O futuro pontífice Leão XIV nos passos de Agostinho. Artigo de Gianfranco Ravasi

Imagem de Santo Agostinho na Igreja Dominicana de Sta Maria Minerva em Roma. (Foto: Lawrence OP/Flickr)

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07 Mai 2026

"Apesar do processo de secularização e descristianização da sociedade ocidental, "estão crescendo as demandas sobre o sentido do ser humano, do destino da história e da transcendência".

O artigo é de Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 03-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Todos se lembram da primeira palavra proferida pelo recém-eleito Papa Leão XIV naquela tarde de 8 de maio de 2025: "A paz esteja convosco!" Desde então, em um planeta manchado pelo sangue das guerras, ele continuou a repetir essa palavra de mil maneiras e em mil contextos. Paradoxalmente, a palavra "paz" fez com que sua voz se tornasse ainda mais forte nas últimas semanas, durante sua viagem apostólica à África, apesar de certos ataques confusos (formalmente) e delirantes (substancialmente).

A mensagem de Leão XIV, contudo, é rica em outros conteúdos que estão em continuidade com seu ensinamento anterior, realizado especialmente durante seu período como Prior Geral da Ordem Agostiniana, de 2001 a 2013, antes de se tornar — ele, um estadunidense de Chicago — Bispo peruano de Chiclayo. Com paciência, diríamos "cartusiana", três de seus coirmãos agostinianos — Miguel Ángel Juárez, Michael Di Gregorio e Rocco Ronzani — se comprometeram, a pedido da Editora Vaticana, a reunir o eco de sua voz cristalizada nos escritos, homilias e diversas intervenções que o Padre Robert Francis Prevost propôs durante seu período como Prior Geral.

Trata-se, portanto, de doze anos cronologicamente repletos de mensagens proclamadas nas comunidades ou em diversos âmbitos de todos os continentes: estatisticamente, seis na África, dez nas Américas, dez na Ásia, três na Oceania e 25 na Europa, mais 25 realizadas em Roma. É um legado que abre muitos horizontes teológicos, pastorais, espirituais e existenciais para a escola de Santo Agostinho "diante dos desafios da história", como afirma o subtítulo da coletânea, enquanto o próprio título resume as duas dimensões teológicas fundamentais da obra: a graça divina e a liberdade humana. Uma leitura antológica dessas páginas revela um espectro temático policromo, cujo tema constante é a presença daquele gênio da humanidade (e não apenas da teologia) que foi Agostinho, de quem Prevost se declarou não apenas discípulo, mas "filho".

Nessa vasta sequência de reflexões e mensagens, é difícil isolar uma espécie de ponto central que unifique o discurso multifacetado. Talvez por uma particular simpatia e afinidade, gostaria de destacar o tema — de certa forma dilacerante, mas também estimulante — do "escândalo" (no sentido original de "pedra de tropeço") de Cristo e de sua palavra em um mundo secularizado, aliás, segundo alguns, até mesmo pós-cristão. A voz de Jesus, feita ressoar por seus verdadeiros discípulos, pode ser um espinho na carne de uma indiferença dominante.

É o que eu definiria como "apateísmo", uma superficialidade marcada pela apatia espiritual. Sempre sob a égide do grande Agostinho, Bispo de Hipona, nos mais diversos contextos, o Padre Prevost evoca algumas vias para dissipar e navegar por essa névoa amorfa. Nessa perspectiva, escolhemos como prévia do livro um sugestivo discurso de abertura proferido em um congresso agostiniano na Espanha em 2002, que pode ser lido nesta página. Nele, uma reflexão fundamental e radical aborda a "questão premente de como transmitir o que cremos, como explicar a nossa fé" em um contexto sociocultural profundamente transformado pela nova comunicação.

Ouçamos suas próprias palavras: "Uma das grandes preocupações teológicas da atualidade — especialmente dos pregadores e dos pastores — é encontrar uma linguagem capaz de transmitir de forma convincente o conteúdo do pensamento teológico e da fé vivida." Em palavras incisivas, ele descreve então o abismo entre "o mundo da rua" e a linguagem eclesiástica, muitas vezes composta de "palavras que parecem simplesmente piedosas, mas que não conseguem ir além de um vago sentimento de inocência e bondade". Um corolário abre um horizonte problemático adicional para a Igreja: o dos jovens que postulam "uma mudança substancial nos próprios conceitos, renovando o nosso vocabulário e as nossas expressões".

Nesse ponto, surge a necessidade do testemunho, porque "como diz o provérbio, o Irmão Exemplo é o melhor pregador". De fato, apesar do processo de secularização e descristianização da sociedade ocidental, "estão crescendo as demandas sobre o sentido do ser humano, do destino da história e da transcendência".

Referindo-se ao seu amado Agostinho, o Padre Prevost reitera que "o homem não se define pelo que possui ou conhece, mas pelo que ama: cada um é tão grande quanto o amor que tem".

Emblemático e poderoso continua sendo o testemunho de Jesus em suas ações e palavras, em sua vida e em sua mensagem. E conclui: "Hoje, torna-se cada vez mais evidente a cisão entre o ensinamento e a vida, entre as palavras e as ações, entre o Deus dos teólogos e o clamor de quem grita do fundo de seu coração... Não devemos, portanto, ser tão dedicados à contemplação a ponto de não pensarmos no bem do nosso próximo, nem tão empenhados com a ação a ponto de negligenciarmos a contemplação de Deus."

Essa breve amostra do texto específico aqui proposto ajuda-nos a compreender a riqueza e a relevância da coletânea dos primeiros escritos do futuro papa, longe de serem datados e monótonos, também porque o estandarte simbólico é o de Agostinho e "sua busca apaixonada pela verdade... que pode iluminar a história de muitas pessoas inquietas e em busca da felicidade."

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