07 Novembro 2024
Apesar dos conflitos com o Papa Francisco sobre questões que vão desde imigração e mudanças climáticas até China e Oriente Médio durante o último mandato de Donald Trump na Casa Branca, uma alta autoridade do Vaticano disse que, durante seu novo mandato, Roma pretende “buscar o diálogo”.
A reportagem é publicada por Crux, 07-11-2024.
O padre jesuíta italiano Antonio Spadaro, subsecretário do Dicastério para a Cultura do Vaticano e conselheiro próximo do Papa Francisco, falou na quarta-feira em entrevistas com agências de notícias italianas.
Adnkronos, por exemplo, citou Spadaro dizendo que o Vaticano espera dialogar com Trump em questões nacionais e internacionais.
O diálogo é necessário, disse Spadaro, antes de tudo “para uma sociedade americana melhor, onde seja óbvio que muitas pessoas não se sintam em casa, onde não se sintam reconhecidas e protegidas, e haja um clamor a ser ouvido”.
Também em termos internacionais, disse Spadaro, o diálogo entre Washington e Roma é crucial.
“A perspectiva da Santa Sé é sempre ampla, internacional, reconhecendo que os Estados Unidos têm um papel importante para evitar que os conflitos atualmente em curso no mundo, da martirizada Ucrânia à martirizada Palestina, não piorem.”
“É preciso encontrar soluções”, disse ele.
A ANSA informou que Spadaro disse que os contrastes bem conhecidos entre Francisco e Trump em muitas questões não precisam ser um impedimento ao diálogo.
“A Santa Sé nunca dividiu o mundo em bons e maus, fechando as portas aos últimos e abrindo-as aos primeiros para a construção de alianças políticas”, disse ele.
“Os católicos não têm afiliações partidárias homogêneas ou convicções políticas nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar”, ele disse. “Eles mantiveram a bússola de valores firme, mas sem tomar partido, precisamente para evitar uma mistura espúria de religião com política.”
“O diálogo e a diplomacia são úteis justamente para construir pontes e derrubar muros”, disse Spadaro.
Spadaro sugeriu que, no passado, o próprio Trump às vezes pareceu combinar religião e política, citando seu discurso do Estado da União de 2018 – uma tendência, disse Spadaro, que é “problemática”, mas que torna o diálogo com o Vaticano “não apenas desejável, mas necessário”.
Spadaro também pareceu lançar um desafio indireto a Trump, referindo-se ao seu mantra “Make America Great Again”.
A verdadeira medida da grandeza, disse Spadaro, será a “atenção da América aos pobres, aos marginalizados e aos necessitados que, como Lázaro, estão do lado de fora da nossa porta. Isso se aplica às muitas, muitas, pessoas esquecidas na América que sentem que não pertencem mais. Também se aplica aos migrantes, que constituíram o próprio tecido da sociedade americana.”
Os comentários de Spadaro até agora representam a única declaração pública de uma autoridade do Vaticano sobre o resultado das eleições. O Vatican News, a agência de notícias estatal oficial, publicou um artigo sobre a reeleição de Trump enfatizando a natureza contraditória de seu retorno.
“Sua carreira política é considerada um feito sem precedentes, tendo conseguido retornar à Casa Branca após dois impeachments, vários julgamentos e duas condenações criminais”, disse o artigo de 6 de novembro. “Após o ataque ao Capitólio, sua espiral descendente parecia definitiva, tendo sido abandonado até mesmo por seu próprio partido, que ele conseguiu reconquistar.”
Em termos gerais, os papas não enviam mensagens oficiais aos novos presidentes americanos até a posse deles. Há precedentes para quebrar esse protocolo — o Papa Bento XVI, por exemplo, enviou uma nota de congratulações a Barack Obama imediatamente após sua eleição em novembro de 2008 — embora na última vez com Trump, em 2016, Francisco tenha esperado o dia da posse antes de escrever ao novo líder americano.
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