14 Janeiro 2023
"Achei completamente inesperada a forma como o pontífice havia abordado o espinhoso tema e também fiquei imediatamente intrigada ao entender como, quando e onde, um prelado tão importante poderia ter adquirido a sabedoria com que o tratava. Justamente ele, um rígido alemão, não alguém mais conversador como seu antecessor polonês, Wojtyla", escreve Luciana Castellina, política e jornalista italiana, em artigo publicado por Il Manifesto, 06-01-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
A primeira encíclica. Enquanto preparava um livro coletivo sobre o tema do amor, descobri sua primeira encíclica onde o tema é abordado de forma inovadora. Eu não esperava isso do Pastor alemão.
Eu sempre fui (quase) fiel ao Manifesto, mesmo quando o jornal publicou como manchete "O pastor alemão" pela inesperada nomeação do Cardeal Ratzinger como papa. Porque partilhei de imediato o sentido da frase: um cão de guarda, como de fato havia sido, como prefeito da ortodoxia, a começar pela repressão da teologia da libertação.
Não sendo crente, nem vaticanista, não tive mais oportunidade de refletir sobre o personagem. E, no entanto, por puro acaso, anos depois, acabei cruzando com um de seus escritos que me levou a mitigar meu julgamento. Aconteceu quando minha editora Ginevra Bompiani (Nottetempo) decidiu publicar um livro cujo título era: "Lezioni d'amore". Cada um dos dez personagens bastante diferentes entre si tinham a tarefa de ilustrar uma das palavras que estão ligadas ao tema: ciúme, traição, desejo, sedução... A mim coube “paixão”.

Lezioni d'amore
Confesso que não sabia bem como realizar a tarefa que me havia sido atribuída e por isso comecei a divagar com o pensamento e, como se faz hoje quando não se sabe o que fazer, a zapear pela rede à procura de uma ideia. Que encontrei inesperadamente em um site do Vaticano. Tratava-se de uma encíclica, a primeira do novo papa e nada menos que sobre o amor (25 de dezembro de 2005).
Achei completamente inesperada a forma como o pontífice havia abordado o espinhoso tema e também fiquei imediatamente intrigada ao entender como, quando e onde, um prelado tão importante poderia ter adquirido a sabedoria com que o tratava. Justamente ele, um rígido alemão, não alguém mais conversador como seu antecessor polonês, Wojtyla.
Fiquei tão interessada que comecei o meu texto sobre a paixão falando justamente dessa encíclica. E agora, por ocasião do seu funeral, tive vontade de partilhá-la convosco: é bela e também irônica, uma característica totalmente inusitada para as encíclicas. Para além de um juízo global sobre seu pontificado, suas palavras sobre o eros me ofereceram uma imagem de Bento diferente do pastor alemão. Além disso, encontrei o meu mesmo espanto entre aqueles que ficaram conhecendo isso graças à minha "lição".
Que, aliás, não foi apenas uma parte do livro, mas também um recital teatral: o primeiro, em Roma, no Tor di Nona, o segundo, a convite de Elisabetta Sgarbi, em seu prestigiado festival literário: a "Milanesiana". Onde cada um de nós 10 autores leu o texto de sua lição do palco. (Foi assim que tive a oportunidade de me encontrar recitando ao lado de ninguém menos que Franca Valeri, e inclusive sobre uma Encíclica papal). Aqui está o trecho pontifício da minha palestra, um breve resumo do que realmente contém. (Aconselho, de toda forma, a leitura integral do texto. Vale a pena).
“A palavra amor – começa Bento XVI – abraça um vasto campo semântico, o amor à pátria, aos amigos, ao trabalho, ao próximo, a Deus, aos filhos e assim por diante. E, no entanto, em toda essa gama de significados, o amor entre o homem e a mulher, no qual corpo e alma concorrem indivisivelmente, sobressai de arquétipo do amor por excelência, de tal modo que, comparados com ele, à primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam”.
E então a pergunta, ainda do Papa: “Apesar da sua diversidade, todos esses tipos de amor se enquadram na categoria de amor ou, pelo contrário, utilizamos a mesma palavra para indicar realidades totalmente diferentes?” “Os gregos – continua o Papa – conheciam o eros. Depois veio a palavra philia/amizade e depois a palavra ágape. O Novo Testamento dos três tipos de amor assume apenas ágape, nunca usa eros”. Daí a crítica ao cristianismo, culpado de ter "envenenado o eros" e de tê-lo transformado em vício.
“O cristianismo – continua Bento XVI – disseram ao criticá-lo os Iluministas, com todos os seus mandamentos e proibições, nos torna amarga a coisa mais bela da vida. Mas será mesmo assim? – pergunta-se o Papa – “Não! O cristianismo destruiu verdadeiramente o eros? Não. Os gregos, mas toda a literatura antiga – veja-se também Virgílio - pensam no eros como uma "loucura divina" que arranca o homem de suas limitações e o faz experimentar a mais alta beatitude. Mas a partir dessa suposição depois escorregam para a aceitação, aliás, para a promoção, da ‘prostituição sagrada’ que permite a ‘loucura divina’. E é a isso que o cristianismo se opõe: fazer passar a chamada ‘loucura divina’ como aproximação a Deus, mesmo quando, para produzi-la, é usada a prostituição”. Ou seja, viver um momento de excitação que não é mais controlado pela razão, é aliás libertação do controle, enfim, aquele que nós leigos chamamos de "gozo sexual".
É assim que, segundo Bento, partindo desse pressuposto, os gregos acabaram por aceitar a promoção da “prostituição sagrada”, como meio que permite a “loucura divina”, uma forma de mascarar o seu recurso. “E é a essa loucura que a Igreja se opõe, não ao eros. A Igreja declarou guerra à distorção destrutiva de eros, ao abuso das prostitutas". “Nós – diz Ratzinger – somos a favor de um eros que não dá o prazer de um instante, mas um prazer maduro. Mas o eros permanece porque o homem só é verdadeiramente humano se o corpo e a alma se encontrarem. De fato, o homem não é só alma nem só corpo”.
E então Ratzinger se torna espirituoso e ironicamente fala do epicurista Gassendi que, gracejando, vira-se para Descartes e o sauda "Ó alma”; e ele responde “Ó carne”.
Não vou continuar com a encíclica porque é muito longa, mas vocês têm que admitir que nunca teriam atribuído essas palavras ao pastor alemão.
No final, é claro, na Encíclica se encontra a família monogâmica, a procriação obrigatória e assim por diante. E, no entanto, acredito que a conclusão não seja tão errada quando Bento afirma:
"O amor não é apenas um sentimento. Os sentimentos vão e vêm. O sentimento pode ser uma maravilhosa centelha inicial, mas não é a totalidade do amor e da paixão". O que é algo muito mais complexo e interessante.
Fim da aula de religião.
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