrão alguns riscos, porque o chicote frequentemente usado por seu antecessor certamente não é utilizado há meses; mas ninguém sabe se está guardado no sótão ou atrás da porta. E o papa também correrá alguns riscos, pois faz com que sejam ditas coisas em público que não poderão ser descartadas com um "veremos", como acontece nas audiências privadas.

O consistório, no entanto, será também o momento em que o próprio Leão avaliará os cardeais. Ele precisa deles: para escolher os chefes dos dicastérios que precisa substituir, para entender o que está fervendo no caldeirão das dioceses, para decidir se reforma ou extingue um órgão semelhante ao Conselho de Cardeais (C9), criado por Francisco "para auxiliá-lo no governo da Igreja universal" e depois reduzido por ele mesmo a uma comissão para a enésima reforma da Cúria.

Na convergência entre esse posicionamento mútuo do Papa e dos cardeais, encontram-se quatro questões sobre as quais Leão convidou todos a se pronunciarem: dizem respeito à missão delineada pela Evangelii Gaudium, ao nexo Igreja universal/Igreja particular posto pela Praedicate Evangelium, à sinodalidade e à relação entre tradição e liturgia.

São problemas de âmbito conciliar, mas para as quais o Vaticano II já deu respostas que Prevost deseja "revisar". Respostas a questões doutrinais (sim, doutrinais, sem subterfúgios lastimáveis como aqueles utilizadas pelos admiradores de Francisco, "que não toca a doutrina").

Na Lumen Gentium, o Concílio ensina que as igrejas locais são aquelas em e a partir das quais (in quibus et ex quibus) se dá a unidade da Igreja, e não o contrário. Na mesma constituição, o concílio ensina que todos os homens e mulheres batizados são membros da Igreja, que, pelo Espírito (Spiritum Christi habentes), são pedras vivas capazes de codecisão, juntamente com os bispos, que são o elo necessário na comunhão das Igrejas. O Vaticano II aprovou a decisão de restaurar um contato vivo com a Grande Tradição Litúrgica de todos os séculos, do Oriente e do Ocidente cristãos, e rompeu não um vínculo com o passado, mas o apego lícito e nostálgico por um gosto ritualístico oitocentista e barroco que seria blasfemo chamar de "tradição".

O consistório terá, portanto, que decidir se a Igreja é capaz de extrair do Vaticano II sugestões teológicas férteis e fecundas. Não citações, como a máquina redacional do papado fez por décadas, mas caminhos de investigação teológica tão necessários quanto o ar.

A teologia católica, de fato, viu seus grandes nomes se formarem antes do Vaticano II: alguns deles continuaram a esperar que as coisas que o concílio não havia feito viessem por impulso da opinião pública; outros viram na turbulência pós-conciliar não os sinais de uma fermentação, mas de uma crise. E assim a teologia desapareceu, dando lugar aos "yes men" e aos "do contra": os primeiros facilitando tudo, os outros declarando tudo impossível, "definitivamente". E no meio, uma opinião pública dividida entre aqueles que acreditam que é crucial para a transmissão da fé a agenda de gênero ou orientação sexual e aqueles que a medem pelo consumo de rendas litúrgicas e pelo retorno de um gregoriano romântico imaginário.

Para a Igreja viver 20 anos sem uma teologia não significa nada; trinta, também não; cinquenta quase nada. Mas, a longo prazo, tem um preço: e um debate público na base de declarações em sites altamente visitados de difamação ultracatólica e de banalizações "espirituais" está aí para confirmar que nenhum dos problemas profundos, verdadeiros e grandes do cristianismo neste tempo de escuridão e de sangue pode prescindir de questões profundas e verdadeiras sobre o próprio núcleo da fé e da transmissão da fé.

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