Francisco e Ratzinger. Os “dois” papas e a crise de autoridade na Igreja

Bento XVI e Francisco no último consistório de 2019 | Foto: Vatican News

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21 Janeiro 2020

"Assim, a guerra sem fim tritura suas vítimas e pode continuar. Se os combatentes se perdem pelo caminho e são sacrificados, no entanto, o general permanece, Bento desavisado e cuja intenção certamente não é contrastar Francisco ou servir de peão para a anti-Igreja. Quem duvida disso demonstra desconhecer toda a produção teológica de Joseph Ratzinger, assim como sua concepção do Pontificado", escreve Massimo Borghesi, filósofo, professor de Filosofia Moral na Universidade de Perugia, Itália, e autor do livro Jorge Mario Bergoglio. Una biografia intelettuale. Dialettica e mistica (Jaca Book 2017; tradução brasileira: Jorge Mario Bergoglio. Uma biografia intelectual. Petrópolis, Vozes, 2018), em artigo publicado por IlSussidiario.net, 19-01-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O eco mundial causado pelas notícias da publicação, pela Fayard, do livro a quatro mãos "Des profondeurs des nos coeurs" (Do fundo de nossos corações, em tradução livre), do Papa emérito e do Cardeal Sarah, não depende apenas de seu conteúdo - a confirmação do celibato dos padres como condição obrigatória para o sacerdócio – quanto do uso midiático que a parte eclesial em oposição ao papa Francisco presume tirar disso. Há anos que essa parte tenta usar de todas as formas a figura de Bento XVI para contrapô-la com o Papa reinante. Seu sonho é dividir a Igreja em nível mundial, para que possa deslegitimar Francisco e obrigá-lo a renunciar. Em sua sanha, não se importa com a tragédia, com desorientação e com o escândalo. Semeia divisão, suspeitas, acusações de heresia.

Uma patologia religiosa percorre a Igreja e as vítimas são, principalmente, os simples fiéis que, muitas vezes desavisados, são envolvidos nas tramas obscuras dos potentados que movem as massas por trás de motivos de aparente zelo religioso. A direita mundial não gosta do papa "argentino", latino-americano. Considera-o, no campo social, muito inclinado à esquerda, não funcional, portanto, aos arranjos de poder que estão mudando, sensivelmente, a realidade atual.

Para deslegitimar um Papa, no entanto, não basta atacá-lo no terreno políticos. É preciso insinuar a dúvida naquele religioso, e é aí que entram em jogo as diatribes teológicos, os grupos de pressão, os ativistas da mídia que obsessivamente levantam acusações de heresia. Um Papa avançado socialmente só pode ser progressivo-modernista no terreno doutrinal. É assim que se cria a lenda: o Papa bonzinho é uma criatura de Soros, do "Dono do mundo" vaticinado por Robert Hugh Benson, cujo objetivo oculto é a dissolução da Igreja por dentro.

Delírios apocalípticas e profecias místicas se confundem em um imaginário para o qual a Igreja e o mundo estão caminhando para o fim. O apocalíptico é a outra face de um mundo sombrio que exige, de forma prepotente, ordem e segurança e permanece desorientado e zangado diante de um papa que pede para derrubar os bastiões e não ter medo. Assim a anti-Igreja que se move contra Bergoglio busca, sem descanso, líderes que, tanto no terreno político quanto no eclesial, possam assumir o papel do anti-Francisco. De Trump a Putin, de Orbán a Salvini, aos cardeais Burke, Müller, Sarah e ao bispo Viganò, tudo é uma tentativa de continuar deslegitimando da obra do Pontífice. A tal ponto que o pontificado de Bergoglio parecerá aos futuros historiadores pontilhado por uma série ininterrupta de etapas de remoção.

Essa estratégia de desgaste não teria o poder que possui se, nesses anos, não tivesse tentado de toda maneira envolver, em vão, a figura de Bento XVI. Para uma parte do catolicismo conservador, a grande renúncia do papa Ratzinger foi um gesto "revolucionário" e imperdoável. "Da cruz não se desce": como disse de maneira violenta o cardeal de Cracóvia Stanisław Dziwisz. Aquele mundo nunca perdoou Bento por sua escolha.

Nem tudo, no entanto. Parte dele confiou e confia que o Papa emérito, ao sair do silêncio ou agir nos bastidores, possa criar obstáculos à deriva "modernista" do Papa "oficial". É nesse contexto que a decisão de Ratzinger de participar do livro da Fayard, juntamente com o cardeal Sarah notoriamente não exatamente em sintonia com Francisco, assume um significado peculiar. Certamente não nas intenções de Bento, que escreveu expressamente que ele se reporta inteiramente à autoridade de seu sucessor, mas nos fatos. Nem a comunicação de Mons. Georg Gänswein, secretário do Papa emérito, segundo o qual não houve um entendimento editorial perfeito entre Bento e o cardeal, e o titular do livro Des profondeurs des nos coeurs só poderia ser Sarah, valeu para esclarecer e mitigar as discussões.

No entanto, estragou os planos e obteve como resultado atrair sobre Mons. Gänswein a ira daqueles que, até o dia anterior, o elogiavam como pedra angular de sua estratégia. Como mons. Viganò trovejou das colunas do jornal da direita política La Verità: "O padre Georg isolou o Pontífice emérito" (16 de janeiro de 20). Os anti-Francisco não têm escrúpulos: quando os peões não são mais necessários, devem ser substituídos. Para Viganò: “É hora de revelar o controle exercido de forma abusiva e sistemática pelo monsenhor Georg Gänswein contra o Sumo Pontífice Bento XVI desde o início de seu pontificado. Gänswein filtrava rotineiramente as informações, arvorando-se o direito de julgar por si próprio o quanto fosse apropriado ou não deixar chegar ao Santo Padre".

Assim, a guerra sem fim tritura suas vítimas e pode continuar. Se os combatentes se perdem pelo caminho e são sacrificados, no entanto, o general permanece, Bento desavisado e cuja intenção certamente não é contrastar Francisco ou servir de peão para a anti-Igreja. Quem duvida disso demonstra desconhecer toda a produção teológica de Joseph Ratzinger, assim como sua concepção do Pontificado. Aqueles que recitam, como em uma jaculatória, "Bento XVI é nosso Papa" demonstram uma concepção eclesial que Bento XVI absolutamente abomina. Uma concepção fora da "Católica". Seus atestados de fidelidade e de obediência ao Papa Francisco não podem ser questionados por nenhum livro de ficção-teológica que tanto apaixona os apocalípticos do sétimo dia.

Dito isto, permanece o fato de que a decisão de Ratzinger de participar da iniciativa editorial do cardeal Sarah permanece questionável, para além de boas intenções. Questionável, não porque ele não tenha o direito de falar ou publicar, mas pelo título que, no momento da abdicação, decidiu conservar: o de papa "emérito".

Um título que não tem precedentes em toda a história da Igreja e sobre cuja validade eminentes estudiosos, como o jesuíta Gianfranco Girlanda em sua "Cessação do ofício de romano pontífice" (La Civiltà Cattolica, 02 de março de 2013), levantaram sérias dúvidas.

É esse título, que o direito canônico não sabe como regulamentar, que oferece o espaço pra a ficção-teológica e para as manobras palacianas. Se, de fato, o cardeal Ratzinger tivesse tratado do celibato dos padres, um tema tratado pelo Sínodo dos Bispos sobre o qual o atual Papa ainda deve se pronunciar, seu discurso, mesmo com toda a sua autoridade, não teria criado o problema que estamos discutindo. A querela esquenta quando é apresentada como a disputa entre "dois papas". É nessa suposta dialética, entre o emérito e o governante, que se insere a vertente anti-Francisco, reivindicando sua força e legitimidade. Estamos, portanto, diante de um impasse que marca o momento presente, dramático, da Igreja.

Se Ratzinger quer ser coerente com o compromisso que assumiu ao decidir manter o nome de Bento XVI, Papa emérito, então deveria observar a regra do silêncio nos assuntos que são objeto de discussão pelos bispos e Papa. Ele só poderia intervir se sua palavra resultasse de apoio à ação papal. Onde ainda há margem para dúvidas, suas observações, de autoridade e preciosas, deveriam ser oferecidas, de forma pessoal e direta, ao Papa ao qual cabe jugar sobre sua utilidade ou não. Caso contrário, a possibilidade de expressar publicamente sua opinião sobre questões delicadas para a Igreja implica o abandono do hábito branco e do nome de papa emérito.

Somos, portanto, confrontados com uma opção que provavelmente não teria razão de ser na medida em que a cordialidade e estima que liga os dois pontífices, passado e presente, são únicas em toda a história da Igreja. Francisco acolheu as decisões de Bento XVI sem levantar objeções. Os dois trazem acentos distintos, escolhas diferentes, mas estão unidos pelo mesmo amor pela Igreja, a Igreja do Concílio, de uma perspectiva missionária igual. Por esse motivo, Bento XVI também não é do agrado de muitos tradicionalistas. Se o problema da comunicação surge hoje para as publicações de Ratzinger, não é pelos dois protagonistas diretos, mas por causa da oposição militante de uma parte, minoritária, da Igreja que tenta, todas as vezes, manipular as palavras do Papa emérito para desacreditar a autoridade do Pontífice. Daí a necessária discrição exigida de Ratzinger.

Discrição que, em condições normais, não seria necessária.

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