12 Setembro 2026
Em um país que não prima pela abundância de pensadores, Santiago Alba Rico (Madri, 1960) tornou-se uma referência para a esquerda, e tomara que não apenas para ela. Sua voz tímida, quase sussurrante, abre caminho por meio de artigos e livros que ajudam a combater o bramido dos parlamentos e das mesas de debate. Seu mais recente ensaio, Gaza y el destino del mundo (Arpa), coloca-nos diante de um espelho incômodo: o da dupla moral do Ocidente.
A entrevista é de Neus Tomàs, publicada por El Diario, 05-09-2026.
“Israel é obra do antissemitismo europeu e, nesse sentido, não deveria ter existido. A fundação de Israel é injusta em todos os sentidos”, denuncia Alba Rico. Ele considera que a solução dos dois Estados não é mais possível. Defende que são os próprios israelenses, juntamente com os europeus, que precisam desvincular Israel do sionismo. “Assim, poderão considerar propostas como as de Martin Buber: um Estado binacional ou um único Estado democrático no qual seja possível estabelecer regras compartilhadas”, acrescenta.
O filósofo se recusa a cair no pessimismo. Não por falta de motivos, mas porque se os palestinos resistem, apesar de tudo, sem terem nada, é preciso resistir também e continuar denunciando o genocídio do qual são vítimas. Alba Rico nos estimula a refletir sobre esse mundo para o qual Gaza se tornou um ponto de não retorno civilizatório e, também com as imagens de Ceuta na retina, lança este alerta: “Estamos em um momento da história em que uma pessoa pode acreditar que é boa enquanto participa de um linchamento”.
Eis a entrevista.
O início do livro é surpreendente porque remete a dois aspectos da infância: o diurno, que, resumidamente, estaria mais ligado à brincadeira, e o noturno, que estaria mais associado ao medo. E, a partir daí, o senhor os relaciona a algumas dinâmicas do poder. Como surgiu essa ideia?
É uma analogia que, há algum tempo, está presente em minha cabeça. Como leitor de Freud, era quase inevitável formulá-la dessa maneira. Talvez também tenha relação com a percepção dos últimos anos, em um contexto de decomposição das democracias e de expansão do autoritarismo. Claramente, o projeto do Iluminismo fracassou.
Kant dizia que o Iluminismo era a humanidade alcançando a maioridade. Durante dois séculos, acreditamos, em alguns momentos, que isso tinha acontecido, mas nos últimos anos vemos que não. Nunca alcançamos a maioridade plenamente. Continuamos como em um pátio de escola no qual os mais fortes, os que menos respeitam os princípios pactuados por todos, são os que acabam se apoderando de territórios, da vida dos outros e decidindo, em última instância, quem merece viver e quem não merece.
O que eu chamo de infância diurna, a da brincadeira, em determinado momento transforma-se em hipocrisia. Continuamos brincando de valores morais, de democracia, de separação de poderes. O que aconteceu foi que ruiu esse aparato lúdico, mais ou menos pactuado, no qual todos nós, hipocritamente, nos guiávamos por certos princípios nos quais talvez nem acreditássemos, mas que nos protegiam da criança noturna. E essa criança noturna se apoderou do pátio da escola.
Nesse pátio, até mesmo as brincadeiras infantis têm regras. Aplicando essa ideia ao comportamento de líderes como Trump e Netanyahu, a síntese seria a de que eles não respeitam regra alguma?
Exatamente. É uma ideia que tomo de Chesterton, daquele livro maravilhoso que é Ortodoxia, no qual ele explica a obsessão das crianças pelas regras. Elas podem inventar as regras, mas o importante é segui-las. Lembro-me de uma frase de um libreto de Wagner, Os Mestres Cantores de Nuremberg, que diz: “Criem suas próprias regras, mas sigam-nas”.
Há algo sempre tranquilizador nas regras. Inclusive, se quisermos, nas máfias, que têm ou por algum tempo tiveram regras internas que precisavam ser respeitadas. E as crianças são obcecadas por elas: querem a todo custo que sejam cumpridas.
Essa criança diurna que brinca com regras inventadas, mas de qualquer modo rígidas e de cumprimento obrigatório, transforma-se em um hipócrita civilizado, diria Freud. Em O mal-estar na cultura, a civilização serve fundamentalmente para reprimir a criança noturna. E essa criança noturna foi libertada, desencadeada. Hoje, não cumprir as regras oferece muitas vantagens em termos de poder, lucro, benefício capitalista, benefício imperialista e proteção dos próprios interesses.
Em um dos capítulos, o senhor pergunta: o que é Gaza? E uma das conclusões mais marcantes é que ela é muito mais do que um território físico com uma história milenar.
Sim. A meu ver, Gaza não é apenas um território, como já observaram autores como Pankaj Mishra. É uma mudança de paradigma, um conceito, um objeto mental.
Em determinado momento, comparo Gaza a outros conceitos surgidos ao longo da história, sobretudo do século XX. Falo de Verdun, que quase ninguém sabe exatamente onde fica, mas que é um paradigma da guerra e que, de certa forma, é um divisor de águas na história do século XX. As trincheiras de Verdun fundam o século XX. Depois temos claramente dois conceitos que originalmente são territórios: Auschwitz e Hiroshima. Auschwitz, o da liquidação horizontal do outro; Hiroshima, o da liquidação vertical do outro.
Gaza é um novo conceito no qual se combinam o horizontal de Auschwitz e o vertical de Hiroshima. Ao mesmo tempo, introduz-se uma novidade tecnológica que transforma, ou transformou, Gaza em um laboratório de uma nova forma de fazer guerra; por exemplo, por meio do uso da inteligência artificial.
Há semelhanças e, como o senhor aponta, também algumas diferenças.
Há algo que rompe com o modelo do século XX. Afinal de contas, Auschwitz foi ocultado. Os nazistas tentaram escondê-lo; não se vangloriavam de Auschwitz. A decisão relativa ao que chamavam, de forma eufemística e terrível, de “solução final” foi tomada em uma reunião secreta. Tudo acontecia na neblina, na escuridão.
Em Gaza, ocorreu exatamente o contrário: vivemos tudo em tempo real, à vista de todos. Em determinado momento, digo, com muita amargura, que se Hitler tivesse instalado câmeras de televisão nas câmaras de gás, talvez tivesse conseguido ir ainda mais longe do que foi, e já foi muito longe.
Não podemos nos permitir ver tudo sem que a nossa alma e a nossa integridade moral também sofram. Vimos coisas demais. Vimos tudo em tempo real, minuto a minuto, sem poder mudar o que estava acontecendo. Isso é um colapso civilizatório e moral sem precedentes por uma razão simples: já não ocultamos os crimes; chegamos até a nos orgulhar deles.
Há 90% da população mundial absolutamente contrária ao genocídio em Gaza, mas que, no entanto, totalmente impotente, teve de contemplar imagens que feriram moralmente a humanidade. Agiram de uma maneira que não chamarei de irreparável, mas com efeitos muito duros.
O senhor fala em 90% da população mundial, mas parece que os outros 10% acabam decidindo o que acontece em Gaza.
Pois é. O livro também é uma peça de acusação contra os Estados Unidos e a União Europeia. E isso é algo que podemos verificar em outros campos, não apenas em Gaza. Já dizia Gaetano Mosca, filósofo e teórico do direito na Itália pré-fascista: uma minoria organizada é sempre mais poderosa do que uma maioria desorganizada.
Obviamente, essas minorias que acabam apoiando um genocídio dispõem de mais meios, mais dinheiro e mais recursos. Também de mais recursos de propaganda. Não apenas se apoderam das armas e da violência, mas também das palavras. Nessas condições, uma maioria desorganizada pode fazer muito pouco, exceto sofrer à distância o veneno moral dessas imagens terríveis, nas quais vimos crianças mortas, enterradas sob os escombros, alvejadas por atiradores de elite ou assassinadas em suas camas.
Há um momento em que o senhor fala da dupla moral ocidental. Agora há pouco, mencionava os Estados Unidos e a União Europeia. Um exemplo seria o modo como se condena a violência palestina, mas se tolera a de Israel?
Quando ocorrem condenações, elas são puramente formais ou retóricas e não vêm acompanhadas de medidas que, sim, foram adotadas em outros lugares. Foram tomadas medidas contra a Rússia, muito legitimamente, diante de uma invasão e de uma ocupação que devem ser condenadas sem ambiguidades. Contudo, isso não acontece com Israel.
No livro, tento explicar que isso ocorre porque Israel faz parte da pior história da Europa, aquela que se impôs repetidas vezes, salvo nesse breve parêntese posterior à Segunda Guerra Mundial. Israel é aquilo que restou da Europa anterior à Segunda Guerra Mundial. E, como sobrevivente daquela Europa, pode levar a Europa a retroceder. É o que estamos vendo com a islamofobia, o racismo e o crescimento da ultradireita na Europa.
Tudo isso tem muito a ver com Israel, como o próprio Netanyahu reconhece e consagra ao estabelecer relações privilegiadas com partidos da ultradireita europeia, os mesmos partidos que, antes da Segunda Guerra Mundial, perseguiam os judeus. Portanto, sim: Israel é a sobrevivência da pior Europa no Oriente Médio e, a partir de lá, pode conduzir os europeus novamente ao pior de nossa história.
Há um momento em que o senhor é especialmente contundente e afirma que Israel jamais deveria ter existido e que não foi, como às vezes se explicou, a presença minoritária e legítima de imigrantes de religião judaica na Palestina, em 1881 ou 1906, que justificava sua existência.
Israel é obra do antissemitismo europeu e, nesse sentido, não deveria ter existido. A fundação de Israel é injusta em todos os sentidos. É fruto, de fato, de um projeto nacionalista excludente que surge no final do século XIX, quando emergem os nacionalismos, especialmente na Europa, e posteriormente em um contexto de imperialismo colonial. Trata-se, portanto, como dizia Theodor Herzl, de uma vanguarda da Europa no Oriente Médio e de uma barreira diante dos bárbaros colonizados.
Agora, o fato de sua existência não ter sido justa não significa que devamos buscar a destruição de Israel. Não. Israel existe, e não se pode neutralizar uma injustiça com outra injustiça 80 anos depois.
Portanto, dispomos de apenas uma ferramenta, uma ferramenta que sempre deixará insatisfeitos os justiceiros dos dois lados, mas que é a única que temos: o direito internacional.
Mas, quando fala do direito internacional, o senhor o apresenta no livro como uma frágil casca que mal conseguiu conter as ambições das grandes potências. Da forma como está concebido hoje, ele ainda nos serve?
Tal como está, não nos serve. A partir do momento em que toda uma série de crianças noturnas declarou esse direito não vinculante, ele se torna, de certo modo, nulo ou inútil. Isso também é consequência da forma como esse direito foi construído a partir da Segunda Guerra Mundial. Pensemos, por exemplo, nas Nações Unidas.
Faz muito tempo que muitas pessoas defendem uma reforma das Nações Unidas. Não é possível que os vencedores da Segunda Guerra Mundial permaneçam com o direito de veto, após um longo processo de descolonização, com um crescente protagonismo de outros países e de potências ao menos médias. É preciso reformar as Nações Unidas.
Este é um bom momento para ao menos propor essa reforma. Não para executá-la, porque para isso precisaríamos de mais força e mais poder do que as maiorias desorganizadas possuem, mas ao menos para propô-la.
Outra questão sobre a qual o senhor reflete no livro é a identificação entre o Estado de Israel e o povo judeu. Trata-se de um erro cometido tanto pela direita quanto pela esquerda?
Penso que sim. Isso também é fruto dessa culpa histórica resultante do Holocausto. Como explicam muito bem Pankaj Mishra e Finkelstein, trata-se de algo relativamente recente: começa a acontecer nos anos 1960.
Até o final dos anos 1960, até a Guerra dos Seis Dias, não existia uma identificação entre o Estado de Israel e o Holocausto. De fato, Israel não era um Estado vitimista. Havia uma espécie de fuga: o sionismo tentava justamente escapar dessa identificação que o imaginário europeu estabelecia entre o judeu e a vítima. O sionismo reivindicava seu direito à violência, de não ser a vítima.
No entanto, a partir do final dos anos 1960, essa identificação é estabelecida. O Estado de Israel começa a buscar legitimidade com a invocação permanente do Holocausto e da identificação entre o Estado de Israel e o povo judeu.
Temos Peter Beinart, Marc H. Ellis e toda uma série de judeus que de maneira alguma estão dispostos a aceitar que Israel mate crianças em seu nome. É preciso recordar constantemente essas vozes judaicas e buscar dissolver essa identificação entre o Estado de Israel e o chamado povo judeu que o sionismo procura estabelecer para legitimar seus crimes.
Não existe um povo judeu; existe uma religião judaica, existe uma cultura judaica. E o que não se pode fazer, de modo algum, é identificar Israel com o povo judeu.
Por quê?
Porque a identificação entre o povo judeu e Israel, na medida em que Israel é um empreendimento colonial que comete um genocídio, produz algo que, aliás, o sionismo deseja: promover o antissemitismo.
E a melhor forma de combater o antissemitismo é romper essa identificação entre o Estado de Israel e o povo judeu. O povo judeu, a cultura judaica e a religião judaica não são culpados pelos crimes de Israel.
Como seria possível desvincular Israel do sionismo?
Será difícil, porque Israel nasce com o sionismo. A fundação de Israel é inseparável desse projeto, que desde o início é excludente e supremacista. Ainda assim, penso que é a única solução. Nesse momento, qualquer solução parece muito distante. A de dois Estados é impossível. É preciso levar em conta que, na realidade, é o que se pretendia desde o princípio: tornar impossível a existência de um Estado palestino.
Fico profundamente irritado com o fato de que se fale constantemente do direito à existência de Israel, quando o único direito à existência que está sendo permanentemente questionado, inclusive pela Europa e pelos Estados Unidos, é o direito à existência da Palestina.
Com a particularidade de que Israel e seus governantes, desde Ben-Gurion, nunca deixaram de expressar de forma muito clara sua recusa em aceitar a existência de um Estado palestino. Netanyahu não parou de repetir isso nos últimos anos. No próprio programa de fundação do Likud está escrito que o território de Israel vai do rio ao mar. Critica-se constantemente o fato de os palestinos utilizarem esse lema, sendo que ele está incluído no programa de fundação do Likud.
Não existe nenhuma disposição por parte de Israel para aceitar a existência de um Estado palestino. Por isso, é necessário desvinculá-lo do sionismo, e a única maneira é fazer com que aqueles que apoiam Israel no exterior deixem de apoiá-lo.
Se Israel é um projeto europeu, para que deixe de ser um projeto colonial, um projeto genocida, a Europa precisa deixar de apoiá-lo.
O senhor acredita que veremos o fim da ocupação?
Pessoalmente, não sei. Espero que meus filhos o vejam. Para isso, é muito necessário que muito mais israelenses, e não apenas judeus, percebam que a própria existência de Israel, como assinalam Ilan Pappé ou Gideon Levy, está em perigo. E está em perigo porque o projeto sionista de um Israel excludente, em permanente guerra civil, é completamente inviável. E são os próprios israelenses, juntamente com os europeus, que precisam desvincular Israel do sionismo.
Assim, poderão considerar propostas como as de Martin Buber: um Estado binacional ou um único Estado democrático no qual seja possível estabelecer regras compartilhadas
Hoje, isso é totalmente inviável. Não porque o Hamas não possa existir, mas porque existe um Estado de Israel governado por partidos ultrarreligiosos que de maneira alguma podem aceitar a existência de um Estado palestino, nem sequer a existência dos palestinos.
Não há reconhecimento da existência dos palestinos. Eles não são chamados de palestinos, mas de árabes, justamente para evitar o reconhecimento da existência de um povo palestino.
No livro, o senhor afirma que Gaza marca o início de um novo mundo. O senhor prevê que esse mundo será ainda pior?
Ultimamente, tenho resistido a me deixar levar pelo fatalismo ou pelo pessimismo. Penso que há também algo profundamente político nisso: a decisão política que podemos tomar é justamente a de não nos deixarmos arrastar por eles.
Como se deixar levar pelo fatalismo na Europa quando, todos os dias, os palestinos estão erguendo escolas em uma tenda entre os escombros de Gaza; quando, repetidamente, trocam as fraldas de seus filhos, reconstroem suas casas e cuidam das oliveiras que lhes foram queimadas?
Acredito que tempos ainda piores estão por vir, porque esse modelo Gaza é um modelo que estamos vendo em toda parte. Israel o aplica no Líbano; os Estados Unidos e Israel o aplicam no Irã; a Rússia o aplica na Ucrânia; e estamos vivendo um processo de desdemocratização mundial que não augura precisamente a reconstrução de um direito internacional mais vigoroso e com maior capacidade de proteção, mas o contrário.
Não podemos nos permitir o pessimismo enquanto os palestinos continuarem resistindo.
Falando sobre como será esse novo mundo e observando o que acontece em Ceuta, não parece haver muitos motivos para otimismo. Qual é a sua análise do que está acontecendo?
O que mais me preocupa, deixando de lado as análises geopolíticas, que já foram feitas muito bem e com grande precisão, inclusive pelo próprio jornal de vocês, é algo no qual insisto no livro. De repente, nesses dias, encontramos pessoas que se consideram boas enquanto impedem a Cruz Vermelha de entregar pão e água aos imigrantes, os expulsam dos lugares onde o Governo os instalou precariamente ou queimam seus pertences.
Isso me preocupa muito, pois estamos em um momento da história em que alguém pode acreditar que é uma boa pessoa, enquanto participa de um linchamento. É um pouco o que acontece em Gaza. Vimos cidadãos israelenses subirem a uma colina em Sderot para ver Gaza arder enquanto tomavam um farto lanche, ou impedir a entrega de ajuda humanitária. Até que ponto foi necessário romper os vínculos com aquilo que antes chamávamos de ética ou moral universal para que alguém consiga se considerar uma boa pessoa enquanto participa de um linchamento.
Esse novo marco moral, ou amoral, está sendo alimentado por partidos políticos que almejam governar, inclusive derrubar um governo legítimo por qualquer meio, amparando-se na criança noturna, nessa criança noturna que todos carregamos dentro de nós. O que mais me preocupa neste momento é que nos consideremos bons cidadãos ou boas pessoas enquanto excluímos o outro, perseguimos o outro ou matamos o outro.
E em Ceuta já vemos isso: por meio de Ceuta, esse novo modelo, esse modelo Gaza, também está se espalhando muito rapidamente pela Espanha, que até agora era uma espécie de ilha protegida do fascismo. Acredito que, por meio de Ceuta, o fascismo desembarca definitivamente na Espanha.
É a desumanização do migrante. Chega um momento em que muita gente deixa de ver pessoas.
Não. E você acredita ser uma boa pessoa justamente porque deixa de enxergar ali uma pessoa, uma criança ou um jovem que fugiu de seu país. Isso é terrível. É preciso ter muito cuidado. Por isso, meu livro também contém um alerta contra os justiceiros, contra a própria ideia de justiça, porque, por meio da ideia de justiça, o mal se infiltra muito mais facilmente do que por meio da ideia de direito. Não queiramos ser justiceiros.
Não podemos pedir a todos que se comovam com a existência do outro, com a dor do outro. Não podemos exigir isso de ninguém. Mas, justamente por isso, é muito importante preservar aquela criança diurna que, hipocritamente, recordava certos valores, certos princípios e certas regras comuns.
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