Um delírio sob febre dostoievskiana. Artigo de Daniel Luiz Medeiros

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03 Abril 2025

progressismo dos católicos no Brasil entende que os cristãos precisam combater a ideologia (pois trata-se de um combate espiritual. Forças maléficas ocultas estão por toda a parte). “De fato, Paulo afirmou na carta aos Efésios que é contra forças espirituais espalhadas nos ares que temos de lutar”, dir-me-eis. Santo fundamentalismo! Aquele que mantém a Palavra de Deus estática. Aquele que engessa a liturgia. Aquele que mantém a mulher no seu devido lugar. Aquele que sustenta o capitalismo. Aquele que justifica a escravidão. Aquele que aprisiona consciências!

O artigo é de Daniel Luiz Medeiros

Daniel Luiz Medeiros possui especialização em Sagrada Escritura, pelo Centro Universitário Claretiano, é bacharel em Teologia, pelo Studium Theologicum e licenciado em Filosofia, pelo Centro Universitário Campos de Andrade.

Eis o artigo.

Roda de amigos. Uma cervejinha, bate papo descontraído. Logo começa a discussão. Houve impedimento? Foi falta? Assistir a um jogo de futebol é até mais emocionante quando há torcedores dos dois times na frente da mesma tela. Pênalti! C*r*lh*! Melhor ainda é quando seu time vence e você pode tirar uma casquinha do oponente. E aí começa a falação, o grito, a defesa do próprio time, o desprezo pelo outro... Logo está tudo bem novamente, pois o churrasco e a cerveja não vão faltar. E não para por aí, há assunto para semana toda... Futebol se discute sim. Fico pensando se haveria o mesmo entusiasmo no futebol se não houvesse uma boa discussão...  

E a política? Bom, se não se discute, nem é política! Sim. Como se poderia pensar o orçamento público – a forma de administrar os bens e os recursos comuns, as prioridades, investimentos... – sem que haja discussão: o diálogo, o confronto de ideias e ideologias, perspectivas sob olhares diferentes da mesma realidade? Esta característica é o que permite a busca por uma sociedade organizada em vista do bem comum.

Política. Hoje no cenário nacional brasileiro é entendida de maneira muito simples, direita e esquerda: patriotismo, valores cristãos e liberdade, de um lado, e comunismo, desordem e ditadura, de outro. “Só não entende de política hoje quem não quer”, dir-vos-ão. Mas, “a questão não é tão simples assim”, dir-me-íeis. Realmente. É um pouco mais complexa, mas só um pouquinho mais.

Direita (como o próprio termo sugere, aquilo que é certo, correto, não é torto – perdoem-me os sinistros!) é a postura política de gente de bem, que trabalha de verdade e não espera o dinheiro cair do céu. O Estado é quase como um mal ainda necessário. Ele deveria apenas representar a nação, estabelecer algumas relações diplomáticas importantes para a economia e cuidar da ordem da nação. Livre concorrência, relações comerciais sem viés ideológico (“isso ele aprendeu entre os anos de 2018 e 2022”, pensais), diminuição do funcionalismo público, imposto mínimo (pois é preciso pagar os mandatários, afinal, estão trabalhando pelo Brasil e merecem um salário justo, à altura de suas responsabilidades) é a política infalível para que a sociedade – na qual cada indivíduo, trabalhando com seu próprio suor – resolva por si só o problema da desigualdade social, da educação, da saúde, etc., sem a necessidade do Estado para isso (ainda que leve alguns séculos para acontecer).

Trabalho tem para todos. Simples. Quem tem bens (justamente acumulados com o próprio esforço do trabalho do pai, do avô... – não importa) vende ou aluga para quem não tem. Claro! O lucro, precisamente calculado a partir das leis de mercado (a lei da oferta e da procura), é a renda do empreendedor que, além de vender ou alugar alguns de seus bens, ainda trabalha na administração de seus negócios. Sem falar que o empresário dá empego (“não é o Estado que deve dar emprego, mas o empresário”, pronunciam-vos). “Faz sentido, é justo”, afirmar-me-íeis. Quem não tem bens para vender ou alugar, vende sua força de trabalho em troca de um salário justo. Qualquer um tem o que vender e o que comprar. Eis o mercado de trabalho!

Santo Mercado de Trabalho! Mercado que inclui a todos, aqueles que possuem bens (“não importa se com esforço próprio ou esforço de outros”, observais), e aqueles que ainda irão possuir bens – desde que trabalhem e façam seu melhor, é claro. Facilmente compreensível: a economia movida pelo capital – e não pelas necessidades – e impulsionada por novidades efêmeras, consumidas rapidamente num ritmo desenfreado. O desejo desenfreado, muito além da justa medida (oh, Aristóteles, citado direita e catolicamente, remexe-se no túmulo ao saber que sua Ética a Nicômaco foi substituída pela economia do desejo). Justa medida, metaforicamente presente no Pescador ambicioso e no peixe encantado, sinistramente defendida por Boff (sim, Aristóteles boffnianamente medido, e não direitamente progredido sob o anacronismo tomista da tradição – e não da Tradição).

Ai, ai, ai! Ai daquele que não consumir! Ficará fadado ao fracasso, ao asco, ao riso sarcástico, pobre e frio, da sociedade de consumo. Depressão. Febre dostoievskiana. A economia não pode parar (e vale ressaltar, ainda que uma pandemia se desenvolva pelo planeta). Mas eis que se apresenta a cura da febre (notem: cura da febre – e não da doença). Sete voltas para quebrar a muralha da depressão: decepção, mágoa, ódio, sentimento reprimido, raiva. Bem vindos ao Cerco de Jericó! Espetáculo teatral de inspiração veterotestamentária, com participação especial de Satã (este não pode faltar, pois quanto mais mencionado, mais poderosa será a oração contra o poder maligno).

Ministros da Igreja vendidos pelo sentimentalismo e intimismo religioso de uma espécie de teologia da retribuição (já desmascarada por Jó) – e, quiçá, pela teologia da prosperidade (fico em dúvida) – (por ignorância ou instrumentalização da fé infantil de adultos sedentos de espiritualidade – de verdadeira espiritualidade) e alguns até mesmo vencidos pela tentação da fama, do status e do poder. Um poder que pensam possuir por terem sido suas mãos ungidas com óleo no dia da ordenação ou um poder que pelo menos acreditam estar a seu alcance. Ritos forçosamente liturgizados para dar canonicidade e seriedade aos envolventes momentos de ópio espiritual! “Anacronismo cômico e ofensivo, aprovado ou ignorado deliberadamente por muitos bispos!”, exclamo-vos.

Mas a febre baixa com o espetáculo do Circo (principalmente se o diabo esteve presente). E, para além das novas canções sentimentalistas entoadas pelo grande público carente de verdadeiros pastores é importante esclarecer: não é o conhecimento que liberta (pois não se trata de libertação, e sim de salvação). Determinadas leituras da realidade são até mesmo literalmente renunciadas em certas orações. O que realmente salva é a vida de oração. Não a oração contemplativa da Tradição, fundamentada na lectio divina e que implica numa mudança de vida (de si e dos outros), mas a vida de oração fundamentada na tradição: sacramentais, penitências, pequenos sacrifícios, jejuns (sendo que sobre isso Isaías, um evangelista do Antigo Testamento, já esclareceu muito bem). Mas, como vivemos tempos sombrios, paralelamente à oração é necessário saber o que se passa de verdade no campo político do Brasil. “Política e religião conectadas”, bem observais. Salvação das almas brasileiras: oração (de preferência toda a nação – mesmo que não seja católico – e se possível às quatro da madrugada) e combate espiritual contra o comunismo.

Comunismo. Anticristão em sua essência, prega que a religião é o ópio do povo. São Marx, mártir da morte da religião! Resultado: almas imersas num vermelho diabólico de incontáveis pecados que continuam a crucificar Nosso Senhor Jesus Cristo, que veio para morrer pelos pecados da humanidade. Marx morreu, mas o ópio vive explosivo. “Já não temos mais liberdade!”, enraivecem aliados dos golpistas salvadores da pátria que possuem a liberdade para gritar por um Estado Democrático de Direita. Que querem trocar a ditatura da tentativa de justa distribuição de renda pela ditatura do Santo Mercado (não necessariamente de trabalho, mas o financeiro, que implica em trabalho, muito para todos).  

Capitalismo. Eis aqui a liberdade plena das famílias felizes que trazem consigo os valores cristãos (os verdadeiros valores cristãos, progredidos e tradicionados por Trento – bendita tradição!). Capitalismo e Cristianismo: tudo de bom – desde que este último se ocupe com aquilo que lhe compete: a salvação das almas. Caso contrário, gritar-vos-ão: “bando de TLs comunistas!”

Jesus de Nazaré. Humilhantemente exaltado sob roupagens douradas de raios esplendorosos. Idolatria ao excelso sacramento. Idolatria às aparências, e não ao Pão da Vida. Caso contrário, não seria idolatria. Santo Capitalismo! O poder de Cristo Rei é medido a partir da quantidade de riqueza (ouro, pedras preciosas) do ostensório. Ostentação! Quanto mais rico aparenta ser Jesus, mais poderoso ele será, maior será o milagre!

“Mas Jesus ressuscitou e foi exaltado para a Glória de Deus Pai”, retrucais-me. Exaltado não como merecedor de um grande prêmio, não por cumprir um ritual de ser sacerdote e vítima para nos lavar dos pecados, mas sim por nos mostrar a essência do ser humano! “Heresia”, acusar-me-ão. Sacerdote, vítima de expiação, sacrifício: linguagem humana com a qual o Humano nos mostrou o que significa amar até o fim, até as últimas consequências. Perfeita metáfora simbólica ao judeu e à cultura da época, interpretada de maneira fundamentalista e anacrônica por aqueles progressistas que transformaram a mensagem da Boa Nova numa Glória ambiciosa de almejar os primeiros lugares, à direita e à direita! Santo veneno destilado que emana da inocência de discípulos corrompidos pelo progressismo capitalista. Jesus anunciou o Reino e nasceu a Igreja. Não a convocação, não o povo de Deus, não o corpo de Cristo, não a Esposa, mas sim a Rainha Gloriosa, revestida de honras, poderes e privilégios. Ambição. Sede de poder mais poderosa que o Deus Todo-Poderoso.     

O sonho americano! Terra prometida que mana Dólar Real. “Contemplem o Norte da América, batam continência à bandeira americana”, convidam-vos. América. Onde tudo funciona: baixo índice de (percepção de) corrupção, onde não há pobreza (apenas cerca 11,1% acomodados que não querem trabalhar...), não há violência e a polícia trata bandido como bandido (é certo que as vezes exagera um pouco na dose, mas isso não acontece com brancos).

“E por que o Brasil não conseguiu chegar a esse modelo tão perfeito?”, perguntais-me. Por causa dos comunistas. Sim. Comunistas que pregam o Estado – e não o Brasil – acima de tudo! Impostos terríveis para seus mandatários terem boa vida. Estatais: que engolem o dinheiro público, que nunca funcionaram com efetividade, que alimenta uma porção de vagabundos (com o perdão da palavra). Tudo isso com o imposto pago pelas pessoas de bem.

“Maldita distribuição de renda!”, gritam. “Justiça social?” – continuam – “Uma mentira, os comunistas querem mesmo é tomar seu dinheiro e exercer a tirania. Corruptos, ateus, diabólicos”. “Quanta ignorância de quem assim pensa”, digo. “-”, arregalais vossos olhos. Desde quando justa distribuição de renda, justiça social, erradicação da pobreza, igualdade de oportunidades, respeito a todos, valorização da cultura (“futebol não é cultura?”, indagais. Sim, mas é coisa de macho!), direitos básicos dos cidadãos – como saúde, educação e condições dignas para viver – sustentabilidade, preocupação com a crise climática global (acreditem, a crise é real), dentre outras preocupações legítimas, é ideologia? Notem: ideologia, e não ideologia.

“Direitos humanos, sustentabilidade, economia solidária, etc... Eis a ideologia. Eis o esquerdismo. Eis o comunismo!”, bradam-vos. Crise climática. Hoje a maior pedra no sapato do Tio Sam que passeia com seu sorriso de sobranceira “v” ao espalhar panfletos de fake news a seus inocentes sobrinhos.

Por que defender aquilo que chamais de dívida histórica para com os afrodescendentes? A escravidão acabou há anos, idiotas! Cotas? Onde está a liberdade e igualdade de oportunidades? Queremos concorrências justas”, argumentar-vos-ão aqueles que já não querem continuar a pagar pela educação de seus filhos na formação superior. Aqueles mesmos que querem a privatização das escolas, mas que se servem da Universidade Pública. Aqueles que tiveram a oportunidade de bem se formar, mas que temem serem passados para trás numa justa concorrência no Mercado de trabalho. Gritam, ainda, aqueles que trabalham duro, de segunda a quinta-feira, para administrar as riquezas justamente herdadas... Riquezas, talvez, oriundas do duro suor de escravos africanos.

Priorizar políticas de inclusão social, posicionar-se a favor dos direitos dos assalariados, defender o SUS, promover a liberdade religiosa, enfim, direitos básicos da dignidade da pessoa humana, atrapalham o Mercado, atrapalham o progresso, atrapalham a ordem. Não seriam esses tais direitos humanos que Jesus de Nazaré defendeu? “Agora a religião está se metendo na política!”, ironizo-os com suas próprias ironias. Não falo de política partidária, mas política em vista do bem comum – dos direitos fundamentais de cada cidadão.

Religião. Opa!, esta não se discute. Sim, não se discute porque é (ou deveria ser) uma forma de viver a espiritualidade, aquele sentimento oceânico de pertença a um todo muito maior no qual tudo está conectado e que dá sentido pleno à existência. Não se trata de torcida de futebol ou ideologias a serem defendidas. Entre religiões não deveria haver conflitos, e sim diálogo. Diálogo não formal, mas, estrutural, natural, espontâneo, boa convivência, respeito. Todavia, fazendo jus ao título deste artigo afirmo: Religião se discute! “Que contradição, que confuso...”, pensais.

Não. Entre religiões, diálogo. Mas religião – no singular – entendo que se discute! E, como diz o ditado popular “roupa suja se lava em casa”, eu, como cristão católico, convicto e Tradicional, reafirmo: religião se discute. A religião à qual pertenço em discussão entre meus irmãos católicos. É principalmente a estes que me dirijo. “Mas, por que então abrir a ‘discussão’ neste espaço público?”, perguntais-me.

Bom, chegamos ao tempo em que aquilo que estava escondido (seja por ignorância, seja por conveniência) está sendo “proclamado sobre os telhados”, como disse certa vez Jesus. O que discorro aqui não é novidade, não é polêmica ou escândalo ao público extra ecclesiam (mas o é para boa parte de meus irmãos católicos). E é por isso que entendo que a roupa suja deve ser lavada nesta Casa Comum. Todos, crentes e não crentes, cristãos e não-cristãos têm a mesma responsabilidade quando o assunto é a dignidade humana e o futuro da humanidade. “Olha a Campanha da Fraternidade aí...”, observais. Deixemos a Campanha da Fraternidade para outros delírios. Sigamos em frente.

Está na essência do batizado testemunhar Jesus e continuar sua obra (isso até os não religiosos sabem). Proclamar o evangelho (implícita e explicitamente) por todo o mundo. E, como cristão católico digo: se Jesus pediu-nos para testemunhá-lo mundo afora, pregar o evangelho a toda criatura (e acredito que quando se diz criatura não diz respeito somente aos humanos – e vale lembrar, Francisco (entenda-se como quiser) intuiu isso muito bem) o que se observa é o contrário, um tremendo contratestemunho.

Pobre Jesus de Nazaré! Os católicos, ao longo dos anos, deturpamos os ensinamentos do Humano que nos mostrou a face de Deus, Abá. Agora é o homem, ou melhor, o super-homem – com Vontade de Poder – sob a imagem progredida do Deus Todo-Poderoso que mostra ao Homem o seu lugar na criação: a Glória do Rei à direita (e não à esquerda) do Deus Onipotente, nos altos Céus – ou, gloriosamente sobre raios dourados de sol exaltado por santas mãos ungidas como uma bandeira de guerra (pois trata-se de uma eterna guerra espiritual contra forças ocultas) que serve para derrubar muralhas.

Roupa suja lavada na Casa Comum. Pois não há outra casa. “Esquerdismo, ecologismo, burrismo”, indignam-se. Pois bem, vamos lá, estou sendo fiel ao título deste artigo (exceto sobre o futebol... A essa altura já estais mais que convictos que o termo não aparecerá mais... perdoem-me os fanáticos do futebol).

Durante muitos anos (e muitos mesmo) a Igreja Católica não interferia na política. Igreja e política eram uma coisa só, muito próximo à religião e à política do tempo de Jesus. Como sou católico Tradicional, volto alguns séculos atrás para lembrar que o insignificante Nazareno condenou o poder político-religioso opressor (sim, opressor), que colocava pesados fardos sobre o povo. Fardos tão pesados que nem mesmo os dirigentes da nação conseguiam carregar.

Como um católico poderia fechar os olhos a qualquer poder opressor, mesmo que seja um poder religioso e cristão, apoiado pelo reverendo Tio Sam, um super-homem? (Infeliz Nietzsche! Acusam-no de fazer uma reviravolta de todos os valores, destruindo a metafísica (oh, Aristóteles!), desconstruindo a moral cristã e implantando o niilismo. Pobre Nietzsche, acusam-no de comunista só porque matou deus! Pobre Nietzsche, Santo Nietzsche, mártir da morte de deus. Plagiaram inocentemente seu espírito dionisíaco e apropriaram-se de sua vontade de poder. Ressuscitaram seu deus morto!)

Dir-me-eis, “mas você acabou de afirmar que durante muitos anos política e religião foram (pretérito perfeito) uma coisa só? Por que continua a misturar política e religião?”. Sim. No entanto, depois disso – da pseudosseparação entre política e religião (lembrando que falo aqui da Igreja Católica Apostólica Romana) – a Igreja reforçou sua eclesiologia enquanto Sociedade Perfeita, em oposição ao secularismo germinado no Século das Luzes. Eis a política eclesiástica!

Sociedade Perfeita. Mecanismo de defesa reforçado com couraça no Concílio Vaticano I. Momento de proclamação do dogma da infalibilidade papal. Depois surge o Estado do Vaticano e vem a Solenidade de Cristo Rei – “e viva Cristo Rei!”, entusiasmam-se. Reafirma-se que todo o mundo pagão deveria negar seus deuses (“por que não em maiúsculo?”, penso), suas culturas e costumes para se tornarem a Sociedade Perfeita. Mas, claro, sem violência (a não ser que seja justificável, como nas cruzadas, por exemplo). Pois – e aqui volto uns três séculos – já imaginaram a incivilidade dos índios da Terra de Santa Cruz, por exemplo, mostrando “suas vergonhas”, andando descalços, vivendo em casebres, cultuando entidades obscuras, forças malignas? Estavam todos danados e precisavam urgentemente da luz da fé e do sacramento do batismo, pois “fora da Igreja não há salvação” – dogma católico.

Mas, como venho dizendo, sou Tradicional. Como tal, retorno ao passado, à raiz da Igreja, e defendo que Jesus não quis mudar nenhuma cultura. Ainda que fosse judeu, ele não disse que os pagãos deveriam se converter ao judaísmo e que os homens precisavam se circuncidar – talvez porque acreditasse que fora do judaísmo também havia salvação. “-”, rides agora. Acho (e aqui se trata da minha reles opinião) que Jesus era até ecumênico e que sua ética independia de crença ou de cultura – mas talvez eu já caia aqui num Tradicionalismo, melhor parar no Tradicional... “Vish!”, exclamais.

Jesus não pertenceu a nenhum partido político de sua época. Por outro lado, ele tomou partido dos mais pobres e marginalizados da sociedade, ao passo que denunciou um sistema político-religioso excludente e opressivo (não tem como negar). Dir-me-ão: “então você está insinuando que Jesus era um militante de esquerda?”. Não, até porque posições políticas de esquerda ou direita vieram um pouco mais tarde, com a Revolução Francesa.

Como católico Tradicional lembro aqui que Jesus falou: dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Portanto, política é uma coisa e religião é outra, não se misturam – pelo menos quando o assunto é justificar um privilégio político pelo fato de ser religioso (não um simples religioso, mas alguém mais elevado, perto de Deus Todo-Poderoso, como é o caso dos progressistas que se esquecem que o Nazareno Jesus ensinou a buscar os últimos lugares e a lavar os pés uns dos outros. Ah!, esqueci que esse mesmo Jesus Cristo disse ‘quem se humilhar será exaltado’ e que o Reino de Deus – a Igreja – é como a semente de mostarda, que um dia será maior do que todas as hortaliças.... E devemos lembrar que a mensagem de Nosso Senhor Jesus Cristo também não é estática, ela se aprimora, se incultura no mundo que se desenvolve com a ordem e o progresso, inclusive. “Quanta besteira, pirou de vez”, pensais agora. “Jogos de linguagem, hipérboles, devaneios, ideias incompletas, frases longas e frases curtas...”, penso, “por que não?”).

Privilégios. Pois é. Jesus (isso é muito possível) foi tentado durante toda sua vida (quarenta dias no deserto, uma geração inteira – o simbolismo do número quarenta na Bíblia. Como alguém Tradicional, prefiro compreender as tentações de Jesus à luz da cultura e literatura judaica da época, pois o texto foi escrito no século I, e não na Idade Média, quando o símbolo do Diabo se transformou num ser dotado de razão e livre-arbítrio, e, por ser um anjo invejoso, se rebelou e quis se vingar dos seres humanos. Inveja. Os humanos conhecemos muito bem. Inveja angelical. Eis a causa de haver seres que sussurram nos ouvidos humanos ideias pecaminosas e, sabe-se lá por que cargas d’água vêm a possuir alguns corpos... Dir-vos-ão, “rezai e ocupai-vos, pois cabeça vazia é Oficina do Diabo”. Mas o assunto é outro, fecho parênteses, ponto).

Então Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem (e por ser verdadeiro Humano é que conhecemos a Deus, o Pai), sentiu-se tentado a se beneficiar dos seus privilégios de Filho de Deus (assim como muitos padres – e cabe ressaltar: “não chameis a ninguém de pai, pois um só é vosso Pai”, disse Jesus – sentem-se tentados a se beneficiar dos privilégios já adquiridos pelo progressismo da Igreja. Da Igreja Triunfante já aqui na terra, aquele grão de mostarda que cresceu e que busca ser a maior das hortaliças). Mas Jesus venceu as tentações, mostrando-nos a capacidade humana de amar imensamente.

Mas, o que isso tem a ver com hoje? O progressismo tentador na Igreja oculta a Tradição e progride a tradição sob a luz do santo espírito do egoísmo humano, disfarçado sob roupagens bonitas e até mesmo extravagantes. Saudosismo de um passado nunca vivido por seus defensores. Diante disso calam-se gradativamente as vozes dos ministros ordenados e gritam cada vez mais os leigos desordenados! Ignorância de ambas as partes.

O progressismo dos católicos no Brasil entende que os cristãos precisamos combater a ideologia (pois trata-se de um combate espiritual. Forças maléficas ocultas estão por toda a parte). “De fato, Paulo afirmou na carta aos Efésios que é contra forças espirituais espalhadas nos ares que temos de lutar”, dir-me-eis. Santo fundamentalismo! Aquele que mantém a Palavra de Deus estática. Aquele que engessa a liturgia. Aquele que mantém a mulher no seu devido lugar. Aquele que sustenta o capitalismo. Aquele que justifica a escravidão. Aquele que aprisiona consciências!

Resultado: nem todos os felizes convidados para ceia do Banquete do Cordeiro são dignos de sentar-se à mesa. Aliás, a mesa da eucaristia tornou-se exclusivamente o altar do santo sacrifício, símbolo do Calvário onde Jesus morre por nossos pecados a cada celebração eucarística. Santo sacrifício oferecido pelo sacerdote, e não pelo Sumo Sacerdote, uma vez por todas, conforme a carta aos Hebreus. Eucaristia: prêmio dos santos e condenação dos pecadores! Mas mesmo aqueles que estão em estado de graça cuidem para não serem condenados! Ai daquele que não se ajoelhar para receber a comunhão! Ai daquele ministro ordenado que se recusar a administrar a comunhão diretamente na boca!

“Pai, perdoa-os, eles não sabem o que fazem!”, expressá-lo-ia Jesus. Ainda bem que Deus tudo perdoa. Deus perdoa, todavia, a pena pelo pecado permanece, não esqueçamos. Mas não importa, Jesus entregou a Pedro o poder das chaves. Santas Indulgências Plenárias! Outrora vendida para a construção do Reino de Deus, por ora presenteada oportunamente aos católicos! Que seria da humanidade, imersa no pecado se a sabedoria dos Santos Pontífices não tivesse usado o poder das chaves! Viveríamos o inferno já na terra, com graves desigualdades sociais, violências, corrupção por toda parte, doenças, mudanças climáticas..., um verdadeiro vale de lágrimas. Lamentavelmente nem todos são cristãos – e cristãos católicos – para se livrar das consequências do pecado e salvarem suas almas. Talvez por isso nem mesmo as indulgências são suficientes para salvar o mundo de tantos males.

Felizmente temos pessoas de bem e representantes cristãos na política. Até mesmo um mandatário do norte da América... que não tem medo de falar de Deus e nem se envergonha de patriotizar Bíblias para serem vendidas. Temos muitos políticos cristãos no Brasil também. Mas os comunistas querem o ateísmo e os perseguem. Eis o combate espiritual, pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra o comunismo.

Pobre Francisco, profeta do fim do mundo! Até mesmo sua mensagem de esperança deste ano Jubilar ficou ofuscada e reduzida pela peregrinação a igrejas em busca de indulgências! Rituais mágicos para o povo febril que teme as penas de seus pecados. Pobres almas, nem sequer percebem que já sofrem as duras penas dos pecados alheios. Pobres pecadores, que assumem para si como castigo as consequências de um sistema opressor chamado capitalismo! Pobres ovelhas sem pastor!

Febre! Creio que não entenderão os mais febris. Mas vós, caros leitores, se chegaram até aqui é porque compreendeis que Dostoievski é mais que Crime e Castigo, diferentemente do que imaginam os terraplanistas fiéis a certo guru intelectual (que Deus o tenha) especialista em conhecimentos gerais.

Febre. Sou um homem febril e, na febridade da fascinante e maravilhosa vida que tenho – dom de Deus –, amante de Jesus de Nazaré, amante da Igreja Católica Apostólica Romana (sim, amo a Igreja), amante da natureza, enfim, de toda a criação, neste peregrinar da esperança espero que com meu delírio febril dostoievskiano possa pelo menos despertar em alguns leitores algum questionamento.

“Também temos febre?”, perguntais-me. Com isso já fico satisfeito.

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