27 Março 2025
"Como podemos bem imaginar, no centro do debate não estará o passado, mas o presente. Não o negacionismo do Holocausto, exceto em suas expressões presentes nos países árabes, mas o suposto antissemitismo da esquerda ou aquele da ONU e das organizações internacionais de justiça", escreve Anna Foa, historiadora, escritora, intelectual da religião judaica, em artigo publicado por La Stampa, 25-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
A Conferência Internacional sobre a luta contra o antissemitismo, promovida pelo Ministério israelense da Diáspora, que será realizada em Jerusalém nos dias 26 e 27 de março, é indicativa de uma certa confusão entre a luta contra o antissemitismo e a luta pelo antissemitismo. De fato, convidados para a conferência, foram todos os expoentes mais destacados da extrema-direita europeia, os netos e herdeiros daqueles que, há mais de oitenta anos, colaboraram com os nazistas para enviar judeus para campos de extermínio, aqueles que até muito recentemente se expressaram em relação aos judeus em termos inequivocamente antissemitas. E, embora seja verdade que nas últimas décadas muitos deles tenham se declarado “amigos de Israel”, também é verdade que isso nunca significou automaticamente ser amigo dos judeus.
A extrema-direita europeia e, com ela, os evangélicos dos Estados Unidos, aproximaram-se do Israel dos últimos anos, liderado por governos racistas e antidemocráticos, como o último governo de Netanyahu, na onda de empatia política e ideológica que os une, assim como política e ideológica é a aproximação do governo israelense com aqueles políticos que hoje se preparam para ir discutir o antissemitismo com Netanyahu, Ben Gvir e outros políticos israelenses. Como podemos bem imaginar, no centro do debate não estará o passado, mas o presente. Não o negacionismo do Holocausto, exceto em suas expressões presentes nos países árabes, mas o suposto antissemitismo da esquerda ou aquele da ONU e das organizações internacionais de justiça. Esses serão os objetivos polêmicos da conferência, já antecipados pelo discurso em que Netanyahu definiu a ONU em seu discurso na Assembleia Geral em setembro de 2024 como um “pântano de antissemitismo”.
Entre os participantes da conferência, representando partidos de extrema-direita, estarão os principais políticos do partido húngaro Fidesz de Orbán, do Vox da Espanha, do Reagrupamento Nacional (RN) e Identity-Liberties da França, do Partido pela Liberdade da Holanda e do Democratas Suecos de extrema-direita da Suécia.
No entanto, o fato de as principais figuras da extrema-direita europeia tomarem assento em tal assembleia criou não poucos embaraços para o mundo judaico tanto europeu quanto estadunidense. Rabinos importantes e figuras de destaque das instituições judaicas europeias e estadunidenses, por esse motivo declinaram o convite. Vários intelectuais judeus fizeram o mesmo, inclusive Bernard-Henry Lévy, que explicou sua recusa em um editorial recente no La Stampa.
As Instituições comunitárias judaicas europeias não participarão da conferência, mas sem assumir uma posição aberta contra esse paradoxo de uma conferência que, para combater o antissemitismo, reúne os representantes mais extremistas do soberanismo e do populismo europeus. No entanto, teríamos gostado que seu dissenso fosse tornado público. Que a diáspora europeia, herdeira dos milhões que morreram do Holocausto, protestasse abertamente a sua oposição. É verdade que se expressar sobre esse problema comportaria a consequência de ter que rever muitos dos alinhamentos, tácitos ou explícitos, do mundo da diáspora com o governo de Netanyahu. De fato, o problema não é marginal.
Não estamos diante de um equívoco ou da necessidade de Israel de ampliar a esfera de seus apoiadores.
A extrema-direita europeia (e dos EUA) já apoiava e apoia Israel com todas as suas forças.
Estamos diante de algo que se assemelha muito com uma nova virada das direitas israelenses: o obscurecimento da própria memória do Holocausto, exceto para exumá-la quando necessário para fins de propaganda, a criação de uma aliança de extrema-direita firmemente ancorada em princípios e posições comuns: em suma, a rejeição da democracia e o racismo avançando e se abrigando até mesmo sob a conveniente bandeira do antissemitismo.