A OTAN está prestes a cruzar o Rubicão com os poloneses prontos a combater contra os russos. Artigo de Domenico Quirico

Foto: Daniel Stuben | Unsplash

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22 Junho 2023

"A nova etapa para a qual estamos nos aparelhando é a descida em campo de contingentes militares da OTAN ao lado do exército ucraniano para desbaratar as defesas inimigas nos territórios ocupados. E provocar - por que não?- a retirada russa. Na vanguarda desse infeliz desenvolvimento, revelado pela estupidez das palavras do ex-secretário da OTAN, o dinamarquês Rasmussen, é a Polônia", escreve Domenico Quirico, jornalista italiano, em artigo publicado por La Stampa, 21-06-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A realidade da guerra, o seu curso, num certo dia sofrem transformações que lembram aquelas da terra quando um terremoto sacode suas entranhas. O movimento é imperceptível a princípio, o sacudir de um lustre ou a queda isolada de um enfeite, mal se percebe, não se entende o que está acontecendo... é algo que não se pode ver e tocar mas, no entanto, está acontecendo. E mudará trágica e radicalmente a vida de milhões de homens, as nossas vidas de desavisados cidadãos de um século cegado por uma medíocre hipocrisia. Foi o que aconteceu, por exemplo, em 1914, quando um desconhecido estudante matou um herdeiro ao trono em Sarajevo. Pouco mais do que crônica policial. Em Londres continuou-se a tomar chá às cinco em todos os clubes, em Paris os Champs-Élysées estavam mais lotados do que nunca, em Berlim os outdoors dos espetáculos não sofreram nenhuma alteração.

A guerra na Ucrânia vem se arrastando, há um ano, em seu crescendo sorrateiro e imparável marcado por esses pequenos movimentos contínuos: o fornecimento de armas cada vez mais sofisticadas, os bombardeios de retaliação russos sobre as cidades, a acusação de Putin que legalmente impossibilitou qualquer negociação, a sabotagem de tímidas tentativas de mediação. Quase sem perceber cruzamos infinitos Rubicões imaginários, uma ação invisível e silenciosa, contra a qual parece não haver defesa, que os geólogos chamam de terremoto e os estrategistas chamam de guerra total, feroz e materialista, bem rematada de rancores e ódios. Mesmo que os mapas geográficos não tenham sido alterados e a linha do front ainda esteja lá, quase imóvel, depois de ser cortada e costurada inúmeras vezes por ofensivas e contraofensivas igualmente inúteis, você percebe que entrou em uma nova fase, maior e insidiosa, e você não poderá mais voltar atrás, mesmo que queira. De repente tudo se tornou incerto, como quando se começa a contar mentiras.

O novo salto na guerra não envolve a qualidade das armas a serem fornecidas à Ucrânia, por exemplo, os caças F16. Uma linha cruzada com a costumeira tática de contornar silenciosamente o que foi declarado oficialmente até um minuto antes como "não está na ordem do dia". A isso providenciam, após algumas adulações, os suprimentos voluntários de algum país da OTAN mais combativo. Afinal, não somos uma aliança democrática e entre iguais?

A nova etapa para a qual estamos nos aparelhando é a descida em campo de contingentes militares da OTAN ao lado do exército ucraniano para desbaratar as defesas inimigas nos territórios ocupados. E provocar - por que não?- a retirada russa. Na vanguarda desse infeliz desenvolvimento, revelado pela estupidez das palavras do ex-secretário da OTAN, o dinamarquês Rasmussen, é a Polônia. Varsóvia, que já tem muitos "voluntários" no campo de batalha nas chamadas brigadas internacionais, parece pronta para quebrar o frágil tabu da não-intervenção ocidental; em consonância com o papel de aliado de ferro dos estadunidenses no "limes" europeu que os governantes de Varsóvia assumiram naquele sangrento parque temático da guerra moderna em que a Ucrânia se tornou. Eles querem acertar as contas - como podemos esquecer? - pelas inúmeras feridas que o trogloditismo russo, czarista e stalinista, infligiu à Polônia nos últimos três séculos. Ventilam-se assim as gloriosas lembranças do Exército Vermelho fugindo diante da petulante cavalaria do marechal Pilsudski.

Existem também considerações políticas internas nessa determinação pró-ucraniana. Ser a ponta de lança na guerra contra a agressão russa é um passe inquebrantável para todas as acusações e dúvidas que a Comissão Europeia acumula sobre a política interna em tema de direitos do governo de Varsóvia. A guerra serve, e muito. Não apenas para o faturamento dos vendedores de armas de toda latitude e tamanho. E não só para os poloneses. O governo italiano de centro-direita também aproveita de um uso similar como certificado de boa conduta.

Aproxima-se, assim, a queda do medíocre fingimento da não-beligerância que até agora nos protegeu da consciência dos perigos dessa guerra. Apresentá-la com a máscara de iniciativa autônoma fora da OTAN deveria evitar, segundo seus idealizadores, desencadear o vinculante artigo 5º que empenha todos os aliados a uma guerra comum. Mais cedo ou mais tarde todos teremos que nos envolver na tragédia ucraniana, enquanto até agora acumulamos boas razões para não nos aproximarmos demais. A guerra ceifa agnósticos e dogmáticos.

O problema da falta de homens no front faz precipitar o inevitável. A ofensiva ucraniana talvez por ter sido em demasia anunciada como decisiva e imparável, é tão lenta que leva a mencionar entre os sucessos nos boletins de Kiev o avanço "de duzentos metros a um quilômetro"; e a apontar como conquista a ocupação de localidades que no mapa aparecem como um minúsculo grupo de habitações rurais. As armas se substituem, os homens "fins em si mesmos", como dizia Kant, infelizmente não. A certa altura é preciso contar as reservas, não as técnicas, mas as humanas. Os exércitos ocidentais dispõem de uma força que é tecnológica e organizacional. Aquele russo sempre mobilizou um poderio que se poderia definir como biológico, constituído de reservas humanas quase inesgotáveis. É uma matéria-prima que czares, vozd e Putin da mesma maneira jogam fora sem piedade

Em Vilnius, em algumas semanas, na cúpula da OTAN, serão tiradas as consequências dessa evolução do conflito. Se a Aliança não adotar medidas drásticas a favor de Kiev, marcharemos, ameaçam os defensores da intervenção.

As condições de vitória para alguns aliados da Ucrânia mudaram. Não mais defendê-la e preservar a sua integridade como no início da guerra, objetivo sobre o qual havia um consenso geral, embora morno. Para poloneses, bálticos, ingleses e Zelenski, vencer significa destruir o poderio militar russo, colocando-o fora de ação por muitos anos, com a consequente eliminação de Putin do cenário político.

A explosão do caos entre as Rússias teria sido positiva, embora apresente riscos. Em suma, um segundo 1989, mas não por metástase interna, mas por uma derrota militar.

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