Rússia, o silêncio do Papa e a iniciativa de Kirill

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27 Junho 2023

"Enquanto Putin mantiver o poder aquela 'sagrada aliança' continua sendo um ponto firme. Quase uma estrela guia tanto para o patriarcado quanto para o presidente".

O comentário é de Luigi Sandri, jornalista italiano, em artigo publicado por L'Adige, 26-06-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Silêncio absoluto do papa a respeito do dramático dia de sábado em Moscou, enquanto, ao contrário, o Patriarca Kirill, às 12h25 daquele dia, quando o resultado do "golpe" era bastante incerto, fez uma declaração de explícito apoio ao presidente Vladimir Putin e de condenação aos revoltosos. Duas atitudes muito diferentes, que nos levam a examinar a cena mais de perto.

Em 24 de junho, o silêncio "ensurdecedor" das fontes oficiais do Vaticano. E ontem? Francisco mais uma vez, no Angelus, implorou a Deus que concedesse o dom da paz "ao martirizado povo ucraniano", sem dizer uma palavra sobre os recentes acontecimentos na Rússia. Um sinal para mostrar que o Vaticano não quis se colocar como juiz dos conturbados acontecimentos que abalaram Moscou.

Pelo contrário, no sábado, o chefe da Igreja Russa não quis deixar de "tomar partido" entre o chefe do Kremlin e Evgheny Prigozhin, chefe dos mercenários do Grupo Wagner que na manhã daquele dia havia se prenunciado, de Rostov no Don, contra o presidente, ameaçando marchar com 25 mil soldados sobre a capital russa. O grupo deixou a cidade e rumou para o norte, sem encontrar nenhuma oposição. Mas quando, à noite, estava a duzentos quilômetros de Moscou, ele parou. "Não quero derramar sangue russo", disse o "chefe", que teria aceitado a mediação do presidente bielorrusso Aljaksandar Lukashenka.

O patriarca havia dito: “Hoje, os inimigos estão tentando com todas as suas forças destruir a Rússia”, mas, frisou, “qualquer tentativa de espalhar a discórdia dentro do país é um crime muito grande, que não tem justificativa. Como chefe da Igreja Ortodoxa Russa, exorto a mudar de ideia aqueles que, tendo empunhado uma arma, estão prontos para apontá-la para seus companheiros". E, portanto, “Apoio os esforços do Chefe do governo russo que visam não permitir revoltas no nosso país”.

Depois disso, convidou os crentes a rezar "para que Deus conceda paz e unidade à pátria"; para concluir: “Que o Senhor guarde a Rússia, o povo e o seu exército”. Essa tomada de posição assumida por Kirill é de extrema importância; e ela - deve-se notar - veio quando o resultado da revolta ainda não podia ser previsto.

Assim, o patriarca, correndo riscos, defendeu abertamente o presidente russo: honrou e fortaleceu o vínculo entre os líderes da Ortodoxia Russa e o Kremlin.

E enquanto Putin mantiver o poder (mas, após o fracasso – pelo menos por enquanto – da “Operação militar especial" na Ucrânia, não é certo que permanecerá estável por muito tempo) aquela "sagrada aliança” continua sendo um ponto firme. Quase uma estrela guia tanto para o patriarcado quanto para o presidente.

É um fato com o qual, gostemos ou não, o Vaticano tem de lidar; e o cardeal Matteo Zuppi, no mínimo, como mensageiro de boa vontade em nome de Bergoglio, se quiser ir a Moscou em breve, depois de já ter estado em Kiev no início de junho.

Mas Putin e Kirill ainda vão querer recebê-lo?

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