Adeus a Ratzinger, homem manso e papa rígido, amado pela direita

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09 Janeiro 2023

Que Joseph Aloisius Ratzinger, Papa Bento XVI, descanse em paz. Os comentários dos jornais italianos sublinharam, acima de tudo, o traço manso de seu caráter, que o levou até à “grande recusa”, à renúncia à Sé de Pedro. Os jornais de direita – Il Foglio em primeira fila – o celebraram com a indiferente esquizofrenia dos ateus que querem ensinar os papas a serem papas.

O comentário é de Gianni Barbacetto, jornalista italiano, publicado em Il Fatto Quotidiano, 06-01-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ratzinger, “o pastor alemão” de uma sublime velha manchete do jornal Il Manifesto, agradava à direita. Pelo fato de manter firmes, contra a secularização, os valores da Cristandade como único, absoluto, indiscutível princípio fundador, em um mundo em que a Cristandade, na verdade, é um Ocidente secularizado e sitiado em um planeta multicêntrico. Uma Cristandade já sem Evangelho, esquecido em nome do poder.

O que resta é o controle da vida e dos corpos, aborto, homossexualidade, fim da vida, eutanásia, escolas particulares e institutos católicos. A Cruz “escândalo e loucura” de Paulo é substituída pela Cruz de Constantino, que se faz Estado e poder.

É isso que em Ratzinger agrada (e serve) para seus defensores na desesperada busca de um sinal (“In hoc signo…”) que mantenha unido um Ocidente velho, rico, assustado, sitiado.

Mas o que ele, Ratzinger, era senão um homem manso, afável e irônico? Um teólogo que havia rejeitado as tentações juvenis de um pensamento que questionava a Igreja e Deus no mundo moderno, o pensamento de Hans Küng, mas também de Karl Rahner, de Edward Schillebeeckx, de Hans Urs von Balthasar. Que, depois, havia condenado duramente a Teologia da Libertação.

Diante de um mundo e de um pensamento que perderam o centro e o fundamento, Ratzinger reagiu à desorientação erguendo como barreira as certezas de sua rejeição ao relativismo. Não foi um grande pensador, segundo Umberto Eco: “Não creio que Bento XVI seja um grande filósofo nem um grande teólogo, ainda que geralmente seja representado como tal. Suas polêmicas, sua luta contra o relativismo são, a meu ver, simplesmente muito grosseiras. Nem mesmo um estudante do ensino obrigatório as formularia como ele. Sua formação filosófica é extremamente fraca”.

O relativismo que ele indica como o inimigo diabólico com o qual não se deve compactuar não é outro senão o Iluminismo e toda a cultura (e história) que dele derivou até hoje. A isso ele contrapõe uma “Razão” que é razão teológica, Palavra definitiva, Verdade absoluta. Codificada nos conceitos da teologia cristã destilados entre os séculos III e V, quando o cristianismo desposou a filosofia grega ou, melhor, o neoplatonismo e deu origem a uma doutrina (depois protegida e imposta pelo imperador) que teria sido totalmente incompreensível para os primeiros cristãos e para os próprios apóstolos.

Assim, uma visão cultural entre tantas tornou-se a Única, erigida como Palavra definitiva contra o relativismo. Ratzinger esquece Grotius (“Etsi Deus non daretur”) e torna-se o guardião da ortodoxia (“Veluti si Deus daretur”, no rastro de Pascal). Foi escolhido pelo Papa Wojtyla para liderar o ex-Santo Ofício durante os anos em que João Paulo II trabalhava para deflagrar o já moribundo bloco soviético. Paradoxos da história: o resultado será aquele Putin que hoje agita contra o Ocidente corrupto e secularizado o mesmo apelo aos Valores eternos da Tradição; a da verdadeira Ortodoxia, anterior ao cisma do Oriente.

Depois, o prefeito Ratzinger tornou-se papa, e a luta contra o relativismo, uma figura de um papado intransigente ao afirmar que só há uma salvação, a da Igreja Católica Romana, e que não se pode dizer o Evangelho com palavras diferentes das do neoplatonismo atualizado no máximo até Santo Agostinho.

Agora, o homem manso com uma mensagem rígida vai embora em meio aos aplausos de uma direita secularizada e relativista que finge não ver a contradição incurável contida em seus próprios aplausos.

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