Palestina como laboratório, favela como campo de testes: a circulação global da repressão. Artigo de Mariana Kauchakje

Foto: Pok Rie/Pexels

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07 Janeiro 2026

"Perceber a solidariedade como ação e não apenas sentimento significa reconhecer a conexão de nossas lutas, e a centralidade da questão palestina escancara a linha contínua que perpassa diversos projetos coloniais. Sua luta, portanto, vai além de um marco simbólico; é, nesse momento, a materialização do eco colonial que se manifesta nas tecnologias de controle aplicadas sobre territórios subjugados".

O artigo é de Mariana Kauchakje, enviado pela assessoria de comunicação da Rede BrCidades, 19-12-2025.

Mariana Kauchakje é mestra e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, pesquisa sobre a Questão Palestina, Militarização e Tecnopolíticas Urbanas. Integrante do MTST e colaborada da Rede BrCidades.

Eis o artigo.

Quando compreendemos que as armas, estratégias e tecnologias de morte usadas em Jenin e Gaza são as mesmas usadas na Maré, Alemão e Penha, a solidariedade deixa de ser uma opção e se torna uma necessidade estratégica, de sobrevivência e libertação. Nossa luta é conjunta porque o inimigo e suas tecnologias também o são.

Perceber a solidariedade como ação e não apenas sentimento significa reconhecer a conexão de nossas lutas, e a centralidade da questão palestina escancara a linha contínua que perpassa diversos projetos coloniais. Sua luta, portanto, vai além de um marco simbólico; é, nesse momento, a materialização do eco colonial que se manifesta nas tecnologias de controle aplicadas sobre territórios subjugados.

Cada um desses lugares possui sua própria história colonial, capaz de descrever a forma como certos corpos e territórios são categorizados como subalternos, ameaçadores e passíveis de eliminação. Portanto, não é a conjuntura de Gaza, da questão Palestina ou a do conjunto de favelas da Maré que dá contornos a isso. Mas, ao comparar a lógica da necropolítica e da militarização dirigidas aos Territórios Palestinos Ocupados (TPO) e às favelas do Rio de Janeiro, por exemplo, identificamos entrelaçamentos que podem contribuir para entendermos os desdobramentos dessas histórias e suas permanências.

Dia 29 de novembro marca o Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino (data que coincide com a aprovação da resolução 181 da ONU sobre a partilha, que nunca se concretizou). Passados mais de 2 anos da recente escalada de violência, o que é possível falar sobre os avanços da luta e da solidariedade? Por que ainda falar sobre ela?

O fato é que a questão palestina ganhou mais espaço nos noticiários, discussões acadêmicas, políticas e até mesas de bar. Essa ampliação se deve à capacidade de resistência e luta pela libertação protagonizada pelos palestinos. É inegável, porém, que a etapa digital da luta, com o uso estratégico de novos meios de comunicação, multiplicou e ampliou vozes, expondo de maneira crua a realidade enfrentada desde a Nakba. O termo, em árabe, para a tragédia que tem como marco o ano de 1948 que, para além da criação do estado de Israel, significou a expulsão de civis, massacres de vilas inteiras e a subsequente tomada de terras e construção de barreiras jurídicas e físicas que impediram o retorno da população palestina – são aproximadamente 7 milhões de refugiados em diáspora.

O alcance da questão palestina, da escalada de violência de Israel na Cisjordânia e do genocídio em Gaza, é um novo capítulo de uma história que se arrasta desde o mandato britânico, ou como os palestinos descrevem, a Nakba continua.

Ainda assim, a solidariedade global e os avanços institucionais (como o processo da África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça e os relatórios da ONU) não se materializaram em sanções capazes de barrar o genocídio e a tomada de terras pelo estado ocupante.

Da Palestina às favelas do Brasil, a tecnopolítica emerge como força ordenadora-discursiva, material e simbólica, que redefine a cidade a partir da gestão do medo. É uma política de gestão da vida e da morte que modula o acesso ao espaço urbano por meio de dispositivos algorítmicos, arquitetônicos e jurídicos, construindo uma cartografia da exclusão.

O ambiente urbano militarizado, como demonstra o urbanista Stephen Graham, encontra na ideia de guerra a constante dominante, seja guerra às drogas, ao crime, ao terror ou à insurgência. Compreender como a lógica de guerra se inscreve no espaço é construir uma genealogia do controle e das práticas que persistem como cicatrizes coloniais.

O paralelo é perceptível e o necropoder, conceito de Achille Mbembe, define quem pode viver e quem deve morrer, baseando-se na diferenciação de corpos e territórios racializados. Estes espaços são convertidos em zonas de exceção permanente, onde direitos civis são suspensos em nome da “segurança”.

A semelhança não se dá ao acaso, é fruto de um fluxo internacional de técnicas e equipamentos de repressão. O Brasil é um dos principais importadores de armas, drones e sistemas de vigilância israelenses. Empresas como a Elbit Systems, responsável pelo muro em Jerusalém Oriental e por drones em Gaza, são parceiras do estado brasileiro. A doutrina militar israelense de operações urbanas, forjada na repressão, encarceramento em massa e morte de palestinos, é exportada e aplicada em treinamentos para as polícias do Rio e São Paulo. A Palestina serve como laboratório de desenvolvimento; as favelas, como campo de testes. A compra de uma arma israelense traz embutida a doutrina de que determinados corpos e territórios são inimigos a serem controlados e eliminados.

A cidade torna-se arma: planejada, ocupada e gerida sob a lógica da exceção, onde o “outro” é transformado em alvo. A comparação entre os TPO e as favelas do Rio permite uma epistemologia da cidade militarizada que reconhece os vínculos entre colonialismo, tecnopolítica e violência urbana.

Mariana Kauchakje

Edward Said demonstrou que a experiência palestina sob o regime sionista e a dos povos racializados latino-americanos se encontram em coincidências inconfundíveis, revelando que a violência urbana não é apenas sintoma da crise das cidades, mas expressão de projetos de poder que operam por meio da guerra assimétrica.

Segundo pesquisa da Quaest, divulgada em 2025, 67% dos brasileiros aprovaram a megaoperação nas favelas da Penha e do Alemão (outubro de 2025), avaliando que não houve exagero policial. A operação mais letal da história do Rio resultou em 121 mortos, apreensão de apenas 120 armas e a prisão de somente 4 dos 51 alvos de mandados.

A aprovação vem a reboque de anos de aprofundamento de discursos e políticas de estado que colocam o extermínio, opressão e segregação como equivalentes a políticas de segurança pública. Fomos de governos omissos quanto à letalidade policial em territórios de favela a governos que declararam que a solução era “atirar na cabecinha” ou que “de inocente só morreram os policiais”.

Já pesquisa encomendada pelo jornal Haaretz, publicada em 2025, mostrou que 82% dos israelenses eram a favor da expulsão de todos os palestinos dos territórios ocupados e 47% apoiavam o assassinato de todos os palestinos em Gaza. A pesquisa saiu quando os números já apontavam mais de 55.000 mortos em Gaza, 83% civis.

O estado de exceção é aplicado não unicamente para as mortes, mas também para aqueles que merecem luto.

Nesse contexto, solidarizar-se vai além de um posicionamento diplomático ou lamento sentido. Significa um compromisso com nossa humanidade compartilhada e o reconhecimento do entrelaçamento das lutas por libertação.

O urbicídio e o genocídio em Gaza e na Cisjordânia, o encarceramento em massa e a política de extermínio nas periferias brasileiras são frutos da mesma lógica colonial e racista, atualizada por um complexo industrial-militar transnacional. A luta palestina representa hoje um fio condutor essencial porque expõe os mecanismos de um projeto global de dominação. E se ela ainda não foi capaz de produzir a própria libertação, ela se apresenta como símbolo de todas as outras. A Palestina nos diz que o colonialismo está vivo e, infelizmente, respira bem, sem ajuda de aparelhos.

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