26 Mai 2026
"A encíclica, que vozes da Cúria descrevem como de ampla visão, será, portanto, o último elo na longa corrente da doutrina social da Igreja", escreve Giovanni Maria Vian, jornalista italiano, em artigo publicado por Domani, 24-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
"Cada vez que tento dizer algo sobre a inteligência artificial, no dia seguinte leio as notícias e descubro que a inteligência artificial já avançou mais. O desenvolvimento procede em um ritmo inacreditável, o que por si só já é motivo de preocupação." A carta doutrinal do pontífice estadunidense está prestes a ser publicada. E é antecipada por vozes que a descrevem como "de ampla visão".
Há expectativa pela primeira encíclica do Papa Leão XIV, anunciada desde a eleição de Robert Prevost e com publicação prevista para amanhã. Com uma novidade marcante, porque a apresentação no Vaticano será fita pelo próprio Prevost, sem os filtros, mais ou menos acertados, que em ocasiões semelhantes se interpunham entre os textos pontifícios e seus intérpretes, geralmente com pouca utilidade.
Dessa forma, Leão XIV continua a mudar a comunicação papal. Depois daquela de Francisco, o método de Leão XIV combina uma forma aparentemente mais sóbria e pacata com os conteúdos, coerentes com o ensinamento dos antecessores, mas transmitidos sem deixar espaço para instrumentalizações midiáticas, pois o próprio pontífice controla pessoalmente a comunicação. O estadunidense Prevost, de fato, introduziu formatos inéditos, como os encontros de terça-feira à noite em Castel Gandolfo, a residência papal, que assim assumiu uma importância comunicativa nunca vista antes. Ao contrário do passado, não houve vazamentos ou prévias da encíclica; mas, ao contrário, há muitos elementos disponíveis, que se baseiam nas declarações do pontífice e em textos publicados pela Santa Sé: entre eles, sobretudo, a longa nota Antiqua et nova, publicada em 2025.
Leão XIV assinou seu texto — banalmente intitulado Magnifica humanitas — em 15 de maio. Essa data não foi escolhida ao acaso e era muito fácil de prever: é, de fato, a mesma data de Rerum novarum, a encíclica mais famosa de Leão XIII, que desde 1891 é um dos textos papais mais célebres de todos os tempos.
Há setenta anos, o autor Igino Giordani observava isso na introdução de um best-seller, agora em sua quarta edição (Le encicliche sociali, publicado pelo Montiniana Studium). Deputado democrata-cristão da Assembleia Constituinte e fundador do Movimento dos Focolares juntamente com Chiara Lubich, o homem político escrevia que a encíclica do idoso papa havia sido "para a ação social cristã" o que o Manifesto do partido comunista ou O Capital de Marx haviam representado "para a ação socialista".
Tradição e modernidade
Prevost adotou o nome do papa que soube combinar com sucesso tradição e modernidade. Como explicou quarenta e oito horas após sua eleição: "Há várias razões", disse ele aos cardeais em 10 de maio de 2025, "mas principalmente porque o Papa Leão XIII, com sua histórica encíclica Rerum Novarum, abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial; e hoje a Igreja oferece a todos o seu patrimônio de doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que representam novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho." Palavras que anunciam o documento de amanhã.
A encíclica do Papa Pecci, eleito já com sessenta e oito anos em 1878, é a mais conhecida das 86 publicadas durante um pontificado que se imaginava curto, mas que, em vez disso, durou um quarto de século, até 1903. De cultura tradicional, autor de versos em latim refinado, o frágil aristocrata da Ciociaria – que se tornara jovem embaixador papal em Bruxelas – viajara e vira com seus próprios olhos a evolução social e política da Europa Ocidental, antes de passar trinta anos como bispo em Perugia.
Adversário ferrenho do socialismo, do comunismo e do niilismo, já condenados em 1878 pela encíclica Quod apostolici muneris, bem como da Maçonaria, Leão XIII é percebido — mesmo nos Estados Unidos, um país novo para o qual faz uma abertura com confiança, embora condenando a quase heresia do americanismo — como o papa que enfrenta uma época nova com uma sensibilidade social igualmente nova: as "novidades" (rerum novarum) com as quais se abre a encíclica de 1891, considerada com razão o fundamento da doutrina social da Igreja. Nesse sentido, diversas influências aproximam Prevost ao Papa Pecci.
Certamente não é coincidência que um dos poucos textos anteriores ao pontificado de Prevost seja seu prefácio ao livro de um coirmão agostiniano (John J. Lydon McHugh, La dottrina sociale della chiesa, Castelvecchi), onde ele descreve esses ensinamentos como "uma forma de se aproximar da realidade social".
A precisa biografia de Elise Ann Allen (Leão XIV - A Biografia, Paulus), que inclui a única entrevista com o pontífice, confirma seu grande interesse pelo tema da inteligência artificial.
O papa atribui esse interesse à cúpula do G7 de 2024, quando Bergoglio foi convidado a falar sobre inteligência artificial em Borgo Egnazia. "A Igreja não se opõe de forma alguma aos progressos da tecnologia; mas perder o vínculo entre a fé e a razão científica significa, na minha opinião, reduzir a ciência a uma casca vazia e fria, capaz de causar grande dano à humanidade", explica o Papa Leão a Allen. Que, de acordo com um antigo colaborador, Antonio Coquis, "dará uma resposta a essa transformação da sociedade. Talvez seja nessa direção que poderá seguir seu percurso".
Metódico e de formação em matemática, o Leão estadunidense relatou a Allen uma experiência cada vez mais comum a todos nós: "Toda vez que tento dizer algo sobre inteligência artificial, no dia seguinte leio as notícias e descubro que a inteligência artificial já avançou mais. O desenvolvimento procede em um ritmo inacreditável, o que por si só já é motivo de preocupação." A isso se somam as preocupações já sentidas, há mais de um século, pelo outro Leão.
Hoje, "pessoas extremamente ricas estão investindo em inteligência enquanto ignoram completamente o valor do ser humano e da humanidade", explica o papa de Chicago na entrevista. "A Igreja precisa fazer sua voz ser ouvida", porque "nossa vida tem sentido não graças à inteligência artificial, mas graças a outros seres humanos e ao encontro, ao estar junto, à criação de relações e ao reconhecimento, nessas relações, também da presença de Deus", explica Prevost.
Doutrina social
A encíclica, que vozes da Cúria descrevem como de ampla visão, será, portanto, o último elo na longa corrente da doutrina social da Igreja. Entrando bem no meio de um cenário idealizado há uma década por Arturo San Agustín, jornalista e escritor de Barcelona, em seu romance El robot que cree en Dios (EdLibros), cujo protagonista é um pontífice catalão, Inocêncio XIV, às voltas com o transumanismo.
Como sempre, porém, a realidade de amanhã supera a fantasia, sobretudo pela intervenção do próprio Papa. Mas também pelos perfis daqueles que apresentarão a encíclica amanhã, ao lado dos sempre presentes cardeais: mais interessantes serão, de fato, as contribuições de duas professoras universitárias de teologia política (a britânica Anna Rowlands e a congolesa teresiana Leocadie Lushombo) e do canadense Chris Olah, cofundador da Anthropic, empresa de pesquisa em informática com uma visão alternativa aos projetos objetivamente preocupantes das gigantes da rede, as novas dominadoras do mundo. Vozes que explicarão por que também a inteligência artificial precisa de uma alma.
Nota do IHU
A íntegra da Carta Encíclica Magnificat Humanitas pode ser lida, em português, aqui.
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