O papel e as escolhas dos católicos na política. Artigo de Luca Diotallevi

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29 Mai 2025

"Isso dá origem a um problema de interesse geral: será que a República e a democracia liberal têm um consenso tão amplo na Itália de hoje a ponto de resistir à deserção de uma parte conspícua do mundo católico que, por décadas, tinha apoiado a posição ocidental e europeia do país?"

O artigo é de Luca Diotallevi, doutor em sociologia pela Universidade de Parma, publicado por Corriere della Sera, 28-05-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Antonio Polito e Angelo Panebianco observaram, nestas páginas, abordagens sem precedentes no mundo católico italiano. Em questões importantes relativas ao futuro da UE e de sua defesa, os “dossettianos” e Comunhão e Libertação estão agora em posições semelhantes, depois de terem estado em lados radicalmente opostos por décadas. A extensão da mudança atual é melhor compreendida analisando o contexto histórico.

Depois da Revolução Russa de 1917 e das crises econômicas das décadas de 1920 e 1930, o sonho de uma “terceira via” alternativa ao socialismo e à democracia liberal se firmou no mundo católico italiano. Essa “terceira via” fazia parte do projeto de uma “nova cristandade”. A “terceira via católica” assumiu muitas formas, algumas até autoritárias e clericais-fascistas.

Naquelas mesmas décadas, entretanto, algo mais também estava acontecendo no mundo católico italiano. Federico Chabod definiu o nascimento do Partido Popular do padre Luigi Sturzo (em 1919) como o evento mais importante na história da Itália do século XX. No mundo católico e com relação à “terceira via católica”, o popularismo de Sturzo constituiu uma alternativa não confessional, democrática e liberal. Sturzo logo ficou na mira de Mussolini e o Partido Popular foi dissolvido. O expurgo clerical-fascista continuou com o afastamento de Giovanni Battista Montini (o futuro Paulo VI e filho de um dos fundadores do Partido Popular) de seu cargo de assistente nacional da Fuci (os universitários católicos) e com a proibição, imposta pelo regime e aceita pelo Vaticano, de que ex-membros do Partido Popular assumissem cargos de liderança na Ação Católica. Mas, nem mesmo naquela época a história havia acabado.

A partir de 1943, De Gasperi assumiu a liderança da recém-formada DC. Com o apoio de Montini e apesar das resistências de Pio XII, ele levou grande parte dos católicos italianos a apoiar a democracia e a colocação da Itália no campo ocidental e liberal. De Gasperi colaborou com Einaudi, levou a melhor sobre os mansos da “terceira via católica” e derrotou a hostilidade dos “dossettianos” e da direita católica. Na década de De Gasperi, amadureceram escolhas, como a adesão da Itália à OTAN e o nascimento do que hoje chamamos de União Europeia (que, para De Gasperi, também precisava ser dotada de sua própria capacidade defensiva). Após o 8 de setembro, os planos do Vaticano e da liderança eclesiásticas eram bem diferentes.

Com o Vaticano II (1962-1965), Montini (que se tornou Paulo VI) concluiu o trabalho de aproximação entre o catolicismo e a modernidade, entre o catolicismo e a liberdade (incluindo a liberdade religiosa). Os defensores da “terceira via católica” e da “nova cristandade” foram derrotados até mesmo dentro da Igreja.

Nos anos mais recentes, no entanto, a “terceira via católica”, morna, para dizer o mínimo, em relação à democracia liberal, recuperou a força, e a atual confluência entre pacifismo e antiocidentalismo católicos de direita e de esquerda é uma de suas maiores evidências. Ao mesmo tempo, o catolicismo de Rosmini e Manzoni, de Sturzo, De Gasperi e Montini (e de Sergio Mattarella) encontrou dificuldades crescentes, o que também se deve à mudança do clima no Vaticano.

Isso dá origem a um problema de interesse geral: será que a República e a democracia liberal têm um consenso tão amplo na Itália de hoje a ponto de resistir à deserção de uma parte conspícua do mundo católico que, por décadas, tinha apoiado a posição ocidental e europeia do país?

Foi nessa conjuntura que ocorreu a eleição do cardeal agostiniano Prevost para o trono papal.

É bem conhecida a profunda influência da espiritualidade agostiniana sobre Sturzo, Rosmini e Montini (em tempos em que era um tomismo tardio e pobre que ditava a lei). Não é preciso muito para perceber isso. Nos últimos anos, o apelo de Paulo VI à ONU em 1965 foi citado várias vezes: “Nunca mais a guerra! Nunca mais a guerra!” O risco de o Papa Montini parecer um pacifista ingênuo ou fanático desaparece rapidamente se lermos também algumas das linhas seguintes daquele discurso. “Enquanto o homem permanecer o ser fraco, inconstante, e mesmo mau como se mostra tantas vezes, as armas defensivas serão, infelizmente, necessárias”. Essas últimas palavras não contradizem o apelo contra a guerra, mas o colocam em um horizonte realista de viés claramente agostiniano. A paz, para merecer esse nome, deve ser justa (pax opus iustitiae) e, para ser justa, deve prever a disponibilidade de meios adequados para aplicar sanções eficazes contra toda ofensa aos direitos e àqueles dos inocentes indefesos acima de tudo. Portanto, não deveria causar surpresa que o “filho de Agostinho”, agora Papa Leão XIV, desenvolvendo seu próprio magistério voltasse a dissipar os mansos das “terceiras vias católicas” e os saudosismos de uma “nova cristandade”.

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