Deixamos que seu olhar transforma nosso modo de ver? Comentário de Ana Casarotti

Foto: Canva

13 Março 2026

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 9,1-41 que corresponde ao 4° Domingo de Quaresma, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.

Naquele tempo, ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. Os discípulos perguntaram a Jesus: "Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?" Jesus respondeu: "Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele. É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo". Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. E disse-lhe: "Vai lavar-te na piscina de Siloé" (que quer dizer: Enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando. Os vizinhos e os que costumavam ver o cego - pois ele era mendigo - diziam: "Não é aquele que ficava pedindo esmola?" Uns diziam: "Sim, é ele!" Outros afirmavam: "Não é ele, mas alguém parecido com ele". Ele, porém, dizia: "Sou eu mesmo!" Então lhe perguntaram: "Como é que se abriram os teus olhos?" Ele respondeu: "Aquele homem chamado Jesus fez lama, colocou-a nos meus olhos e disse-me: 'Vai a Siloé e lava-te'. Então fui, lavei-me e comecei a ver". Perguntaram-lhe: "Onde está ele?" Respondeu: "Não sei" (João 9,1-12).

Leitura do texto completo Evangelho de São João 9, 1- 41.

Este quarto domingo da Quaresma, chamado Domingo da Alegria, começa com a antífona de entrada que reza: “Alegrem-se com Jerusalém, façam festa com ela, todos os que a amam” (Isaias 66,10). Embora a Quaresma seja um tempo que nos convida a nos tornarmos mais semelhantes a Cristo, e para isso nos anima a ouvir melhor a sua palavra, a purificar nossos sentidos para sermos mais livres no ser e no agir, ela também nos chama a manter sempre vivo o horizonte da Alegria da Páscoa. Como diz São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia e também é vazia a fé que vocês têm” (1 Cor 15,14). O nosso ser cristão nasce na morte e ressurreição de Cristo, pois a Ressurreição de Cristo fundamenta a nossa esperança e dá sentido a toda a nossa vida.

O evangelho deste domingo nos apresenta o caminho para ver e acreditar em Jesus. E o faz na pessoa de um cego de nascença que “Jesus vê ao passar” e com quem ele estabelece uma relação que nasce do olhar de Jesus para este cego, que responde às suas palavras fazendo o que ele lhe diz. Ações que são realizadas sob o “olhar” de diferentes grupos de pessoas que opinam sobre sua cegueira, que dialogam com ele e que finalmente acabam expulsando-o da sinagoga porque ele dá testemunho do que Jesus fez com ele e não entra em sua “lógica”, religiosa ou social, que agora ele pode “ver”.

“Jesus viu um homem cego de nascença”

Este “ver” de Jesus desencadeia uma série de diálogos onde se usará o mesmo verbo através de diferentes “olhares”. Os discípulos percebem este olhar de Jesus e lhe fazem uma pergunta fundamental: "Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?"

A resposta de Jesus é clara e dá sentido ao sinal relatado neste texto: "Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele”. O sofrimento não é consequência de um mal cometido, do próprio pecado ou de outros, mas é uma realidade que faz parte da vida de toda pessoa e Jesus nos ensinará a assumi-lo e dar-lhe um sentido transcendente. Ele não o faz desaparecer, mas nos oferece um novo olhar que nos recria e nos enche de vida. Jesus havia dito: “Eu sou a luz do mundo.

Quem me segue não andará nas trevas, mas possuirá a luz da vida” (João 8,12) e, neste relato, fundamenta e desenvolve essa proclamação apresentando o caminho que percorre quem quer ver, ou seja, quem deseja ser discípulo de Jesus.

É um relato que mais uma vez volta a cativar nosso encanto pela maravilhosa capacidade da comunidade joanina de descrever todo esse processo que começa com o símbolo de uma nova criação, quando Jesus faz lama e cospe na terra para untar os olhos do cego. Neste domingo, vamos nos concentrar especialmente nos momentos em que se destaca a ação de ver, que se apresenta de diferentes maneiras e com diferentes sujeitos e que culmina com as palavras de Jesus: "Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo".

“O cego foi, lavou-se e voltou enxergando”

O cego obedece às palavras de Jesus e volta a ver. A partir desse momento, ele contará várias vezes essa ação: “fui, lavei-me e comecei a ver". O evangelho não descreve alegria diante dessa realidade, mas opiniões, olhares, críticas, perguntas e até questionamentos sobre sua cegueira de nascença.

“Os vizinhos e os que costumavam ver o cego”. Eles são os primeiros a aparecer. Estavam acostumados a “ver” esse cego pedindo esmolas, fazia parte da “paisagem”. Eles o “veem”, mas com um olhar confortável, que não os incomoda, nem questiona sua presença. É o grupo de pessoas que observa e opina. Parece ser um grupo passivo, que observa, mas não se compromete. Eles discutem, opinam, divergem entre si sobre o que aconteceu ao cego, mas nenhum deles se alegra porque agora ele pode ver. Esse grupo, “os que costumavam vê-lo”, tem um olhar frio, acostumado, e se preocupa quando algo do que “veem” muda esse ambiente habitual. Chegam a duvidar da sua identidade: é alguém que se parece com ele e perguntam-lhe: “Como é que se abriram os teus olhos?” A resposta é tão simples quanto clara: "Aquele homem chamado Jesus fez lama, colocou-a nos meus olhos e disse-me: 'Vai a Siloé e lava-te'. Então fui, lavei-me e comecei a ver".

Ele é levado diante dos fariseus e interrogado sobre como “como tinha recuperado a vista” e sua resposta é novamente a mesma: “Colocou lama sobre meus olhos, fui lavar-me e agora vejo!” Diante das perguntas e questionamentos que recebe, o homem que era cego se posiciona definindo Jesus como um profeta. Ele pode ver e seu olhar reconhece Jesus, a quem “obedeceu”, de quem experimentou a proximidade e lhe deu a possibilidade de ver, mas também percebe que isso gera desconforto a tal ponto que questionam sua identidade: “os judeus não acreditaram que ele tinha sido cego e que tinha recuperado a vista”.

Ele é levado diante de seus pais com a pergunta latente: “Como é que ele agora está enxergando?” É o grupo mais próximo, que compartilhou a vida com ele, que gerou perguntas e olhares externos sobre o motivo de sua cegueira, que possivelmente trouxe muitos problemas porque “era cego”, ou seja, sinal de um castigo divino e do qual, possivelmente, se separaram e por isso ele tinha que pedir esmolas. Eles são interrogados como se fossem criminosos e o cego agora “vê” seus pais e ouve sua resposta: "Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego. Como agora está enxergando, isso não sabemos. E quem lhe abriu os olhos também não sabemos. Eles não podem duvidar de sua cegueira, mas não se atrevem a dizer o que aconteceu com seu filho: que agora ele vê. Eles reconhecem que ele “vê”, mas não se atrevem a dizer o que aconteceu.

O “homem que que tinha sido cego” como é descrito no evangelho, é submetido a um novo interrogatório por parte dos judeus, mas agora é interrogado sobre “aquele homem”, sobre quem lhe deu a visão. Mais uma vez, ele relatará o que Jesus fez nele e como lhe devolveu a visão: : "Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo". Ele relata novamente sua experiência e até os convida a se tornarem discípulos “esse homem”.

O reconhecimento do que aconteceu com ele, da mudança que Jesus fez em sua vida, leva o homem que “nasceu cego” a ser expulso da sinagoga. Nessa jornada, esse homem recuperou a visão e agora dará o nome daquele que lhe devolveu a visão. O texto nos diz que: “Jesus soube que o tinham expulsado. Encontrando-o, perguntou-lhe: "Acreditas no Filho do Homem?" Respondeu ele: "Quem é, Senhor, para que eu creia nele?" Jesus disse: "Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo". Jesus volta a encontrá-lo para confirmar sua fé e para que ele saiba reconhecer sua palavra.

Acompanhamos o homem que recuperou a visão quando é observado, questionado, interpretado, julgado até ser expulso da sinagoga. Agora, seu diálogo é diante de Jesus, que o ajuda a reconhecê-lo, a dar voz e nome àquele que lhe devolveu a visão: você está vendo!

Observamos assim o processo progressivo de reconhecimento pelo qual passa o cego: o homem chamado Jesus, depois será um profeta, mais tarde dirá que é aquele que vem de Deus, o filho do homem e, finalmente, o Messias!

Deixamos em aberto a pergunta: como reconhecemos Jesus?

Colocando-nos no lugar do cego, nos perguntamos: recebemos o olhar de Jesus e ouvimos suas palavras?

Colocando-nos no lugar do cego, perguntamo-nos: recebemos o olhar de Jesus e ouvimos as suas palavras? Então, agimos como Ele nos pede e mantemos essa atitude diante daqueles que nos criticam, nos questionam, tentam desfigurar a nossa identidade? Acreditamos realmente nele como o Messias e deixamos que o seu olhar transforme o nosso?

Oração

Olhar-me desde Ti

Olha-me tu, Jesus de Nazaré
que eu sinta pousar-se sobre mim
teu olhar livre,
sem escravidão de sinagoga,
sem exigência que me ignorem,
sem a distância que congela,
sem a cobiça que me compre.

Que teu olhar se pouse
em meus sentidos,
e se filtre até os desvãos
inacessíveis onde te espera
meu eu desconhecido
semeado por ti desde meu início
e germine meu futuro
rompendo em silêncio
com o verde de suas folhas
a terra machucada que me sepulta
e que me nutre.

Deixa-me entrar dentro de ti,
para olhar-me desde ti,
e sentir que se dissolvem
tantos olhares
próprios e alheios
que me deformam e me rompem.

Benjamim Gonzalez Buelta

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