Cisjordânia: entre os “arrependidos” das colônias: "Educados no medo". Alguns estão ali por dinheiro

Foto: Abed Rahim Khatib/Anadolu Ajansi

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06 Agosto 2026

Para muitos, uma fronteira messiânica. Outros dizem que é simplesmente uma maneira de chegar ao fim do mês: moradias mais baratas, escolas, serviços, subsídios e segurança armada. Os assentamentos e a violenta galáxia de colonos mantêm o futuro de Israel e da Palestina como refém. É dentro desse sistema que pesam os testemunhos daqueles que romperam com o movimento de colonos.

A reportagem é de Nello Scavo e publicada por  Avvenire, 04-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Shabtay Bendet ajudou a fundar o posto avançado de Rehelim. Hoje, dirige o "Settlement Watch", o programa da organização israelense "Peace Now" que documenta a expansão dos assentamentos. "Queríamos criar algo que não pudesse ser desmantelado", conta Bendet sobre aquela época de postos avançados e radicalização. "Víamos os palestinos como inimigos."

Lia Tarachansky, que cresceu em Ariel, no coração da Cisjordânia ocupada, descreve uma infância marcada pelo medo. A mudança aconteceu longe de Israel, no Canadá, depois de conhecer um jovem palestino: "Ele sabe que sou judia e não está tentando me matar." Dov Morell vem da "Hilltop Youth", a galáxia informal e radical dos jovens colonos das colinas. Ele também virou as costas para os fanáticos e agora atua na área dos direitos humanos. Quase nada daquela vida vale a pena guardar, exceto a saída.

Poucas vozes dissidentes afloram de dentro dos assentamentos. Alguns colonos já foram embora. Outros partiriam amanhã mesmo, em troca de uma indenização. Muitos, no entanto, consideram a terra não negociável e um Estado palestino inaceitável.

Entre as franjas mais radicais, a separação transforma-se em expulsão: Gaza esvaziada de palestinos, a Cisjordânia reduzida a enclaves e a ocupação transformada em soberania permanente. Elizabeth Tsurkov, pesquisadora russo-israelense que cresceu em Kfar Eldad, um assentamento ao sul de Jerusalém, recorda a escola Achi Tekoa e as "excursões" que jamais se aventuravam pelas aldeias palestinas da Área C, "muito menos nas Áreas A ou B". É uma frase que pesa como um mapa, especialmente após o confronto de 24 de julho em Tal, nos arredores de Nablus, na Área A, que deixou quatro palestinos e dois soldados israelenses mortos. A Área C, que compreende cerca de 60% da Cisjordânia, permanece sob controle total de Israel. Ali, assentamentos e postos avançados surgem ao lado de aldeias palestinas e comunidades beduínas. O mesmo pedaço de terra, mundos separados. O "outro", o bíblico "próximo", é, acima de tudo, uma presença removida. Tendo recuperado a liberdade após 903 dias de cativeiro no Iraque, Tsurkov voltou a questionar também o ambiente israelense onde foi criada. Ao comentar nas redes sociais sobre incursões nas aldeias palestinas, ela fala de "uma política deliberada dos colonos violentos: entrar nas aldeias para atacar ou para provocar uma reação que justifique um abuso ainda maior".

Enquanto isso, o território se transforma. Entre 14 de março e 12 de junho de 2026, segundo o Secretário-Geral da ONU, Israel autorizou 4.750 novas unidades habitacionais na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental e aprovou 34 assentamentos. Entre março e abril, nove comunidades palestinas foram forçadas a abandonar o território após repetidas agressões. Desde janeiro de 2023, 45 dessas comunidades foram esvaziadas em decorrência de ataques, intimidação e destruição.

A aldeia beduína de Khan al-Ahmar ainda enfrenta a ameaça de demolição. Ela está localizada no corredor E1, entre Jerusalém e Ma’ale Adumim, onde Israel pretende conectar os assentamentos à sua própria área urbana. O projeto E1 prevê 3.401 unidades habitacionais e a "Estrada da Soberania". Segundo a União Europeia, isso separaria o norte da Cisjordânia do sul, isolaria Jerusalém Oriental de um futuro Estado palestino e tornaria a solução de dois Estados praticamente inviável.

Bruxelas define 2025 como um ano de "aceleração sem precedentes": 54 novos assentamentos oficiais, 86 postos avançados e 63.311 unidades habitacionais planejadas. Mais de 750.000 colonos vivem nos territórios ocupados. O relatório europeu fala em anexação “de fato”. O parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça, de 19 de julho de 2024, afirma que Israel é obrigado a cessar imediatamente toda nova atividade de assentamento, evacuar os colonos e encerrar sua presença ilegal nos territórios ocupados o mais rápido possível. No terreno, ocorre o oposto: os assentamentos se multiplicam, os postos avançados são legalizados, as terras são registradas e as comunidades palestinas são empurradas para outros locais.

Nem para todos trata-se de uma missão bíblica. Um morador israelense-estadunidense explica que a escolha foi financeira: "Aluguel subsidiado, segurança garantida por voluntários armados e uma rede de cooperação entre vizinhos". Ele trabalha no setor de alta tecnologia e diz que, se o governo decidisse por uma retirada com indenização, estaria pronto para se mudar "já amanhã".

A campanha eleitoral que antecede a votação de 27 de outubro dependerá do apoio da população dos ocupantes, um grupo em condições de determinar o destino de partidos e o futuro de toda a região. Entrevistado pela BBC no assentamento de Havat Gilad, Yehuda Shimon, colono e advogado que representa israelenses acusados de violência contra palestinos, afirmou que a vida de um judeu vale "dez milhões" de vidas palestinas. Racismo? "Deus nos escolheu. E vocês têm inveja disso."

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