08 Novembro 2024
Em entrevista, Rubens Ricupero avalia que volta de Trump terá consequências mais negativas para a Europa do que o Brasil. Ex-ministro, porém, aponta que protecionismo do republicano pode impactar exportações brasileiras.
A entrevista é de Nilson Brandão, publicada por DW Brasil, 07-11-2024.
Os desdobramentos da eleição de Donald Trump à presidência americana serão mais intensos e com consequências mais negativas para blocos como a União Europeia do que para países como o Brasil. Essa é a avaliação de Rubens Ricupero, ex-subsecretário-geral da ONU e ex-ministro do Meio Ambiente e da Fazenda.
"Ou assumem de fato, não de boca, a necessidade de ter uma política externa e de defesa comum efetiva, botando a mão no bolso para gastar em defesa, tornando-se menos dependentes do ‘guarda-chuva' de proteção dos americanos, ou vão ter de ceder frente aos russos na Ucrânia", disse o diplomata sobre as potenciais consequências para UE, em entrevista exclusiva à DW.
O diplomata também apontou que Trump, em seu caminho para vitória, captou com "intuição certeira" o descontentamento principalmente da população branca, mais pobre, menos instruída e menos qualificada dos EUA.
"As lideranças mundiais não foram capazes de superar a profunda insatisfação com o sistema político-econômico-social, a perda da esperança para os setores populares e intermediários, a absurda concentração da riqueza e da renda. Trump tampouco será capaz de fazer isso, mas ele parece ao menos encarnar a insatisfação", avalia Ricupero.

Rubens Ricupero na Unisinos (Foto: Rodrigo W. Blum | Unisinos)
Eis a entrevista.
Como o senhor avalia o resultado das eleições nos Estados Unidos desta semana?
Aumenta a incerteza na economia mundial. É um retrocesso na luta contra a mudança climática, mas as principais consequências serão sobretudo para os próprios norte-americanos, para o bem e para o mal. Em segundo lugar, será complicado para a Europa, muito mais que para o Brasil, por razões que explicarei em outra resposta.
O que a eleição de Trump e a expressiva votação que ele recebeu indicam?
Ele capta com intuição certeira o descontentamento da população norte-americana, em especial dos brancos mais pobres, menos instruídos, menos qualificados. Os democratas [que lançaram a candidata derrotada Kamala Harris] se converteram no partido da parcela mais educada da população, perderam o apoio popular e ficaram prisioneiros de agenda identitária de minorias.
Poderia elaborar mais...
Nem Biden, nem os demais líderes ocidentais, em especial na Europa, foram capazes de superar a profunda insatisfação com o sistema político-econômico-social, a perda da esperança para os setores populares e intermediários, a absurda concentração da riqueza e da renda. Trump tampouco será capaz de fazer isso, mas ele parece ao menos encarnar a insatisfação e a frustração com o status-quo.
À época em que ocupou o cargo de secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), entre 1995 e 2004, o senhor fez um alerta sobre o risco da globalização para as desigualdades globais. A eleição de um líder personalista é reflexo deste alerta?
A crescente desigualdade é o problema de fundo que as sociedades ocidentais não se dispõem a enfrentar. Pior que os Estados Unidos, onde ao menos Biden tentou, me parece a situação da União Europeia, ancorada ainda numa política econômica liberal que só agrava as desigualdades.
Como ficam perspectivas globais a partir desta eleição?
Muito piores, incomparavelmente piores que para o Brasil, me parecem as perspectivas para a União Europeia. Finalmente, chega para os europeus em geral e para os alemães em particular a "hora da verdade": ou eles assumem de fato, não de boca, a necessidade de ter uma política externa e de defesa comum efetiva efetiva, botando a mão no bolso para gastar em defesa, tornando-se menos dependentes do "guarda-chuva" de proteção dos americanos, ou vão ter de ceder frente aos russos na Ucrânia.
E do ponto de vista da guerra na Ucrânia?
Esta, sem proteção, terá de ceder território e abrir mão da ideia de aderir à OTAN. Aliás, se os europeus não se mexerem, Trump poderá enfraquecer a Aliança Atlântica em definitivo.
E quanto ao Brasil e as relações bilaterais Brasil-Estados Unidos?
Para o Brasil, a situação não é tão perigosa. Não temos, nem a América do Sul, problemas de segurança externa, estamos muito longe da Rússia, Ucrânia, faixa de Gaza. Não dependemos de proteção militar norte-americana. O mercado dos EUA para as exportações brasileiras está longe de ter a importância do da China (28%) ou da Ásia como um todo (quase 50%). Muitas das exportações brasileiras aos EUA são manufaturas de empresas norte-americanas que investiram no Brasil.
Que efeitos possíveis poderão, então, ocorrer?
Haverá consequências para exportações de aço, siderurgia em geral, como já ocorreu no mandato anterior de Trump. Para o comércio, as consequências serão mais de natureza global: vai se acentuar a tendência ao protecionismo e ao enfraquecimento da Organização Mundial de Comércio e suas regras.
Leia mais
- Como Trump conseguiu fazer isso novamente? Artigo de Patrick Iber
- “Donald Trump é o sintoma mórbido de um país que está para repetir a sua guerra civil”. Entrevista com Sylvie Laurent
- “A trajetória histórica dos Estados Unidos como uma democracia liberal está em jogo”. Entrevista com Sylvie Laurent
- "Trump: Um cenário conservador e desafios globais para a Agenda 2030 e a estabilidade internacional"
- Steven Forti, historiador: “Extremas-direitas como Trump estão assassinando a democracia”
- Da xenofobia de Trump às pressões de Kamala: como fica o Brasil com as eleições nos EUA. Entrevista com Cristina Pecequilo
- Donald Trump consuma sua vingança quatro anos depois
- Projeto 2025: como Donald Trump ameaça o mundo. Artigo de Mel Gurtov
- Donald Trump declara-se vencedor das eleições nos Estados Unidos
- Harris ou Trump? O impacto das eleições nos EUA para o clima global
- EUA: Democracia sem escolha. Artigo de Tatiana Carlotti
- Forte polarização da sociedade americana dá espaço à violência nos discursos de candidatos, diz cientista politico da Boston College
- EUA. Católicos, aborto e eleição: é complicado
- Eleição presidencial dos EUA 2024: o surgimento de uma nova guarda católica conservadora
- Por que voto de porto-riquenhos e latinos na Pensilvânia pode definir eleições dos EUA
- Como a eleição dos EUA impacta a América Latina?
- O impacto global das eleições nos EUA. Artigo de Francesco Sisci
- A poucos dias da eleição nos EUA, onde encontrar motivo para otimismo?
- Escolhas para os católicos dos EUA nas eleições de 2024. Artigo de Massimo Faggioli
- Ativistas criticam falta de detalhes sobre planos climáticos de Harris nos EUA
- Da “nuvem negra” do Vietnã que fez os Democratas perderem em 1968 à de Gaza na atual campanha de Kamala Harris
- Avaliação do discurso econômico de Harris em termos de ensino social católico. Artigo de Michael Sean Winters
- Católicos EUA perplexos com as palavras do papa, que não escolhe entre Trump e Harris
- Bispo de Porto Rico exige desculpas por piada sobre "ilha de lixo" em comício de Trump
- "Trump é sintoma de crise democrática que não sei se Kamala resolverá". Entrevista com Dylan Riley
- A cooptação de Guadalupe pela campanha de Trump desconsidera os valores sagrados que ela representa. Artigo de José Luis Castro Padilla
- A proposta final de Trump é assustadora, em parte porque pode funcionar. Artigo de Michael Sean Winters
- A coisa mais assustadora sobre um segundo mandato de Trump. Artigo de Michael Sean Winters