Vamos ao encontro de nossa própria destruição? Artigo de Leonardo Boff

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05 Dezembro 2022

"A ausência do sentimento de pertença a um Todo maior, o descaso das teias de relações que ligam todos os seres, tornou-nos desenraizados e mergulhados numa profunda solidão. Somos possuídos por um sentimento de que estamos sós no universo e perdidos, coisa que uma visão integradora do mundo, que existia anteriormente, o impedia", escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor. 

Eis o artigo. 

A história do ser humano na Terra, em grande parte, se resume a um permanente conflito contra o ambiente. Esse processo foi levado tão longe que o ser humano moderno moveu uma verdadeira guerra contra a Terra em todas as suas frentes: no solo, no subsolo, no ar e no mar, sempre na perspectiva de saquear e extrair mais e mais vantagens. Fala-se, em círculos científicos, que a ação humana sobre a Terra como um todo fundou uma nova era geológica, o antropoceno. Significa: os danos à natureza não vêm de fora, mas da própria ação pensada e orquestrada do ser humano no seu afã de extrair mais e mais benesses para sua vida. Tal fato teve como consequência o desequilíbrio do planeta que reage, enviando-nos mais calor, eventos extremos como enchentes, tufões e secas, além de uma gama crescente de vírus, muitos deles letais como o coronavírus.

O fato é que se perdeu a perspectiva do Todo. Ficou-se somente com a parte. Ocorreu uma verdadeira fragmentação e atomização da realidade e dos respectivos saberes. Sabe-se cada vez mais sobre cada vez menos. Tal fato possui suas vantagens, mas também seus limites. As vantagens, especialmente, na medicina que conseguiu identificar os vários tipos de enfermidades e como tratá-las. Mas importa recordar que a realidade não é fragmentada. Por isso, os saberes sobre ela também não podem ser fragmentados.

Dito figurativamente: a atenção se concentrou nas árvores, consideradas em si mesmas, perdendo-se a visão global da floresta. Pior ainda, deixou-se de considerar as relações de interdependência que as coisas guardam entre si. Elas não estão jogadas aí a esmo, uma ao lado da outra sem as necessárias conexões entre elas que lhes permitem, solidariamente, viver, se autoajudar e juntas evoluir.

Vejamos as árvores: elas possuem uma linguagem própria, diversa da nossa, fundada na emissão de sons. Elas falam mediante odores que emitem e a produção de toxinas que enviam para as outras. Entre as iguais, estabelecem relações de reciprocidade e colaboração. Com outras diversas, não raro, fazem verdadeiras batalhas químicas, no afã de cada uma ter mais acesso à luz do sol ou a nutrientes do solo. Mas sempre é feito sem excesso, numa medida justa de tal forma que o conjunto das árvores forma uma rica e diversa floresta.

No caso humano, perdemos este equilíbrio e a justa medida: erodiu-se aquela corrente que relaciona todos com todos, chamada de Matriz Relacional. Desconsiderou-se a vastíssima rede de relações e de interconexões que envolvem o próprio universo e todos os seres existentes. Nada existe fora da relação. Tudo está relacionado com tudo em todas as circunstâncias. Essa é a realidade de todas as coisas existentes, no universo e na Terra, das galáxias mais distantes à nossa Lua, até as ervas silvestres. Elas têm seu lugar e sua função no Todo.

Numa elegante formulação do Papa Francisco, na encíclica Laudato sì': sobre o cuidado da Casa Comum (2015), é afirmado:

“Tudo está relacionado e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos, como irmãos e irmãs, numa peregrinação maravilhosa que nos une com terna afeição, ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio e à irmã e Mãe Terra... o Sol e Lua, o cedro e a florzinha, a águia e o pardal só coexistem na dependência uma das outras para se completarem mutuamente no serviço uma das outras.” (n. 92; 86)

Se realmente todos estamos entrelaçados, então devemos concluir que o modo de produção capitalista, individualista, visando o maior lucro possível à custa da exploração da força de trabalho e da inteligência humana, e especialmente das riquezas naturais, sem se dar conta das relações existentes entre todas as realidades, poluindo o ar, contaminando as águas e envenenando os solos com pesticidas, está na contramão da lógica da natureza e do próprio universo que ligam e religam tudo com tudo, constituindo o esplendoroso grande Todo.

A Terra nos criou um lugar amigável para viver, mas nós não estamos nos mostrando amigáveis para com ela. Ao contrário, a agredimos sem parar a ponto de ela não aguentar mais e começar a reagir, numa espécie de contra-ataque. Este é o significado maior da intrusão de toda uma gama dos vírus, especialmente o coronavírus. De cuidadores da natureza (Gênesis 2,15), nos fizemos em seu Satã ameaçador.

Até o advento da modernidade entre os séculos XVII e XVIII, a humanidade se entendia normalmente com parte da Mãe Terra e de um cosmos vivente e cheio de propósito. Percebia-se ligado ao Todo. Agora a Mãe Terra foi transformada num armazém de recursos e num baú cheio de bens naturais a serem explorados. Nessa compreensão que acabou por se impor, as coisas e os seres humanos estão desconectados entre si, cada qual seguindo um curso individual.

A ausência do sentimento de pertença a um Todo maior, o descaso das teias de relações que ligam todos os seres, tornou-nos desenraizados e mergulhados numa profunda solidão. Somos possuídos por um sentimento de que estamos sós no universo e perdidos, coisa que uma visão integradora do mundo, que existia anteriormente, o impedia. Hoje, nos damos conta de que devemos estabelecer um laço de afetividade para com a natureza e para com os seus diversos seres vivos e inerte, pois possuímos a mesmo código genético de base, portanto, somos irmãos e irmãs (árvores, animais mas também montanhas, lagos e rios). Se não colocarmos coração em nossa relação – daí a razão cordial –, dificilmente salvaremos a diversidade da vida e a própria vitalidade da Mãe Terra.

Por que fizemos esta inversão de rumo? Não será uma única causa, mas um complexo delas. Mas a mais importante e danosa foi ter abandonado a Matriz Relacional. Vale dizer, a percepção da teia de relações que entrelaçam todos os seres. Ela nos conferia a sensação de sermos parte de um Todo, de que estávamos inseridos na natureza como parte dela e não simplesmente como seus usuários e com interesses meramente utilitaristas. Perdemos a capacidade de encantamento pela grandeza da criação, de reverência face ao céu estrelado e de respeito por todo tipo de vida. Caso não mudarmos, poderá se realizar o que o Papa Francisco advertiu na encíclica Fratelli tutti: "Estamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva" (n. 32). Não somos chamados a ser os agentes de nossa própria destruição, mas a ser a melhor floração do processo cosmogênico.

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