Distorcer a religião (para fins políticos). Artigo de Carlo Verdelli

Foto: Luis Quintero | Pexels

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30 Setembro 2025

"Não resta realmente nenhuma religião nessa apropriação indébita da religião mais praticada no mundo e em sua diabólica distorção em algo totalmente oposto ao que Cristo pregou e encarnou em sua Paixão. Como se as taboas dos Dez Mandamentos, com seu ensinamento profundo e imperativo de fazer o bem, não estivessem gravados na pedra, mas escritos com tinta invisível. Os últimos serão os primeiros, nada mais distante do 'American First'", escreve Carlo Verdelli, jornalista italiano, em artigo publicado por Corriere della Sera, 29-09-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

À medida que o mundo desliza em direção ao risco catastrófico de outra grande guerra, com uma irresponsabilidade de atos e ameaças que nos aproximam do ponto sem retorno, cada vez mais toma forma uma corrente impetuosa de ódio, varrendo tanto o cenário internacional quanto aqueles dos Estados individuais, incluindo a Itália.

E um dos pontos de ligação dessa crescente e raivosa intolerância parece ter se tornado a cruz. E não qualquer cruz: a cruz de Cristo.

Não existe um crime pelo uso impróprio da palavra "Deus". Não existe tribunal que sancione aqueles que distorcem para seus próprios fins a pedra angular de sua mensagem evangélica: amar o próximo como a si mesmo. Não existe lei que impeça transformar o Pai em senhor. E assim assistimos ao fenômeno de ideologias que, em nome de Deus, tentam abençoar posições e escolhas que nada têm a ver com o espírito evangélico e tudo a ver com uma concepção autoritária, hierárquica, das relações sociais, e também das relações políticas, bélicas ou comerciais.

O coração dessa nova igreja, de inspiração cristã, mas tribal e pagã na prática, são os Estados Unidos do segundo mandato Trump, com um imperador que se considera também papa (ele próprio se fez retratar em tal função em parte por brincadeira, em parte não), com as multidões de fiéis MAGA, com seus pregadores, como o era Charlie Kirk, que ascendeu a uma espécie de santidade laica após ser obscenamente assassinado.

O influenciador Kirk dizia que queria salvar a América. Na realidade, queria salvar apenas uma: a sua, branca, armada e amedrontada. Certa vez, discursou para a plateia, argumentando que "Deus não nos fez todos iguais, ele nos deu papéis diferentes". Outra, que: "as minorias devem se lembrar de que são hóspedes nesta casa". Muitas vezes amenizava essas declarações no dia seguinte, mas nesse interim a mensagem havia sido enviada. Kirk falava ao lado mais sensível de um país que vê a diversidade como uma ameaça, que transforma a fé numa arma e a Bíblia numa bandeira. Um país que encontrou em Trump não um líder, mas um espelho. Aquele Trump que continua a invocar Deus não para pedir perdão, mas consenso, com uma mensagem primitiva e poderosa: Ele está do nosso lado.

É difícil dizer como consegue estabelecer isso, mas é fácil entender a vantagem dessa apropriação indébita. Uma legitimação de seu próprio poder que literalmente transcende o consenso eleitoral. Uma investidura divina que apaga todo traço de responsabilidade democrática e ostenta precedentes não ilustres, mas inumeráveis, das Cruzadas ao "Gott Mit Uns", Deus está conosco, impresso nas fivelas do Terceiro Reich.

É o catecismo das novas direitas, com a requentada trindade "Deus, pátria e família", que vem conquistando prosélitos até mesmo na Europa, da França de Marine Le Pen à Hungria de Orbán, com a primeira-ministra italiana que reivindica com ardor seu cristianismo, o vice-primeiro-ministro Salvini que atravessou uma fase, aparentemente ultrapassada, de beijos exibidos à medalhinha da Virgem Maria, e uma maioria que impõe ao Parlamento uma sessão em memória e homenagem a Charlie Kirk, que ninguém conhecia antes de seu assassinato, mas que rapidamente ascendeu à eleita hoste dos mártires da Fé.

Ainda do evangelho apócrifo do próprio Kirk: "Deus criou a América para ser uma nação cristã, e qualquer um que quiser mudá-la vai contra o plano divino". Em outra ocasião, dirigindo-se a manifestantes pelos direitos civis: "Não precisamos de mais igualdade, precisamos de mais ordem". E vamos nos poupar dos sermões sobre a prevalência genética dos brancos sobre negros ou de outras cores.

Não resta realmente nenhuma religião nessa apropriação indébita da religião mais praticada no mundo e em sua diabólica distorção em algo totalmente oposto ao que Cristo pregou e encarnou em sua Paixão. Como se as taboas dos Dez Mandamentos, com seu ensinamento profundo e imperativo de fazer o bem, não estivessem gravados na pedra, mas escritos com tinta invisível. Os últimos serão os primeiros, nada mais distante do "American First". Mas quase tudo é permitido na política, até mesmo nos guiar como ovelhinhas perdidas rumo a horizontes angustiantes, mas sob vistosas bandeiras, abençoadas por sabe-se lá qual divindade, dobrada para a propaganda, convocada nos comícios como testemunha comprazente.

Desde 8 de maio, o Papa Leão XIV, nascido Robert Francis Prevost, de Chicago, Illinois, ocupa o trono de Pedro. Ele é o primeiro papa estadunidense a ocupar esse cargo. Cabe nos perguntarmos o que sente ao ver o Deus que representa sobre esta Terra sendo puxado pela túnica por causas que escapam à sua divindade onipotente, e que, de qualquer forma, pareceriam muito distantes das indicações de fraternidade, igualdade, amor ao próximo e à natureza, pregadas pelo Verbo.

Deveria haver uma espécie de proteção contra qualquer tentativa de falsificação, e talvez justamente ele, o Papa estadunidense, poderia enviar um pombo-correio ao seu compatriota Donald, com uma mensagem amarrada à pata: "Não tomarás o nome do Senhor em vão. Segundo mandamento. Obrigado." E, acima de tudo, não o use como brasão no aríete que ameaça destruir a última trincheira da democracia, da paz.

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