08 Janeiro 2026
"Esta é a nossa primeira obediência: permanecer na barca de Pedro, com o sucessor de Jesus, enquanto ele enfrenta as tempestades do nosso tempo", enfatizou o teólogo e cardeal dominicano.
O artigo é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 07-01-2026.
Eis o artigo.
"Estou aqui para ouvir." Leão XIV abriu o primeiro consistório extraordinário de seu pontificado com um apelo à colegialidade e ao trabalho comum de todos os cardeais. Antes de seu discurso, o Cardeal Timothy Radcliffe ofereceu uma reflexão inicial, focando na necessidade de acompanhar o sucessor de Pedro. "Jesus ordenou aos discípulos que entrassem no barco e fossem à sua frente. Pedro não deve enfrentar a tempestade sozinho. Esta é a nossa primeira obediência: permanecer na Barca de Pedro, com o sucessor de Jesus, enquanto ele enfrenta as tempestades do nosso tempo", observou o cardeal dominicano.
Com um forte apelo à unidade, Radcliffe enfatizou que "se a Barca de Pedro estivesse cheia de discípulos brigando entre si, não seríamos de nenhuma utilidade para o Santo Padre. Se ao contrário, vivermos uns com os outros em paz e amor, mesmo quando surgirem diferenças, Deus estará verdadeiramente presente, mesmo quando parecer ausente."
"Não devemos ter medo. Nós também vivemos em tempos de tempestades terríveis, marcados pela escalada da violência, do crime armado à guerra", insistiu o cardeal. "O fosso entre ricos e pobres está a aumentar cada vez mais. A ordem global nascida após a última guerra mundial está a desmoronar-se. Ainda não sabemos que resultados a inteligência artificial irá produzir. Se ainda não estamos inquietos, deveríamos estar", enfatizou.
As "tempestades" da própria Igreja
Sem ignorar os problemas internos da Igreja, o frade dominicano insistiu que "a própria Igreja está sendo abalada por suas próprias tempestades: abusos sexuais e divisões ideológicas". Diante disso, "o Senhor nos chama a navegar por essas tempestades e a enfrentá-las com verdade e coragem, sem esperar timidamente na praia. Se fizermos isso neste Conclave, o veremos vindo ao nosso encontro. Se, ao contrário, permanecermos escondidos na praia, não o encontraremos".
Tudo isso, apesar de reconhecer as diferentes tendências, inclusive ideológicas, dentro do Colégio Cardinalício. "No consistório, alguns de nós seremos guardiões da memória, valorizando e salvaguardando a tradição. Outros saberão se alegrar mais intensamente com a surpreendente novidade de Deus", afirmou. "Memória e novidade, porém, são inseparáveis no dinamismo da vida cristã", insistiu, afirmando que "nossas discussões ganharão vida se soubermos permanecer unidos, enraizados na memória das grandes obras realizadas pelo Senhor e abertos à sua frescura perene e sempre renovada", pois "não há competição entre as duas".
"Diante dos grandes desafios do mundo e da Igreja, podemos sentir que temos pouco a oferecer. O que podemos dizer ou fazer que realmente faça a diferença? No entanto, com a graça de Deus, o nosso pouco será mais do que suficiente. Não endureçamos os nossos corações, mas abramo-los aos dons imensuráveis de Deus, que nos concede graça ilimitada se abrirmos as nossas mãos e os nossos ouvidos para Ele e para os outros", concluiu.
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