04 Abril 2025
“A velocidade em que a democracia estadunidense está sendo desmantelada é vertiginosa, mas se organizarmos a resistência agora, podemos frear isto”, afirma Julia Steinberger, pesquisadora e professora de Economia Ecológica na Universidade de Lausanne, em artigo publicado por The Guardian, 02-04-2025. A tradução é do Cepat.
Tudo está se movendo muito rápido. A administração Trump-Musk está executando um desmonte do estado estadunidense, das universidades e das organizações de saúde, demitindo dezenas de milhares de empregados e eliminando bilhões em fundos humanitários. O propósito e a velocidade destes ataques são vertiginosos. É quase impossível acompanhar a destruição em curso, muito menos organizar a resistência. Nada disso é acidental.
Nós precisamos compreender as origens deste “ataque relâmpago” de Trump para combatê-lo nos Estados Unidos e prevenir para que não se espalhe pelo mundo. A velocidade deste ataque pode ser de responsabilidade do estrategista e “aceleracionista” de Trump, Steve Bannon, que se alinha com sua tática de guerra da informação, chamada “zona de inundação”, utilizada para confundir, causar desorientação e abandono da participação social.
Seja sobre temas como a crise climática ou a COVID-19, rumores, mentiras e teorias da conspiração são criados para gerar uma cacofonia caótica, deixando o público desorientado, amedrontado e à mercê de uma simplificação excessiva de temas complexos. A mensagem de Trump é: Culpe a cultura da inclusão, imigrantes, pessoas trans, muçulmanos, doutores, cientistas. Neste sentido, a compra do Twitter/X por Musk, apoia a agenda de Bannon.
O que estamos vendo é a junção de duas grandes forças políticas em torno de Trump: A Heritage Foundation – think tank que impulsiona iniciativas conservadoras financiada pela indústria do petróleo – e o ramo da tecnologia. O antigo autor do ‘Projeto 2025’, um plano para o primeiro ano da administração de Trump, é de Curtis Yarvin - teórico favorito do bilionário e dono do Paypal, Peter Thiel – que expressa o desejo de “reiniciar” o país inteiro, substituindo o modelo de democracia supostamente ultrapassado por algo bem menos ligado à uma noção de responsabilidade social e mais favorável aos interesses do mercado. Juntos, estes setores da indústria, de tecnologia e combustíveis fósseis investiram centenas de milhões na campanha de Trump.
Até agora, regulamentações estão sendo eliminadas, a criptomoeda poderá circular contornando a supervisão democrática, orçamentos estão sendo cortados para permitir que Musk redirecione recursos para contratos das suas empresas, SpaceX e Starlink, além de funcionários do governo que estão sendo substituídos por ferramentas de inteligência artificial.
Muitos setores do mercado estão sentindo a mudança dos ventos e deixado de se preocupar com compromissos ambientais, assim abandonam qualquer pretensão de responsabilidade com a manutenção de um planeta habitável. As implicações climáticas e ecológicas desta mudança são tão desastrosas quanto deliberadas. Precisamos dar um nome apropriado a esta nova era de aliança entre a indústria de combustíveis fósseis e de tecnologia que acelera os ataques contra a democracia e o planeta: Capitalismo Cataclísmico.
O capitalismo de cataclismo é o verdadeiro herdeiro do neoliberalismo e do seu capitalismo de desastre. Como Naomi Klein descreveu em seu livro A doutrina do choque, a ideologia neoliberal aproveitou as vantagens das crises econômicas para destruir regulamentações e privatizar serviços públicos, fragilizar sindicatos de trabalhadores e organizações da sociedade civil, criando as condições ideais para a acumulação de riqueza privada, desastrosas para as políticas de promoção da igualdade, do trabalho digno e bem-estar.
O capitalismo cataclísmico faz tudo isso e vai além. O ritmo da mudança tem se acelerado, o desmantelamento das instituições públicas tem sido total e o ataque à democracia se tornado mais evidente. Talvez o aspecto mais preocupante é que as indústrias tem desafiado o perigo de destruição social e planetária, fazendo o nítido cálculo: eles não precisam de uma economia próspera para lucrar. Até o momento, o neoliberalismo afirmava que servia ao interesse do bem comum através da competição de mercado, já o capitalismo cataclísmico dispensa todas estas ilusões.
As companhias de combustíveis fósseis, os magnatas da tecnologia de extrema-direita e as companhias financeiras se convenceram rapidamente de que não precisam de uma economia próspera para progredirem. Aprenderam que podem lucrar através da ruptura e da destruição. Sabem pelas experiências das crises econômicas que pessoas empobrecidas são capazes de suportar condições de trabalho exploratórias e se endividar profundamente para manter a si mesmas e suas famílias vivas.
Paradoxalmente, a criação desta vasta insegurança econômica favorece a política de extrema-direita. Os eleitores ficam em um estado constante de medo e estresse. Sem uma compreensão objetiva deste sistema que cria dificuldades, tornam-se presas fáceis da retórica da extrema-direita que culpa imigrantes, a cultura de inclusão e pessoas trans. Infelizmente, desde quando a ideologia neoliberal devorou os partidos de centro-esquerda (o Partido Trabalhista, na Inglaterra, e os Democratas, nos Estados Unidos), ficamos com pouquíssimas organizações de oposição, restando apenas um canal para a aceleração do desastre.
O cenário é sombrio. Estamos diante de uma tomada hostil e organizada da democracia, associada ao desmantelamento da economia, em favor de setores da indústria, especialmente a dos combustíveis fósseis e de tecnologia, em detrimento de nós mesmas e em detrimento da vida na terra. O que podemos fazer? Proponho um plano de três pontos - curto e sistemático –, suficientes para começarmos.
Primeiro, conhecimento é poder. Precisamos apresentar mais sobre os devoradores do nosso mundo, dos think tanks da indústria de combustíveis fósseis aos aceleracionistas da extrema-direita. Precisamos explicar aos nossos cidadãos quem de fato estamos enfrentando e qual o seu plano, substituindo o medo impotente pela raiva consciente.
Segundo, precisamos nos organizar, nos juntar em sindicatos, em grupos de bairro ou em qualquer organização coletiva que pudermos, pois, neste ponto, fomos todos criados em uma cultura neoliberal do individualismo e do isolamento. Organizarmo-nos parece estranho e difícil, no entanto, a dificuldade que temos em nos organizar é essencial para a manutenção do capitalismo de desastre
Somos uma espécie com comportamento excecionalmente cooperativo, na realidade, todos nós temos essa capacidade inata, literalmente. Como animais sociais, nascemos para nos organizar. Desde as formas mais básicas, organizar-se consiste em aglutinar pessoas promovendo a consciência das causas de nossos problemas em comum, discutindo possíveis ações e colocando-as em prática. Para deixar claro: precisamos tornar a cooperação uma prática que seja parte de nossas vidas, do nosso trabalho e de nossas afinidades.
Terceiro, precisamos responder ao projeto de Trump-Musk no nível estratégico, não apenas golpe a golpe. Sabemos que não podemos esperar nada deles além de destruição e corrupção. Precisamos pôr à frente uma visão positiva de que vale a pena lutar. Com base em minha pesquisa, descreveria isto como uma tomada de decisão democrática cientificamente informada, para o bem comum. Isto também significa criar nossas próprias organizações para a ajuda humanitária e a proteção de pessoas em situações de vulnerabilidade. Nós temos tudo a perder se não agirmos, e tudo a ganhar se agirmos.