04 Abril 2025
É uma revolta. Expressa com afã fraterno e referências evangélicas, mas a que se viu nestes últimos dias à sombra de São Pedro é mais do que um simples protesto. Na segunda assembleia do caminho sinodal das Igrejas na Itália, que começou na segunda-feira e terminou na quinta no Vaticano, os mais de mil delegados, mais da metade dos quais leigos, rejeitaram o texto que havia sido preparado pelos encarregados, e que devia representar a síntese final de quatro anos de trabalho, e obrigaram a Conferência Episcopal Italiana a fazer uma mudança de programa: o documento foi descartado, será reescrito de cima a baixo e apresentado em uma nova assembleia sinodal, ainda não programada, convocada para o final de outubro.
A informação é de Iacopo Scaramuzzi, publicado por Repubblica, 03-04-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
A assembleia de maio da Conferência Episcopal Italiana foi cancelada, e os bispos se manifestarão na assembleia de novembro. O sínodo não será um parlamento, como diz o Papa, mas na Igreja italiana tomou forma uma espécie de inédita revolta democrática.
O estopim foi um documento, composto de 50 “proposições” - que não foi publicado - considerado genérico, desbotado, insosso. “Nós nos reunimos por quatro anos, discutimos, estudamos, dialogamos, fizemos propostas, e no texto não havia nada disso”, relata um membro do caminho sinodal. Na CEI, explicaram que o inevitável trabalho de síntese, bem como a variedade de posições que surgiram, levou ao enxugamento de um documento inicial que era mais rico e multifacetado.
Os delegados, no entanto, não encontraram quase nenhuma das questões levantadas, temas muitas vezes controversos, mas concretos e detalhados. Havia o reconhecimento do papel das mulheres na Igreja, mas nenhuma referência à possibilidade de novos ministérios femininos, por exemplo, o diaconato. Acompanhamento das pessoas homossexuais, mas nada mais (e, para alguns, “acompanhamento” é um termo ambíguo), e nenhuma menção ao acrônimo lgbtq+ (que havia aparecido no sínodo mundial). Pouco ou nada sobre os abusos sexuais. Havia o tema da transparência econômica, dos balancetes e da “responsabilidade”, mas tudo deixado a cargo de cada diocese. Pouco ou nada no que diz respeito à CEI, muito “se deveria”, “se poderia”. E quanto aos temas sociais - trabalho, migrantes, ecologia, paz - uma envernizada lexical de bergoglismo sem traduzir na prática as solicitações muito precisas formuladas nos últimos anos pelo próprio Bergoglio. “Um texto que parecia ter sido escrito 40 anos atrás”, resume um membro do sínodo. “Como ursinhos de pelúcia no parque de diversões”.
E, de fato, na manhã de terça-feira, foi encenada uma primeira revolta. 150 padres e madres sinodais se inscreveram para falar, mas apenas cerca de cinquenta deles conseguiram se manifestar, e encheram o documento de críticas. Monsenhor Erio Castellucci, fino teólogo e presidente do comitê de presidência, um dos bispos que mais pressionou para que o sínodo italiano decolasse, comentou com humor: “Parecíamos os ursinhos de pelúcia usados como alvos no parque de diversões”.
O arcebispo decidiu virar a página: enquanto inicialmente estava prevista a possibilidade de apresentar apenas um número limitado de emendas, Castellucci decidiu que todas as emendas seriam aceitas. Foi uma avalanche. A avalanche de emendas.
A assembleia sinodal é composta por 1008 pessoas, apenas 168 bispos (sete cardeais), 252 sacerdotes, 34 religiosos, 17 diáconos e nada menos que 530 leigos (253 homens e 277 mulheres). Na tarde de terça-feira e na manhã de quarta-feira, os grupos de trabalho voltaram à obra, mas logo ficou evidente que o texto era impossível de ser ajeitado. Muitas das proposições provavelmente teriam sido rejeitadas pela maioria - e a presidência do sínodo havia se empenhado em publicar tanto o texto final quanto os relativos votos, parágrafo por parágrafo, como também acontece no sínodo mundial desde que o Papa Francisco assumiu o papado. Daí a decisão de mudar tudo.
“Vamos aprender com as dificuldades”, declarou o Cardeal Matteo Zuppi na coletiva de imprensa, “existe uma certa decepção, não em relação à assembleia, onde houve um grande senso de liberdade e senso eclesial”, “decepção porque é claro que gostaríamos de ter respeitado o cronograma que havíamos estabelecido”. “Mas então nos demos conta de que não basta definir o calendário”, essa ”é a beleza da vida e de uma Igreja que está viva. Se caminha”.
“A Assembleia de terça-feira de manhã e as muitas propostas de emendas apresentadas pelos 28 grupos pedem um repensamento global do texto e não apenas o ajuste de algumas de suas partes”, afirma Monsenhor Castellucci em uma nota divulgada hoje. Com seu habitual humor, explica: 'Nos últimos dias, recebi expressões de proximidade de alguns de vocês que, quando me encontravam, sorriram de boca fechada e me davam tapinhas nas costas, como se faz quando se prestam condolências. Agradeço por essas atenções, assegurando-lhes, no entanto, que meu estado de espírito é de predominante gratidão a esta assembleia, em todos os seus componentes: foi descrita por alguns como uma assembleia 'rebelde', mas foi mais uma assembleia viva: crítica, leal, apaixonada pela Igreja e por sua missão”. Uma moção aprovada por uma maioria esmagadora (835 a favor; 12 contra; 7 abstenções) estabelece que “a Assembleia marca uma nova data para a votação do Documento contendo as Proposições para o sábado, 25 de outubro”.
E pensar que o sínodo italiano havia começado com relutância. O Papa Francisco havia dado uma sacudida quando, em Florença, em 2015, pediu à CEI que iniciasse “de maneira sinodal” um aprofundamento de sua própria exortação apostólica Evangelii Gaudium, o mapa programático de uma Igreja “em saída”, “em cada comunidade, em cada paróquia e instituição, em cada diocese e distrito”. E nada aconteceu. Personalidades próximas ao papa Francisco, como os jesuítas Antonio Spadaro e Bartolomeo Sorge, insistiram no tema. E, em meio a timidez e relutâncias, os primeiros bispos se apresentaram, expressando seu desejo de um sínodo para a Igreja italiana.
Até a decisão, tomada em 2021, de finalmente lançar um caminho sinodal italiano. Que por longos meses pareceu mais um exercício retórico do que uma oficina de ideias. Mas entre os/as fiéis, entre os teólogos, bem como entre vários bispos, gradualmente abriu caminho a ideia de que não era desperdiço de tempo, que era a oportunidade de trazer à tona nós profundos, questões polêmicas, temas difíceis de resolver.
E, afinal, na Itália, o número de fiéis está caindo, os jovens estão se afastando da Igreja, as pessoas homossexuais continuam sendo marginalizadas, as mulheres pouco valorizadas, aqui e ali despontam modelos alternativos de gestão das paróquias e das dioceses, muitas estruturas já estão obsoletas e se impõem dramas como aqueles dos abusos sexuais de menores. Uma primeira assembleia sinodal em novembro passado destacou uma tomada de conscientização, mas permaneceu fora do radar, abafada pelos belos discursos oficiais. Nesse interim, em outubro passado, o Papa Francisco concluiu a última assembleia do sínodo mundial aceitando o documento final, resultado de longas discussões entre os padres e madres sinodais, como texto magisterial: de acordo com o Pontífice, não havia necessidade de acrescentar mais nada, o que a assembleia havia decidido era suficiente. E mesmo entre os participantes do sínodo italiano havia aqueles que diziam: e por que não nós? E assim nasceu a revolta.