Em 2015 cientistas do clima alertaram sobre chuvas mais intensas no Rio Grande do Sul

Situação de Canoas (RS) durante o fim de semana (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

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13 Mai 2024

O relatório “Brasil 2040: cenários e alternativas de adaptação à mudança do clima” foi publicado em 2015 e ignorado.

A reportagem é publicada por Observatório do Clima, 06-05-2023.

Uma das desgraças da crise climática é a maneira como ela modifica a própria linguagem. Além de termos novos incorporados ao léxico, como “microexplosão” e “ciclone-bomba”, expressões como “o estado inteiro está debaixo d’água” deixam de ser figura de linguagem. Nesta semana, todos os municípios do Rio Grande do Sul foram atingidos pela pior tempestade já registrada no estado, apenas oito meses depois da tragédia do Vale do Taquari, em setembro de 2023. Os gaúchos ainda contam seus mortos e tentam calcular os prejuízos enquanto Porto Alegre tem sua região central evacuada devido à cheia do rio Guaíba, que já passou dos 5 metros, um recorde histórico.

A causa próxima é a bolha de ar quente estacionada no Centro-Sul do Brasil, que levou a temperatura da cidade de São Paulo ao recorde histórico para o mês de maio. Ela impede que as frentes frias que atingem o Sul no outono avancem Brasil adentro, fazendo-as despejar toda a chuva no mesmo lugar. A causa última, claro, é o El Niño turbinado pela mudança do clima.

Mas os modelos climatológicos já previam há pelo menos uma década o aumento na precipitação da região Sul e do entorno da bacia do Prata. Todavia, ações de adaptação não foram adotadas. Ao contrário, como mostrou a Agência Pública, o governo gaúcho engavetou planos para lidar com a mudança do clima. E os parlamentares do estado têm se dedicado com afinco a desmontar a legislação ambiental do Brasil, o que retira ainda mais a resiliência do Rio Grande do Sul a choques climáticos que são, infelizmente, o novo normal.

A tragédia anunciada no Rio Grande do Sul

Mapas presentes no relatório publicado em 2015 mostram mais umidade no Sul (Foto: Divulgação)

A catástrofe que afoga o Rio Grande do Sul pela segunda vez em oito meses e que já é considerada a pior da história do estado poderia ser deduzida há uma década por quem prestasse atenção aos modelos climáticos. Em 2015, um estudo produzido pelo próprio governo federal afirmava que o sul da América do Sul, em especial a bacia do Prata, poderia ter chuvas mais intensas e por mais tempo, conforme o aquecimento global piorasse.

O governo parece não ter dado muita bola para o alerta. O “Brasil 2040: cenários e alternativas de adaptação à mudança do clima” foi divulgado sem alarde, após o então ministro Roberto Mangabeira Unger assumir a Secretaria de Assuntos Estratégicos e demitir a equipe responsável pela pesquisa. Hoje é difícil encontrar o documento on-line. É preciso recorrer a mecanismos como o Web Archive.

Eis o documento.

Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa e um das coordenadoras do estudo, conta que foram contratados três modelos climáticos globais, que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) regionalizou para o Brasil, num esforço inédito. Todos os modelos mostram um aumento da temperatura no país até o meio do século, que poderia chegar a 8ºC no pior cenário. Todos eles também indicaram um aumento na precipitação, tanto em volume quanto em duração, na região Sul, além de uma redução na média da vazão de rios no Norte.

“É muito seguro dizer que o governo federal não se preparou. A União tem uma responsabilidade”, diz Natalie. A crítica tem relação com a lentidão para a implementação de um plano de adaptação climática no país. “Sistema de alerta e previsão meteorológica não são adaptação. Adaptação é quando você vê que os extremos vão ficar mais extremos e você se prepara para esse novo clima. Isso [adaptação] está acontecendo pouco”, completa.

O que está ocorrendo no Rio Grande do Sul tem influência de vários fatores, mas a contribuição do aquecimento global está lá. “[Tem] os [fatores] meteorológicos, como bloqueio atmosférico, corredor de umidade vindo da Amazônia e o próprio El Niño. A questão é que provavelmente tudo foi potencializado pelo aquecimento global antropogênico. O oceano mais quente gera energia e combustível para eventos extremos de chuva”, explica Karina Bruno Lima, doutoranda em climatologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. As temperaturas da superfície do oceano têm batido recordes desde o ano passado.

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