20 Dezembro 2019
Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana - ESTEF: Dr. Bruno Glaab, Me. Carlos Rodrigo Dutra, Dr. Humberto Maiztegui e Me. Rita de Cácia Ló. Edição: Dr. Vanildo Luiz Zugno.
Evangelho: Mt 1,18-24
Primeira Leitura: Is 7,10-14
Segunda Leitura: Rm 1,1-7
Salmo: 23,1-6
Mt 1,18-24 está no Prólogo deste Evangelho. Embora existam diferentes interpretações da extensão deste prólogo (incluindo apenas os primeiros dois capítulos ou indo até 4,16), não cabe dúvida de que Mt 1-2 é uma unidade. O texto é uma inclusão da comunidade de Mateus que, se acredita, venha da memória ou tradição oral, isto é, da preservação da memória comunitária que proclamou a identidade de Jesus como “Cristo” (Mt 1,1 e 1,18). Outro paralelo importante entre a perícope deste domingo e a genealogia com que abre o Evangelho (1,1-17) está no uso do substantivo genesis (origem), autorizando a interpretar um texto à luz do outro.
Este texto mostra como a comunidade de Mateus – formada por sobreviventes da repressão romana contra a revolta judaica de 70 d.C, em Jerusalém - preocupa-se em afirmar que Jesus cumpre as profecias do Primeiro Testamento e que dá um novo sentido à lei (Toráh), o que alguns comentaristas qualificam como um “novo Moisés”.
- O texto apresenta uma estrutura em que estas dimensões estão bem evidentes, colocando Maria e sua gravidez como centro, a partir do que tudo é transformado:
1,18 - Título e contexto existencial e legal em que se apresenta a gravidez de Maria e sua relação com José. - 1,19-20a - Apresentação de José - apontando para sua descendência davídica que é importante no sentido do cumprimento da profecia - e o qualifica como “homem justo”, demonstrado isto na forma digna com que pretendia resolver o problema.
- 1,20b-21 - Apresentação da situação de Maria em sonho, aludindo ao espírito profético transcendental - isto é, além do mero cumprimento da lei - que envolve sua gravidez e o futuro nascimento de Jesus, pela ação do Espírito Santo.
b1. 1,22-23 - O cumprimento da profecia, seguindo a fórmula “como disse o profeta” (tou profetou legontos) igual que como o faz em 2,15.17; 3,3;4,14;8,17;12,17;13,35;21,4;27,9.
c1. 1,24-25 - Novo contexto marcado pelo cumprimento da profecia de Jesus.
A estrutura tem como centro 1,20b-21. A ação divina tem por finalidade vencer o medo, usando a fórmula “não temas” (cf. Mt 10,26, “portanto, não tenhais medo deles”).
A mudança de atitude, da situação de exclusão para o acolhimento de Maria, é o movimento pelo qual o povo pecador será salvo.
A Primeira leitura: Is 7,10-14
Este é um texto do chamado “Isaías Histórico”, cujo legado profético está fixado dentro do conjunto formado pelos primeiros 39 capítulos do livro. Isaías, que atua nos anos que antecedem ao cerco do Império Assírio a Jerusalém (701 a.C.) é uma pessoa próxima à corte e ao Templo, muito provavelmente um sacerdote e conselheiro do rei, que se pronuncia durante a reforma de centralização religiosa promovida pelo rei Ezequias (cf. 2 Rs 19,20-34). Ele é contemporâneo de Miquéias tendo, inclusive, um texto em comum (Mq 4,1-4 e Is 2,1-4). A vocação de Isaías acontece dentro do Templo (Is 6,1-6), mas anuncia o fim da violência dos impérios e da subserviência dos governantes de Israel. Neste texto o alvo é o sucessor de Ezequias, o rei Acaz, que insiste em seguir o caminho que balança entre subserviência e violência. A paz se anuncia através de uma virgem (em hebraico pode ser “moça”, alemah) que conceberá “Emanuel” (Deus-conosco). A mulher, e especialmente mulher jovem, que era vista como uma mercadoria (cf, Ct 8,8-9), ou como ameaça sedutora (Pr 30.19), aqui aparece como protagonista do caminho da Paz. A mulher jovem, geradora desta criança/promessa, é sujeito de um novo tempo de esperança.
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