07 Janeiro 2025
Entra em Rebibbia empurrado em sua cadeira de rodas, de cada lado olhares brilhantes de emoção, e Francisco olha ao redor absorto, “por que eles e não eu?”. Ele se pergunta isso toda vez que entra em uma prisão, e voltou a pensar nisso ontem de manhã, contou depois, “porque cada um de nós pode escorregar, mas o importante é não perder a esperança, agarrar-se à esperança como à corda de uma âncora, escancarar os corações”. Nunca havia acontecido de um Papa abrir uma Porta Santa na prisão. É um gesto antigo, a primeira Porta Santa foi aberta por Martinho V em São João de Latrão em 1423, na noite de Natal de 1499 foi Alexandre VI quem a abriu pela primeira vez na basílica do Vaticano, até 1983 se derrubava uma parede de tijolos. Agora é tudo como sempre e, ao mesmo tempo, diferente: “Abri a primeira em São Pedro e a segunda nesta basílica, porque hoje a prisão se tornou, entre aspas, uma basílica”.
A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada por Corriere della Sera, 27-12-2024. A tradução de Luisa Rabolini.
Da última vez, Francisco abriu a Porta Santa em 2015, para o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, e poucos passos atrás dele estava Bento XVI. Este ano, na noite de véspera de Natal, sozinho, ele ficou sentado rezando em silêncio, bateu à porta e entrou na basílica do Vaticano em uma cadeira de rodas: “Vamos cruzar a soleira deste templo sagrado e entrar no tempo da misericórdia e do perdão”. Em frente ao portal de bronze da pequena igreja de tijolos no centro da prisão romana, no entanto, o Papa se levantou um pouco com dificuldade, bateu à porta e cruzou a soleira de pé. Todos os dias eu rezo por vocês, e essas não são apenas palavras, eu penso e rezo por vocês”, murmura, e realmente não são apenas palavras.
Desde o início de seu pontificado, aos jovens na Jornada Mundial da Juventude no Brasil, em 2013, que lhe perguntaram o que fazer com suas vidas, Francisco lembrou o essencial do Evangelho: “Leiam as bem-aventuranças e o capítulo 25 de Mateus, lá está tudo”. O capítulo 25 de Mateus é aquele em que Jesus fala do Juízo Final e da atitude que, naquele dia, distinguirá os justos dos condenados: “Eu estava na prisão e vocês vieram me visitar”, diz Jesus. É por isso que, na Bula de Indicação do Ano Santo, o Papa chamou a atenção para os detentos: “Proponho aos governos que, no ano do Jubileu, tomem iniciativas que restaurem a esperança; formas de anistia ou indulto de sentenças que visem a ajudar as pessoas a recuperar a confiança em si mesmas e na sociedade; caminhos de reintegração na comunidade que sejam acompanhados por um empenho concreto com a observância das leis”.
Algo no mundo está mudando. Nos Estados Unidos, antes de deixar a Casa Branca, Joe Biden comutou as sentenças de morte de 37 prisioneiros para prisão perpétua. Na igreja de Rebibbia, o Ministro da Justiça, Carlo Nordio, também estava presente e, quando perguntaram ao Papa se ele havia falado com ele sobre indultos, ele balançou a cabeça, isso não. “No entanto, falei com os detentos”, acrescenta, “e é muito importante estar aqui. Porque devemos pensar que muitos deles não são peixes grandes, os peixes grandes têm a astúcia de ficar do lado de fora. Devemos acompanhar os detentos: Jesus diz que, no dia do julgamento, seremos julgados por isso”.
O Jubileu de 2025 é dedicado à esperança, e a Porta Santa na prisão está destinada a se tornar um seu símbolo. No altar, celebram Benoni Ambarus, bispo auxiliar de Roma para a caridade, e Don Marco Fibbi, capelão de Rebibbia. Há trezentas pessoas dentro e o mesmo número fora da igreja. Autoridades, guardas, e principalmente detentos e detentas. O Papa também saúda “aqueles que não puderam vir e permaneceram em suas celas”, e é a todos os prisioneiros que ele se dirige, em primeiro lugar, uma homilia de improviso: “Lembrem-se: agarrem-se à corda da esperança, nunca a larguem. E abram bem o seu coração. A graça de um Jubileu é escancarar, abrir, sobretudo, abrir os corações à esperança. Pensem nisso, eu também devo pensar nisso, porque nos momentos ruins pensamos que tudo acabou, que nada se resolve. Mas a esperança nunca decepciona”.
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