As cinzas funerais e a resistência indígena

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

29 Agosto 2019

Em SP, o céu parecia dobrar-se sobre a terra. Mas se não era a profecia Yanomami do fim do mundo, poderia significar um recomeço: levantar-nos contra os crimes na Amazônia e garantir qualidade de vida para os povos das florestas.

O artigo é de Angela Pappiani, jornalista, produtora cultural e escritora; diretora na IKORE, agência voltada à temática indígena, publicado por Outras Palavras, 27-08-2019.

Eis o artigo.

As nuvens negras que na segunda feira, dia 19 de agosto, transformaram o dia em noite em São Paulo, não trouxeram para o sudeste somente fumaça e fuligem das queimadas da floresta. O que elas trouxeram e despejaram sobre nossas cabeças foram cinzas funerais, os restos mortais de árvores centenárias, ervas de cura e flores, aves, mamíferos, infinidades de repteis, insetos e microrganismos, seres vivos que constituíam um sistema complexo construído ao longo de milhares de anos. São restos mortais que continuam sendo trazidos pelo mesmo vento que deveria nos trazer o ar puro gerado pela floresta, a umidade que garante a chuva, o equilíbrio da temperatura.

A chuva negra lavou a fuligem e fez voltar à terra essas partículas transformadas pelo fogo. A atmosfera recebeu a outra parte desses corpos transformados em gases que vão se acumular a outros gases que já alteram o clima do nosso planeta.

Mas boa parte dos humanos, cidadãos comuns e aqueles com poder sobre leis, corporações, governos e sistemas financeiros não enxergam o que está acontecendo, recusam os números apresentados por instituições sérias que revelam o crime contra a humanidade e o planeta que está em curso.

O assombro da população das cidades diante da escuridão e da água negra da chuva dura o tempo de um telejornal. A água da chuva reservada para molhar as plantas ou lavar o quintal foi descartada, a roupa suja foi lavada de novo e a vida segue. É muito difícil mudar hábitos, abrir mão das facilidades ilusórias de nosso mundo consumista. A ruptura entre humanos e natureza é tão profunda que a maioria das pessoas não percebe que suas ações geram reações, que todos nós somos responsáveis pela degradação do planeta e seremos cobrados duramente por todo desrespeito e equívoco.

Para quem já presenciou uma mata em chamas, e eu tive a infelicidade de ver tratores arrastando árvores e homens colocando fogo no que resta depois da retirada da madeira de interesse comercial, a imagem fica guardada na memória para sempre. A imagem, o cheiro sufocante, o calor, a fuligem, os sons assustadores, gritos e gemidos de árvores e animais tentando sobreviver.

Os últimos acontecimentos trouxeram à minha memória cenas da década de 1980 quando a Amazônia também ardia e era transportada em caminhões para as serrarias, quando a mata queimava e deixava um rastro de destruição que logo era “recuperado” pelos pastos e vilas que se formavam naquele lugar remoto e “desabitado” que o governo militar queria incorporar ao território brasileiro, salvando-o da selvageria e do atraso.

Naquela época, a abertura de estradas, o desmatamento e a exploração da floresta eram pautas do governo, publicamente incentivados e festejados. O desmatamento era cláusula de contratos de cessão de terras pelo INCRA aos colonos que ocupavam Rondônia e Acre. Substituir a floresta por plantações e pastos era o grande objetivo. E esse movimento ocupacionista, desenvolvimentista, passava por cima das populações indígenas, de seringueiros e ribeirinhos, de pessoas que sabiam viver e conviver com a floresta, protegendo sua biodiversidade, contribuindo para seu enriquecimento e fortalecimento.

O Polonoroeste (Programa de Desenvolvimento Integral do Noroeste do Brasil), criado em 1981 no governo do General Figueiredo e herdado por José Sarney, primeiro presidente civil depois de 20 anos de governo militar, tinha como objetivo o asfaltamento da BR-364, ligando Cuiabá a Porto Velho e Rio Branco e a ocupação desse território. Para mascarar o problema agrário do país, a luta pela Reforma Agrária, o Programa levava para a região norte milhares de trabalhadores sem-terra desalojados de suas pequenas ocupações no sul e sudeste do país, onde um novo modelo de agricultura, mais “eficiente”, mecanizado e capitalizado, voltado para a melhoria na produção de grãos para a exportação que começava a se desenvolver. Os pobres brancos do sul foram despachados para ocupar as florestas com a obrigação de transformar as áreas cobertas de “mato” em propriedades agrícolas exitosas. Em outro artigo já contei um pouco dessa história, do conflito a que foram jogadas essas pessoas, sem nenhum preparo ou vocação para viverem na floresta, confrontando-se com as populações que ocupavam tradicionalmente aqueles lugares. O traçado dos lotes quadradinhos era desenhado no mapa, com linhas retas, indicando as estradas principais e as vicinais, até hoje denominadas por Linhas e numeradas, sem levar em consideração a topografia, a hidrologia, o tipo de solo. Um absurdo que levou ao abandono ou à venda dos lotes para os grandes proprietários que assim acumularam grandes extensões de terra.

Esse desastre foi financiado pelo Banco Mundial num acordo onde a proteção ambiental e às populações indígenas eram cláusulas condicionantes. Mas nada do que estava prometido no papel, nem mesmo a solução do caso dos colonos, foi cumprido. E durou muito tempo sem que o crime oficial fosse reconhecido. Os povos indígenas foram os primeiros a se manifestarem, pois estavam perdendo seus territórios, suas vidas e o patrimônio ambiental de que dependem para viver. Os seringueiros e extrativistas se juntaram à luta e alguns ambientalistas, jornalistas e antropólogos trouxeram mais informações e estudos científicos para legitimar um grito que, por si só, já era potente e dramático.

Chico Mendes, Ailton Krenak, Davi Yanomami e o grande ambientalista José Lutzenberger foram algumas das lideranças a denunciar a devastação e o desrespeito aos direitos humanos ao Congresso Norte Americano, à ONU, ao Banco Mundial, à população. O Programa de Índio, programa de rádio realizado pelo Núcleo de Cultura Indígena e veiculado pela Rádio USP de 1985 a 1991, cobriu as ações, as denúncias, trouxe matérias e depoimentos sobre o assunto. A série de documentários A Década da Destruição acompanhou durante dez anos, de 1980 a 1990, o drama e as consequências dessa política de ocupação da Amazônia. Um trabalho de muita dedicação e coragem do diretor Adrian Cowell e sua equipe brasileira, ligada à Universidade Católica de Goiás, Vicente Rios e Wanderley de Castro. Em quatro episódios, a série desvenda os fatos, traz depoimentos de pessoas do governo e das vítimas desse massacre, acompanha o drama dos colonos sucumbindo às doenças e hostilidade de um ambiente que não conheciam, o drama dos povos indígenas ainda sem contato ou os que lutavam contra a invasão de seus territórios, apresenta dados e comove pela força das imagens.

Esses documentários foram exibidos no Brasil e exterior, causando grande impacto no público e contribuíram para escancarar o crime que se cometia na época. Os realizadores enfrentaram ameaças, emboscadas, tentativas de difamação, mas sua obra foi reconhecida e permanece até hoje como testemunho desse período.

A sensação agora é de que entramos numa máquina do tempo e voltamos mais de 30 anos. Os mesmos argumentos, a mesma busca por um modelo de progresso ultrapassado, ocupação dos “territórios vazios”, exploração sem limites da natureza, entrega de riquezas e patrimônios ao capital mais obtuso, a negação do direito dos povos indígenas viverem sua cultura e modo de vida, a criminalização de lideranças e organizações não governamentais, a violência e mortes.

Não que a situação dos povos indígenas e extrativistas tenha sido fácil ao longo do tempo. Independentemente da posição ideológica dos governos, a miopia para a questão ambiental parece impedir a visão da realidade. A luta tem sido diária, permanente, mas, de alguma forma, nos últimos 30 anos, protegida por leis e acordos internacionais que não permitiam as ações descaradas e impunes que voltam agora, com o aval do governo, com a promessa de mudanças na lei, oficializando o assalto à floresta e aos minérios do subsolo, com acordos anunciados com orgulho.

Como há três décadas, os povos indígenas, guerreiros e guerreiras, estão buscando o espaço público para denunciar os crimes e afirmarem que não lhes interessa engrossar as estatísticas da pobreza no Brasil. Que é possível um outro modelo de desenvolvimento com foco na natureza e na qualidade de vida das pessoas que habitam a floresta. 

Milhares de mulheres de dezenas de etnias ocuparam Brasília entre 9 e 13 de agosto na I Marcha das Mulheres Indígenas com sua beleza, pinturas, cantos, apoiadas por seus companheiros e filhos, juntando sua força a outras milhares de mulheres do campo na Marcha das Margaridas acontecida no dia 14. Uma demonstração de força e resistência.

Os povos indígenas querem a floresta em pé, os rios sem mercúrio e pesticidas, o ar sem veneno, a natureza viva e generosa como sempre foi, dando em troca do cuidado e do respeito com que é tratada, o ar puro e a cura para a fome e as doenças do corpo e da alma. Quando vamos acordar? Na segunda feira, dia 19, parecia que profecia dos Yanomami se cumpria, era como se o céu desabasse sobre a terra. Precisamos de consciência e ações para adiar o fim do mundo. Davi Yanomami e Ailton Krenak têm falado sobre isso.

Os quatro documentários da série A Década da Destruição: Na trilha dos Uru Eu Wau Wau, O caminho do fogo, Nas cinzas da floresta e Tempestades na Amazônia podem ser adquiridos junto com outros trabalhos de Adrian Cowell através do IGPA (Instituto Goiano de Pré-história e Antropologia). Os livros A Queda do Céu de Davi Yanomami e Bruce Albert e Ideias para adiar o fim do mundo de Ailton Krenak estão nas livrarias.

Leia mais