05 Abril 2025
“Somente os ingênuos podem ficar surpresos com o que está acontecendo. Tudo se repete, apenas dentro do capitalismo financeiro e não mais industrial como no século XX. A guerra e as armas têm estado no centro da economia e da política desde que o capitalismo se tornou imperialista. E são também o centro do processo de reprodução do capital e dos trabalhadores, em atroz competição entre si”. A reflexão é de Maurizio Lazzarato, sociólogo e filósofo italiano, em artigo publicado por Observatorio de la Crisis, 30-03-2025. A tradução é do Cepat.
“Não importa quão grande seja uma nação, se ela amar a guerra, perecerá; não importa quão pacífico seja o mundo, se esquecer a guerra estará em perigo” (“Wu Zi”, antigo tratado militar chinês).
“Quando dizemos sistema de guerra referimo-nos a um sistema como o atual que assume a guerra, mesmo que apenas planejada e não travada, como fundamento e vértice da ordem política, isto é, da relação entre os povos e entre os homens. Um sistema em que a guerra não é um acontecimento, mas uma instituição, não uma crise, mas uma função, não uma ruptura, mas uma pedra angular do sistema, uma guerra sempre obsoleta e exorcizada, mas nunca abandonada como uma possibilidade real” (Cláudio Napoleoni, 1986).
O advento de Trump é apocalíptico, no sentido literal significa livrar-se do que oculta, retirar o véu, desvelar (?!). A sua agitação convulsiva tem o grande mérito de mostrar a natureza do capitalismo, a relação entre a guerra, a política e o lucro, entre o capital e o Estado normalmente abrangidos pela democracia, pelos direitos humanos, pelos valores e pela missão da civilização ocidental.
A mesma hipocrisia está no cerne da narrativa construída para legitimar os 840 bilhões de euros para o rearmamento que a UE impõe aos Estados-Membros ao recorrer ao estado de exceção.
Armar-se não significa, como disse Draghi, defender “os valores que fundaram a nossa sociedade europeia” e que “garantiram durante décadas a paz, a solidariedade e, com o aliado estadunidense, a segurança, a soberania e a independência”, mas salvar o capitalismo financeiro.
Não são sequer necessários grandes discursos ou análises documentadas para desmascarar a pobreza destas narrativas. Bastou outro massacre de 400 civis palestinos para trazer à tona a verdade do discurso indecente sobre a exclusividade e a supremacia moral e cultural do Ocidente.
Trump não é um pacifista, limita-se a reconhecer a derrota estratégica da OTAN na guerra da Ucrânia, enquanto as elites europeias rejeitam as evidências. A paz para eles significaria voltar ao estado catastrófico a que reduziram as suas nações.
A guerra deve continuar porque para eles, assim como para os democratas e o Estado profundo estadunidense, é a saída para a crise que começou em 2008, como já aconteceu com a grande crise de 1929.
Trump planeja resolver a questão priorizando a economia sem negar a violência, a chantagem, a intimidação e a guerra. É muito provável que nem um nem outro tenham sucesso na tentativa porque têm um enorme problema: o capitalismo, na sua forma financeira, está em crise profunda e precisamente do seu centro – os EUA – chegam sinais “dramáticos” às elites que nos governam. Em vez de convergir para os EUA, os capitais fogem para a Europa.
Grandiosa notícia, sintoma de rupturas imprevisíveis que correm o risco de serem catastróficas. O capital financeiro não produz mercadorias, mas bolhas que inflam nos Estados Unidos e explodem em detrimento do resto do mundo, revelando-se armas de destruição em massa.
As finanças estadunidenses sugam valor (capital) de todo o mundo, investem-no numa bolha, que mais cedo ou mais tarde irá explodir, forçando as pessoas do planeta à austeridade, ao sacrifício para pagar pelos seus fracassos: primeiro foi a bolha da internet, depois a bolha dos subprimes que causou uma das maiores crises financeiras da história do capitalismo, abrindo a porta para a guerra.
Tentaram até a bolha do capitalismo verde que nunca pegou e, finalmente, a bolha incomparavelmente maior das empresas de alta tecnologia.
Para tapar os buracos dos desastres da dívida privada descarregada sobre a dívida pública, o FED e os bancos europeus inundaram os mercados com liquidez que, em vez de “pingar” na economia real, serviu para alimentar a bolha da alta tecnologia e o desenvolvimento dos fundos de investimento conhecidos como os “Três Grandes”, Vanguard, BlackRock e State Street (o maior monopólio da história do capitalismo, que gere 50 bilhões de dólares, acionista majoritário de todas as mais importantes empresas cotadas). Agora, até mesmo esta bolha está esvaziando.
Se dividirmos por dois toda a capitalização da lista da Bolsa de Wall Street, ainda estamos muito longe do valor real das empresas de alta tecnologia, cujas ações foram inflacionadas pelos próprios fundos para manter altos os dividendos para os seus “poupadores” (os democratas contavam mesmo em substituir o bem-estar social pelas finanças para todos, já que anteriormente tinham delirado com a habitação para todos os estadunidenses).
Agora a diversão chega ao fim. A bolha atingiu o limite e os valores caem com o risco real de um colapso. Se somarmos a isto a incerteza que as políticas de Trump – representante das finanças que não são as dos fundos de investimento – introduzem num sistema que conseguiram estabilizar com a ajuda dos democratas, compreendemos o medo dos “mercados”.
O capitalismo ocidental precisa de outra bolha porque não conhece nada além da reprodução da mesma coisa de sempre (a tentativa de Trump de reconstruir a indústria manufatureira nos Estados Unidos está destinada ao fracasso certo).
A Europa, que hoje já gasta mais de 60% do gasto da Rússia em armas (a OTAN representa 55% dos gastos mundiais em armas, a Rússia 5%), decidiu um grande plano de investimento de 800 bilhões de euros para continuar aumentando os gastos militares.
A guerra e a Europa onde ainda estão ativas redes políticas e econômicas, centros de poder que remetem à estratégia representada por Biden, derrotado nas últimas eleições presidenciais, são a ocasião para construir uma bolha baseada em armas para compensar as dificuldades crescentes dos “mercados” estadunidenses.
Desde dezembro, as ações das empresas de armamentos têm sido objeto de especulação, indo de aumento em aumento e servindo de porto seguro para os capitais que consideram a situação dos EUA demasiado arriscada.
No centro da operação estão os fundos de investimento, que também estão entre os principais acionistas de grandes empresas de armamento. Possuem participações significativas na Boeing, Lockheed Martin e RTX, influenciando na gestão e nas estratégias destas empresas.
Também na Europa estão presentes no complexo militar-industrial: a Rheinmetall, empresa alemã que fabrica o Leopard e que viu o preço das suas ações subir 100% nos últimos meses, tem como principais acionistas a Blackrock, a Société Générale, a Vanguard, etc.
A Rheinmetall, o maior fabricante de munições da Europa, ultrapassou o maior fabricante de automóveis do continente, a Volkswagen, em capitalização, o sinal mais recente do crescente apetite dos investidores por ações relacionadas com a defesa.
A União Europeia quer recolher e canalizar as poupanças continentais para armamentos com consequências catastróficas para os trabalhadores e uma maior divisão da União.
A corrida armamentista não poderá funcionar como “keynesianismo de guerra” porque o investimento em armas intervém numa economia financeirizada e não mais industrial. Construída com dinheiro público, beneficiará uma pequena minoria de indivíduos, ao mesmo tempo que piorará as condições da grande maioria da população.
A bolha armamentista só pode produzir os mesmos efeitos que a bolha estadunidense da alta tecnologia. Depois de 2008, as somas de dinheiro arrecadadas para o investimento na bolha da alta tecnologia nunca “chegaram” ao trabalhador estadunidense.
Pelo contrário, produziram uma desindustrialização crescente, empregos precários e pouco qualificados, salários baixos, pobreza galopante, a destruição do escasso Estado de bem-estar social herdado do New Deal e a subsequente privatização de todos os serviços. É o que a bolha financeira europeia irá, sem dúvida, produzir na Europa.
A financeirização conduzirá não só à destruição completa do Estado-Providência e à privatização generalizada dos serviços, mas também a uma maior fragmentação política do que ainda resta da União Europeia. As dívidas, contraídas por cada Estado em separado, terão de ser reembolsadas e haverá enormes diferenças entre os Estados europeus na sua capacidade de honrar as dívidas contraídas.
O verdadeiro perigo não são os russos, mas os alemães com o seu rearmamento de 500 bilhões de euros e outros 500 bilhões de euros para infraestruturas, financiamento decisivo na construção da bolha.
A última vez que se armaram combinaram desastres mundiais (25 milhões de mortos só na Rússia soviética, a solução final, etc.), de onde veio a famosa declaração de Andreotti contra a unificação alemã: “Amo tanto a Alemanha que prefiro duas”.
Enquanto espera pelos novos desenvolvimentos do nacionalismo e da extrema-direita agora com 21%, que inevitavelmente produzirá “Deutschland ist zurück”, a Alemanha imporá habitualmente sua hegemonia imperialista sobre os demais países europeus.
Os alemães abandonaram rapidamente o credo ordo-liberal que não tinha base econômica, apenas política, e abraçaram ao máximo a financeirização anglo-americana, com o mesmo objetivo de dominar e explorar a Europa.
O Financial Times fala de uma decisão tomada por Merz, o homem do Blackrock, e Kukies, o ministro do Tesouro, homem do Goldman Sachs, com o apoio dos partidos de “esquerda” PDS e Die Linke, que, assim como os seus antecessores em 1914, assumem mais uma vez a responsabilidade pela futura carnificina.
Se o imperialismo alemão anterior se baseava na austeridade, no mercantilismo de exportação, no congelamento de salários e na destruição do Estado-Providência, este se baseará na gestão de uma economia de guerra europeia hierarquizada nos diferenciais de taxas de juro para pagar a dívida contraída.
Os países já fortemente endividados (Itália, França, etc.) terão de encontrar alguém que compre os seus títulos emitidos para pagar a sua dívida, num “mercado” europeu cada vez mais competitivo. Os investidores estariam em melhor situação se comprassem bônus alemães, bônus emitidos por empresas de armamento, nas quais a especulação ascendente irá jogar, e títulos de dívida pública europeia, sem dúvida mais seguros e mais rentáveis do que os bônus de países superendividados.
O famoso “diferencial” (spread) continuará a desempenhar o seu papel como em 2011. Os milhares de milhões necessários para pagar os mercados não deixarão de estar à disposição dos Estados de Bem-Estar Social. O objetivo estratégico de todos os governos e oligarquias durante 50 anos, a destruição das despesas sociais para a reprodução do proletariado e a sua privatização, será alcançado.
Vinte e sete egoísmos nacionais lutarão entre si sem nada em jogo, porque a história, que “somos os únicos que sabemos o que é”, nos encurralou, inúteis e irrelevantes depois de séculos de colonialismo, guerras e genocídios.
A corrida armamentista é acompanhada por uma justificativa incoerente de que “estamos em guerra” contra o mundo inteiro (Rússia, China, Coreia do Norte, Irã, os Brics) que não pode ser abandonada e que corre o risco de se concretizar porque esta quantidade delirante de armas precisa ser “consumida”.
A lição de Rosa Luxemburgo, Kalecki, Baran e Sweezy
Somente os ingênuos podem ficar surpresos com o que está acontecendo. Tudo se repete, apenas dentro do capitalismo financeiro e não mais industrial como no século XX.
A guerra e as armas têm estado no centro da economia e da política desde que o capitalismo se tornou imperialista. E são também o centro do processo de reprodução do capital e dos trabalhadores, em atroz competição entre si.
Vamos reconstruir rapidamente o quadro teórico fornecido por Rosa Luxemburgo, Kalecki, Baran e Sweezy, firmemente fundamentado – em contraste com as inúteis teorias críticas contemporâneas –, sobre as categorias do imperialismo, do monopólio e da guerra, que nos oferece um espelho da situação contemporânea.
Comecemos pela crise de 1929, que teve as suas raízes na Primeira Guerra Mundial e na tentativa de sair dela ativando a despesa pública através da intervenção do Estado. Segundo Baran e Sweezy (doravante B&S), o inconveniente dos gastos públicos na década de 1930 era o seu volume, incapaz de neutralizar as forças depressivas da economia privada.
“Visto como uma operação de resgate para a economia estadunidense como um todo, o New Deal foi, portanto, um estrepitoso fracasso. Até mesmo Galbraith, o profeta da prosperidade sem compras de guerra, reconheceu que nas décadas de 1930-1940, ‘a grande crise’ nunca terminava”.
Só sairá com a Segunda Guerra Mundial: “Depois veio a guerra, e com a guerra a salvação (…) o gasto militar fez o que o gasto social não tinha conseguido”, porque o gasto público passou de 17,5 bilhões de dólares para 103,1 bilhões.
B&S demonstram que os gastos públicos não deram os resultados que os gastos militares deram porque foram limitados por um problema político que ainda é o nosso. Por que o New Deal e os seus gastos não conseguiram atingir um objetivo que “estava ao alcance da mão, como demonstrou mais tarde a guerra”?
Porque a luta de classes se desencadeia sobre a base da natureza e da composição dos gastos públicos, ou seja, sobre a reprodução do sistema e do proletariado.
“Dada a estrutura de poder do capitalismo monopolista estadunidense, o aumento dos gastos civis quase atingiu os seus limites extremos. As forças que se opunham a uma maior expansão eram poderosas demais para serem superadas”.
Os gastos sociais competiram ou prejudicaram as corporações e oligarquias, tirando-lhes o poder econômico e político.
“À medida que os interesses privados controlam o poder político, os limites dos gastos públicos são rigidamente definidos sem levar em conta as necessidades sociais, por mais embaraçosamente óbvios que possam ser”.
E estes limites se aplicavam também aos gastos, à saúde e à educação, que naquela época, ao contrário de hoje, não competiam diretamente com os interesses privados das oligarquias.
A corrida armamentista permite aumentar os gastos públicos do Estado sem que isso se transforme num aumento dos salários e do consumo dos trabalhadores.
Como se pode gastar o dinheiro público para evitar a depressão econômica que acompanha o monopólio, e evitar ao mesmo tempo o fortalecimento dos trabalhadores? “Com armas, com mais armas, com cada vez mais armas”.
Michael Kalecki, trabalhando sobre o mesmo período mas sobre a Alemanha nazista, consegue elucidar outros aspectos do problema.
Contra todo o economicismo que sempre ameaça a compreensão do capitalismo mesmo por parte das teorias críticas marxistas, destaca a natureza política do ciclo do capital: “A disciplina nas fábricas e a estabilidade política são mais importantes para os capitalistas do que os lucros correntes”.
O ciclo político do capital, que agora só pode ser garantido pela intervenção do Estado, deve recorrer ao gasto em armamentos e ao fascismo. Para Kalecki, o problema político também se manifesta na “direção e nas finalidades dos gastos públicos”. A aversão à “subvenção do consumo de massa” é motivada pela destruição que causa “dos fundamentos da ética capitalista do ‘ganharás o pão com o suor do teu rosto’ (a menos que vivas da renda do capital)”.
Como garantir que os gastos do Estado não se tornem um aumento do emprego, do consumo e dos salários e, portanto, em força política para os trabalhadores?
O inconveniente para as oligarquias é superado com o fascismo, porque a máquina estatal fica então sob o controle do grande capital e da direção fascista, com “a concentração dos gastos do Estado em armas”, enquanto “a disciplina da fábrica e a estabilidade política são garantidas pela dissolução dos sindicatos e os campos de concentração. A pressão política substitui a pressão econômica do desemprego”.
Daí o imenso sucesso dos nazistas entre a maioria dos liberais britânicos e estadunidenses.
A guerra e os gastos com armas ocupam um lugar central na política estadunidense, mesmo após o fim da Segunda Guerra Mundial, porque uma estrutura política é inconcebível sem um exército, ou seja, sem o monopólio do seu exercício.
A dimensão do aparelho militar de uma nação depende da sua posição na hierarquia global de exploração. “As nações mais importantes serão sempre aquelas que mais têm necessidades, e a magnitude das suas necessidades (de força armada) variará dependendo de haver ou não uma luta atroz entre elas pelo primeiro lugar”.
Portanto, o gasto militar continua a crescer no imperialismo: “Naturalmente, a maior parte da expansão da despesa pública aconteceu no setor militar, que subiu de menos de 1% para mais de 10% do PIB, e que foi responsável por cerca de dois terços do aumento total da despesa pública desde 1920. Esta massiva absorção do excedente nos preparativos militares tem sido o fato central da história estadunidense do pós-guerra”.
Kalecki salienta que em 1966 “mais da metade do crescimento da renda nacional traduziu-se no crescimento das despesas militares”.
Agora, no período pós-guerra, o capitalismo já não pode contar com o fascismo para controlar os gastos sociais. O economista polonês, “aluno” de Rosa Luxemburgo, salienta: “Uma das funções fundamentais do hitlerismo foi superar a aversão do grande capital à política anticíclica em grande escala. A grande burguesia tinha dado o seu consentimento ao abandono do laissez-faire e ao aumento radical do papel do Estado na economia nacional, com a condição de que o aparelho estatal estivesse sob o controle direto da sua aliança com a ‘direção fascista’ e que o destino e o conteúdo do gasto público fossem determinados pelo armamento”.
Nos Trinta Anos Gloriosos, sem que o fascismo garantisse a direção dos gastos públicos, os Estados e os capitalistas foram forçados a um compromisso político. Relações de poder determinadas pelo século de revoluções obrigam o Estado e os capitalistas a fazerem concessões que, em todo caso, são compatíveis com lucros que atingem taxas de crescimento até então desconhecidas.
Mas mesmo este compromisso é excessivo porque, apesar dos grandes lucros, “nesta situação os trabalhadores tornam-se ‘recalcitrantes’ e os ‘capitães da indústria’ estão ansiosos para ‘ensinar-lhes uma lição’”.
A contrarrevolução, implantada desde o final da década de 1960, terá no seu centro a destruição dos gastos sociais e a atroz vontade de direcionar os gastos públicos para os interesses únicos e exclusivos das oligarquias.
O problema, a começar pela República de Weimar, nunca foi uma intervenção genérica do Estado na economia, mas o fato de o Estado ter sido investido pela luta de classes e ter sido obrigado a ceder às exigências das lutas operárias e proletárias.
Nos tempos “pacíficos” da Guerra Fria, sem a ajuda do fascismo, a explosão dos gastos militares precisa de uma legitimação, assegurada por uma propaganda capaz de evocar continuamente a ameaça de uma guerra iminente, de um inimigo às portas pronto para destruir os valores ocidentais: “Os criadores não oficiais e oficiais da opinião pública estão com a resposta na ponta da língua: os Estados Unidos devem defender o mundo livre da ameaça da agressão soviética (ou chinesa)”.
Kalecki, para o mesmo período em questão, especifica: “Os jornais, o cinema, o rádio e a televisão que funcionam sob a égide da classe dominante criam uma atmosfera que favorece a militarização da economia”.
Os gastos com armas não têm apenas uma função econômica, mas também de produção de subjetividades obedientes. A guerra, ao exaltar a subordinação e o comando, “contribui para a criação de uma mentalidade conservadora”.
“Enquanto o massivo gasto público na educação e na segurança social tende a minar a posição privilegiada da oligarquia, o gasto militar faz o contrário. A militarização favorece todas as forças reacionárias (...) determina-se um respeito cego à autoridade; ensina-se e se impõe o comportamento de conformidade e submissão; e a opinião contrária é considerada um ato antipatriótico ou diretamente uma traição”.
O capitalismo produz um capitalista que, precisamente devido à forma política do seu ciclo, é um semeador de morte e destruição, em vez de um promotor do progresso.
Richard B. Russell, um senador conservador do sul dos EUA na década de 1960, citado por B&S, nos diz: “Há algo nos preparativos para a destruição que induz os homens a gastar o dinheiro de forma mais descuidada do que se fosse para fins construtivos. Não sei por que isso acontece; mas durante os 30 anos que estou no Senado, mais ou menos, compreendi que ao comprar armas para matar, destruir, varrer cidades da face da terra e eliminar grandes sistemas de transporte, há algo que faz com que os homens não calculem os gastos com o próprio cuidado do que quando se pensa em moradia digna e na assistência à saúde dos humanos”.
A reprodução do capital e do proletariado foi politizada com as revoluções do século XX. A luta de classes, ocupando também esta realidade, fez emergir uma oposição radical entre a reprodução da vida e a reprodução da sua destruição, que desde a década de 1930 só se aprofundou.
A guerra e as armas, praticamente excluídas de todas as teorias críticas do capitalismo, funcionam como discriminadores na análise do capital e do Estado. É muito difícil definir o capitalismo como um “modo de produção”, como fez Marx, porque a economia, a guerra, a política, o Estado e a tecnologia são elementos intimamente interligados e inseparáveis.
A “crítica da economia” não é suficiente para produzir uma teoria revolucionária. Com o advento do imperialismo ocorreu uma mudança radical no funcionamento do capitalismo e do Estado, claramente revelada por Rosa Luxemburgo para quem a acumulação tem dois aspectos.
O primeiro “refere-se à produção de mais-valia – na fábrica, na mina, na exploração agrícola – e à circulação de mercadorias no mercado. Considerada deste ponto de vista, a acumulação é um processo econômico cuja fase mais importante é uma transação entre o capitalista e o trabalhador”.
O segundo aspecto tem o mundo inteiro como teatro, uma dimensão mundial irredutível ao conceito de “mercado” e às suas leis econômicas. “Aqui os métodos utilizados são a política colonial, o sistema internacional de crédito, a política das esferas de interesse, a guerra. A violência, o engano, a opressão, a predação desenvolvem-se abertamente, sem máscara, e é difícil reconhecer as leis estritas do processo econômico no entrelaçamento da violência econômica e da brutalidade política”.
A guerra não é uma continuação da política, mas sempre coexiste com ela, como mostra o funcionamento do mercado mundial. Aqui, onde a guerra, a fraude e a predação coexistem com a economia, a lei do valor nunca funcionou realmente. O mercado mundial parece muito diferente daquele esboçado por Marx. Suas considerações não parecem mais válidas, ou melhor, são precisadas: somente no mercado mundial o dinheiro e o trabalho se adequariam ao seu conceito, tornando realidade sua abstração e universalidade.
Pelo contrário, o que podemos constatar é que o dinheiro, a forma mais abstrata e universal do capital, é sempre a moeda de um Estado. O dólar é a moeda dos Estados Unidos e reina apenas como tal.
A abstração do dinheiro e a sua universalidade (e os seus automatismos) são apropriadas por uma “força subjetiva” e são geridas segundo uma estratégia que não está contida no dinheiro.
Mesmo as finanças, assim como a tecnologia, parecem ser objeto de apropriação por forças subjetivas “nacionais”, que são muito pouco universais.
No mercado mundial, nem mesmo o trabalho abstrato triunfa como tal, mas encontrando em seu lugar outros trabalhos radicalmente diversos (trabalho servil, trabalho escravo, etc.) e é objeto de estratégias.
A ação de Trump – tendo removido o véu hipócrita do capitalismo democrático –, revela-nos o segredo da economia: ela só pode funcionar através de uma divisão internacional da produção e reprodução definida e imposta politicamente, isto é, através do uso da força, o que também implica a guerra.
A vontade de explorar e dominar, gerindo simultaneamente as relações políticas, econômicas e militares, constrói uma totalidade que nunca pode se fechar sobre si mesma, mas permanece sempre aberta, dividida por conflitos, guerras, predações. Nesta totalidade cindida, todas as relações de poder convergem e são governadas.
Trump intervém no uso das palavras, mas também nas teorias de gênero, ao mesmo tempo que quer impor um novo posicionamento global, político e econômico dos Estados Unidos.
Do micro ao macro, ação política que os movimentos contemporâneos estão longe somente de pensar.
A construção da bolha financeira, processo que podemos acompanhar passo a passo, ocorre da mesma forma. Os atores envolvidos na sua produção são múltiplos: a União Europeia, os Estados que devem se endividar, o Banco Europeu, o Banco Europeu de Investimento, os partidos políticos, os meios de comunicação social e a opinião pública, os grandes fundos de investimento (todos estadunidenses) que organizam a transferência de capitais de uma Bolsa para outra, e as grandes empresas.
Só depois de o choque/cooperação entre estes centros de poder ter dado o seu veredicto é que a bolha econômica e os seus automatismos poderão funcionar.
Existe toda uma ideologia sobre o funcionamento automático que deve ser refutada. O “piloto automático”, especialmente a nível financeiro, só existe e funciona depois de ter sido instituído politicamente. Não existia nos Trinta Anos Gloriosos porque foi politicamente decidido nesse sentido. Tem funcionado desde o final da década de 1970 por vontade política explícita.
Esta multiplicidade de atores que há meses se agitam é mantida unida por uma estratégia. Há, portanto, um elemento subjetivo que intervém de forma fundamental. Na verdade, dois. Do ponto de vista capitalista, há uma luta acirrada entre o “fator subjetivo” Trump e o “fator subjetivo” das elites que foram derrotadas nas eleições presidenciais, mas que ainda têm forte presença nos centros de poder nos EUA e na Europa.
Mas para que o capitalismo funcione devemos também levar em consideração um fator proletário subjetivo.
Isto desempenha um papel decisivo porque ou se tornará o portador passivo do novo processo de produção/reprodução do capital, ou tenderá a rejeitá-lo e destruí-lo. Tendo confirmada a incapacidade do proletariado contemporâneo, o mais fraco, o mais desorientado, o menos autônomo e independente da história do capitalismo, a primeira opção parece a mais provável.
Mas se não conseguir opor a sua própria estratégia às contínuas inovações estratégicas do inimigo, capazes de se renovarem continuamente, cairemos numa assimetria de relações de poder que nos levará de volta a antes da Revolução Francesa, a um novo/já visto “Antigo Regime”.
Notas
Apocalipse
Quem sabe afirma que a palavra “apocalipse” – no grego cristão antigo – evoca uma revelação. É o significado usado no texto. Para este modesto editor, o significado conhecido é o da RAE, ou seja, fim do mundo, uma situação catastrófica, causada por agentes naturais ou humanos, que evoca a imagem da destruição total.
Capital financeiro
O capital financeiro é muitas vezes uma miragem, assim como o dinheiro que supostamente o constitui. Desde a eleição de Trump, a “riqueza” de meia dúzia de oligarcas (Musk, Bezos, Zuckerberg...) aumentou vários centenas de milhares de milhões de dólares (sem ter sido criado um cêntimo de valor agregado...), para depois desaparecer tão rapidamente como chegou (sem ter sido destruído um cêntimo de valor...). O autor da nota refere-se a esse fantasma moderno que, por sua vez, percorre o mundo. O capital financeiro é, de fato, uma arma de destruição em massa na medida em que muitos líderes contemporâneos e os países que governam são sensíveis às miragens...
Dívida pública
Ou dívida soberana. Vem do direito de cada Estado emitir dinheiro sem contrapartida real. O dólar é a moeda de todos os recordes e da mais gigantesca irresponsabilidade monetária desde que Richard Nixon decidiu abandonar o padrão ouro (15-08-1971). A partir daí os EUA emitiram dólares sem limites e sem respaldo, exportando inflação para todo o planeta. Essa é a chamada “liquidez” que nada mais é do que um “passe de mágica”. Emitir dinheiro sem lastro significa aumentar a quantidade de dinheiro em circulação sem aumentar a quantidade de bens e serviços disponíveis na economia. Os EUA pagam com papeizinhos verdes que não valem a tinta com que foram impressos. A dívida pública ianque ultrapassa os 120% do PIB dos EUA. E está crescendo… Expressar o “valor” de uma empresa em dólares falsos (monnaie de singe), é uma forma (outra forma) de fraude.
Gastos militares
O autor se enrosca nas verdes malhas da camuflagem. É preciso lembrar que a OTAN gasta 55% do que o mundo gasta em instrumentos de destruição. A Rússia gasta 5% desse montante. Em 2024, os gastos militares da União Europeia, mais o Reino Unido, atingiram 457 bilhões de dólares. Os gastos militares russos foram estimados em 462 bilhões de dólares (de acordo com o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, cuja confiabilidade é próxima da das previsões meteorológicas). Para equilibrar as coisas, a UE pretende gastar mais 850 bilhões de euros (ou 914 bilhões de dólares). Os EUA, sozinhos, gastam esse montante todos os anos.
Financiamento do rearmamento
Até anteontem, na UE não havia dinheiro para financiar a saúde (somente na França foram suprimidos 48 mil leitos hospitalares), nem para financiar a educação (milhares de turmas não têm todos os seus professores e os seus salários são miseráveis). E eis que em 48 horas a UE encontrou 850 bilhões de euros para financiar a compra de armas. Digam o que disserem, o modelo social pagará pelo feno que o burro vai comer.
Consequências do rearmamento
Gastar colossais 850 bilhões de euros em armas irá gerar empregos bem remunerados e colaboração por parte dos trabalhadores (bem como lucros extraordinários para o grande capital). A indústria armamentista tem um detalhe: para crescer precisa que seja consumido o que já foi produzido, ou seja... uma guerra o mais destrutiva possível. Nesse sentido, trata-se da pior corrupção em extensão, volume e profundidade. A propaganda que deve convencer os europeus da necessidade da guerra já está entre nós, dia e noite… Heil!