A laicidade eucarística da vida. Artigo de Marcelo Barros

Foto: Arquidocese de Belo Horizonte/Divulgação

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23 Março 2020

"Não estamos mais no começo do Cristianismo, nem podemos voltar ao tempo das Igrejas domésticas. Em todo o Novo Testamento, percebemos que as comunidades cristãs do primeiro século ainda viviam reuniões mais informais e os seus cultos, embora inspirados na sinagoga (portanto centrados na Palavra) eram mais livres. Os ministérios ordenados ainda não eram muito definidos e a diferença única que havia na comunidade era entre quem era batizado e quem não era", escreve Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo, 23-03-2020.

Eis o artigo.

Celebrar é dimensão fundamental da vida. Nesse sentido, todos podemos concordar com Enzo Bianchi, teólogo e fundador da Comunidade de Bose, na Itália, quando afirma que “os sacramentos são coisas decisivas e não supérfluas para nós, cristãos”. Em sua entrevista “As Igrejas não devem ser fechadas” (traduzida e publicada pelo IHU – 17/ 03/ 2020), Enzo Bianchi critica a conferência dos bispos católicos da Itália por ter determinado a suspensão de celebrações e mandado fechar as Igrejas para atos públicos em todo o país. Sem dúvida, a preocupação de Bianchi é que as igrejas possam ser sempre locais de acolhida, de apoio às pessoas angustiadas e a fé possa ser força nesse momento de crise. O papa Francisco também tem insistido que o isolamento preventivo contra o vírus não nos leve ao isolamento afetivo e indiferente aos outros. E nesse caminho de amor, os sacramentos, principalmente a eucaristia, têm um papel essencial.

Conforme o livro das Atas dos Mártires, literatura do século III, o imperador Diocleciano escreveu aos cristãos de Abilene (no norte da África) que concedia à comunidade ser cristã, desde que renunciasse a celebrar as vigílias do domingo. A resposta dos mártires de Abilene foi: “Sem o ofício do Senhor (a eucaristia celebrada na vigília), não podemos viver!”. É isso que me vem ao coração, quando penso em uma situação na qual não possamos celebrar a Vigília Pascal. No entanto, essa reflexão pode ter diversas nuances. Os sacramentos são necessários e não supérfluos, mas é preciso pensar qual o nível de necessidade e quais são esses sacramentos indispensáveis para situações de emergência como essa. A própria natureza do sacramento deve nos prevenir contra o risco de trocar sacramento (sinal mesmo que seja sinal eficaz) pela realidade.

Do mesmo modo, como a prevenção do vírus não descarta o amor, mas pede cuidado com expressões como o abraço e o beijo, os cristãos podem renunciar por um momento a celebrações dos sacramentos, sem abrir mão do amor solidário e da comunhão que eles significam. Talvez, em momentos como esse, nos fosse necessário descobrirmos sinais sacramentais mais apropriados para tempos de diáspora forçada e isolamentos preventivos. Por outro lado, qualquer critério a ser seguido em uma situação como essa tem de partir dos mais vulneráveis e das comunidades espalhadas pelas margens dos rios e pelo interior do país. Muitas pessoas, com vírus ou sem vírus, não têm eucaristia no domingo porque não tem padre ordenado para lhes ministrar o sagrado. E vamos ser sinceros, do modo como hoje é concebida e praticada, a liturgia dos sacramentos depende dos padres. E a missa só pode ser feita conforme regras litúrgicas que para muitos padres valem mais do que o evangelho de Jesus. É a esse modelo de sacramentos e celebração que Enzo Bianchi alude quando afirma que são necessários e a Igreja não deveria privar os fieis dessas celebrações. Mal comparando, no Brasil, segundo a imprensa, essa tem sido a posição de pastores como Silas Malafaia: vamos continuar os cultos normalmente.

Na Igreja Católica e em outras confissões, vivemos um modelo de Igreja ainda Cristandade, organizada em paróquias, centralizadas em dioceses. É nesse modelo que são feitas as leis e normas para esse tempo de crise. É para esse modelo que o papa Francisco tem insistido que, com o cuidado devido e principalmente sem aglomerações, os padres não deixem de acompanhar as pessoas e sejam asseguradas as possibilidades de absolvição e comunhão eucarística aos que precisam. Mesmo estando de acordo com essas orientações, podemos nos perguntar se o vírus que tem exposto a fragilidade dessa forma de organizar o mundo também não possibilitaria às Igrejas uma revisão mais profunda de sua organização.

Não estamos mais no começo do Cristianismo, nem podemos voltar ao tempo das Igrejas domésticas. Em todo o Novo Testamento, percebemos que as comunidades cristãs do primeiro século ainda viviam reuniões mais informais e os seus cultos, embora inspirados na sinagoga (portanto centrados na Palavra) eram mais livres. Os ministérios ordenados ainda não eram muito definidos e a diferença única que havia na comunidade era entre quem era batizado e quem não era.

Hoje, somos convidados/as a encontrar saídas para além do clericalismo e do modelo eclesiástico de Cristandade. Nas vésperas da celebração anual da Páscoa, fica o desafio para superarmos uma compreensão sacrificial da morte de Jesus. Nesse momento de crise e de medo justificado, apelar para rezar terços e pedir a Deus ou a Nossa Senhora que nos poupem do pior é imaginar que Ele ou ela tenham alguma culpa nessa história e que se os adularmos, quem sabe, terão piedade de nós.

Com vírus ou sem vírus, precisamos de uma espiritualidade na qual a ceia de Jesus e a oferta que ele fez de sua vida através da comunhão dos irmãos e da partilha do pão e do vinho não sejam apenas uma cerimônia litúrgica, restrita aos ambientes eclesiásticos e presidida por ministros ordenados. É preciso que a eucaristia se torne um paradigma de vida que toma dimensões de partilha e ação de graças permanente. Eucaristicizar toda a vida e nossas atividades terá expressões laicais, como foi a ceia de Jesus que não era sacerdote e, conforme muitos exegetas, celebrou a sua última ceia pascal, em lugar não litúrgico (em uma sala alta da casa de um amigo) e fora do dia correto, antecipando a Páscoa que, conforme o quarto evangelho, era o sábado. Tomara que não seja necessário ser o coronavírus que nos obrigue a essa conversão evangélica.

 

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