Libertar o olhar para renascer. Comentário de Adroaldo Palaoro

Foto: Kamil Szumotalski/Unsplash

13 Março 2026

A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho do 4° Domingo de Quaresma, ciclo A do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de João 9,1-41.

Eis o texto.

“Jesus ia passando, quando viu um cego de nascença” (Jo 9, 41)

A Quaresma pode ser o ponto de partida de uma transformação profunda de vida; os quarenta dias de duração são um tempo propício para viver a “operação saída”, ou seja, expandir a vida em novas direções, rompendo com aquilo que é rotineiro, estreito e atrofiante.

Este tempo litúrgico especial certamente mobilizará e ativará todas as dimensões de nosso ser: nossos sentidos se expandirão, olhando, escutando e sentindo a realidade que nos envolve; nossa mente tornar-se-á mais clara, sabendo discernir e não se deixando manipular; nosso coração se fará mais atento e misericordioso diante do sofrimento humano; nossa alegria será o fermento do pão cotidiano, compartilhado com os outros. E, se dedicarmos mais tempo ao silêncio e à oração, recobraremos energia e sentido, necessários para sair da “normose doentia” de todos os dias.

Neste percurso transformador, Jesus é o grande “pedagogo” que nos toma pela mão e nos ajuda a fazer a travessia em direção à Terra Prometida. Ele se revela como presença inspiradora e que desperta o “melhor” que há em cada um de nós. Por isso, o tempo litúrgico da quaresma nos situa diante das grandes realidades existenciais que nos humanizam: Fonte de Água viva, Luz, Vida...

No relato catequético deste domingo, o evangelista João resume todo o percurso de qualquer pessoa que se encontra com Jesus, que se deixa recriar por Ele, que caminha na sua fé descobrindo-O aos poucos, até acolhê-lo como Luz do mundo.

No encontro com o “cego de nascença”, Jesus se revela como Luz que desperta a luz atrofiada no interior daquele homem paralisado, impotente, dependente dos outros (marginalizado). Todos o olham como um pecador castigado por Deus. Mas Jesus o olha de maneira diferente; logo que o vê, sente o impulso de resgatá-lo daquela vida de mendigo, desprezado por todos como um amaldiçoado. Ele se sente chamado pelo Pai para defender, acolher e curar precisamente aqueles que vivem excluídos e humilhados.

Depois dos gestos terapêuticos de Jesus, o cego descobre a luz pela primeira vez. Jesus o cura, mas o cego também deve colaborar; ele é confrontado com sua própria força e vontade, pois precisa “descer” até às águas de Siloé, até às profundezas de seu próprio ser.

Com o “toque” das benditas mãos de Jesus, as dimensões mais profundas do pobre homem são despertadas, uma nova energia é ativada, a liberdade é reacendida; reconstruído em sua autonomia, agora ele pode dar direção à sua própria vida.

No encontro com Jesus, o cego obtém a visão; mais ainda, o encontro com Jesus é como um banho que não destrava somente o sentido da visão, mas toda sua vida é reconstruída, prolongando o sexto dia da Criação; finalmente, ele poderá desfrutar de uma vida digna, sem temor de envergonhar-se diante dos outros.

O evangelista João, com uma certa ironia, diz que os vizinhos e as autoridades do Templo discutiam se aquele que agora vê era o mesmo que, um pouco antes, não via. Efetivamente é o mesmo, mas não é o mesmo: sendo o mesmo, é outro. Era “o mesmo”, e graças a Jesus não era mais “o mesmo”, pois agora vê a vida de outra maneira. É a diferença entre o homem dependente, sem iniciativa, sem liberdade..., e o homem livre, capaz de abrir-se às surpresas da vida.

O homem, cego até agora, mendigava, era um personagem marginalizado. O encontro com Jesus o reabilita para a vida; volta a ser uma pessoa na convivência. Ele não sabe se é sábado ou segunda-feira, não sabe se aquele que o curou é pecador ou não; o que ele sabe é que antes não via e agora vê. Aos poucos redescobre sua identidade essencial. Todo aquele que se aproxima do “Eu Sou” (Jesus), redescobre seu “eu sou”, ou seja, participa do mesmo ser, da mesma luz de Jesus. Quem se aproxima de Jesus termina sendo como Ele, “eu sou”. Aquele ex-cego fica transformado por ver a vida a partir de Jesus; recupera sua dignidade.

Mas, ser reconstruído em sua identidade tem um preço; o homem curado provoca conflitos com as autoridades religiosas e acaba sendo expulso da sinagoga. Nessa expulsão se revela um conflito radical dos dirigentes judeus que não aceitam Jesus porque está abrindo os olhos das pessoas, para que estas vejam outro mundo, para que tenham um olhar alternativo. “Vim a este mundo para instaurar um processo, para que os cegos vejam e os que veem fiquem cegos” (9,39).

O conflito de Jesus com os dirigentes vai desembocar na morte. Alguns acolhem a visão e a vida que Jesus traz, mas outros se sentem ameaçados em seus privilégios. São as trevas que rejeitam Jesus. As trevas amam as sombras, as prisões e tumbas desconhecidas, os negócios turvos sem testemunhas, os conluios noturnos, os métodos inconfessáveis, os desaparecidos, os arquivos fechados, as alianças clandestinas. “A luz brilhou nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (1,5).

Mas Jesus não abandona a quem o ama e o busca. Ele tem seus caminhos para se encontrar com aqueles que são rejeitados e expulsos. Ninguém lhe pode impedir. Ele vem sempre ao encontro daqueles que não são acolhidos oficialmente pela religião, daqueles que são excluídos das comunidades e instituições religiosas; aqueles que não têm lugar em nossas igrejas, tem um lugar privilegiado em seu coração.

Quem levará hoje a mensagem da Boa-Nova de Jesus para os grupos ou minorias excluídas que, a todo momento, escutam condenações públicas injustas de dirigentes religiosos cegos, que se aproximam das celebrações cristãs com medo de serem reconhecidos, que não podem comungar com paz em nossas eucaristias, que se veem obrigados a viver sua fé em Jesus no silêncio de seu coração de maneira secreta e clandestina?

Como seguidores(as) de Jesus, precisamos passar por um processo de desobstrução de nossas “cataratas existenciais” que impedem viver em atitude de contínuo assombro e vibrar com a vida do outro. É preciso “cristificar” nosso olhar para sermos reconstruídos em nossa essência.

Jesus olha cada ser humano como tal, mas este gesto não é um simples “ver” as pessoas, mas um olhá-las a fundo; ou seja, Jesus dirige seu olhar às pessoas para perceber nelas aquilo que para Ele é o mais importante: os traços e a imagem de Deus que elas deixam transparecer para quem as olha.

O olhar de Jesus não se restringe ao exercício da visão; seu olhar possui uma eficácia transformadora, encarnada em sua capacidade de amar, isto é, de olhar as pessoas com o amor de seu Pai. Ao olhar as pessoas, Jesus faz emergir a dignidade que elas carregam: filhas de Deus, as criaturas mais apreciadas pelo Criador.

Na verdade, o que imobiliza e petrifica é o olhar que se fecha no egocentrismo, que não se abre ao outro numa atitude de respeito, de fidelidade criativa. “Nossa civilização, que já ultrapassou a era do trabalho escravo, ainda está na era do olhar escravo” (Eugênio Bucci).

Muitas vezes, o presente mais precioso que podemos dar a alguém é um olhar diferente; o futuro, a acolhida, o perdão, a alegria... dessa pessoa podem depender desse olhar novo, cheio de afeto e confiança.

Em muitas situações difíceis da vida, o que salva é o olhar.

Num contexto de relações afetivas, onde os sentimentos são determinantes, qualquer caminho de volta ou de diálogo inicia-se sempre com um olhar conciliador ou reconciliador.

Olhar admirado e gratuito, como aquele de Jesus, que transforma, que liberta e que se comove diante da realidade humana, sobretudo daqueles que “não são olhados”.

Para meditar na oração:

- Torne o seu coração vulnerável ao olhar do Pai, receptivo a todo apelo que vem D’Ele, deixando-se tocar pelo inesperado, pela novidade, pela iniciativa amorosa d’Ele; o Amor d’Ele é sempre re-criador, suscitando em você lampejos de ressurreição.

- Orar é ter acesso ao seu “eu profundo” sob o olhar de Deus e desejar ser visto por Ele até as profundidades mais secretas do seu próprio ser;

- Evangelize seu olhar para aprender a olhar como Jesus Cristo, ultrapassando as aparências.

- Como você “olha” as pessoas, as coisas, os fatos, o mundo...? 

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