“Eu me converti”. Bispo italiano fala de como pessoas LGBTQ+ mudaram sua visão pastoral

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11 Setembro 2026

O artigo é de Elisa Belotti, publicado por News Ways Ministry, 10-09-2026.

Elisa Belotti (ela/dela) é jornalista freelancer radicada na Itália. Seu trabalho se concentra em direitos humanos e comunidades marginalizadas, especialmente pessoas LGBTQ+ e mulheres, com foco particular no impacto da religião na sociedade. Ela é fundadora e coapresentadora do Cristianə a chi?, o primeiro podcast italiano a explorar a interseção entre cristianismo, feminismo e identidade queer. Ela escreveu reportagens investigativas sobre violência contra freiras e sobre terapia de conversão, recebendo reconhecimento de diversos prêmios de jornalismo, como o Prêmio Vergani (menção especial, 2024), o Prêmio Minotti (2024), o Prêmio Piazza Grande de Jornalismo Religioso (menção honrosa, 2025) e o Prêmio Voices (2026). Ela também é autora do livro La Chiesa che (non) ci vuole e da Senza Mulini, informativo eletrônico sobre o cristianismo ao redor do mundo.

Eis o artigo.

Em 4 de setembro de 2026, cerca de 200 agentes pastorais e aproximadamente 10 bispos italianos se reuniram em Roma para a primeira conferência nacional destinada a agentes pastorais interessados no ministério com pessoas LGBTQ+. Intitulada "Boas Práticas na Pastoral com Pessoas Homoafetivas* e Transgênero", o objetivo era compartilhar experiências e boas práticas no ministério com pessoas LGBTQ+ e suas famílias.

Entre os palestrantes estava Dom Francesco Savino, que refletiu sobre a necessidade de a Igreja restaurar a dignidade das pessoas LGBTQ+, permitir-se ser transformada pelos encontros com elas e passar de uma pastoral organizacional para uma pastoral geradora. Ele também falou sobre a experiência dos padres LGBTQ+ e pediu maior atenção a seus medos e isolamento, ao mesmo tempo em que instou os católicos a não colocarem os direitos civis contra os direitos sociais.

Elisa Belotti, do Bondings 2.0, traduziu o discurso de Savino para o inglês.

Dom Francesco Savino

Bom dia a todos. Sou Francesco Savino, bispo de Cassano all'Jonio e, nos últimos quatro anos, vice-presidente da Conferência Episcopal Italiana. Em dez meses, concluirei esse ministério como vice-presidente (uma experiência sem dúvida significativa, de responsabilidade genuína. Os serviços à Igreja podem ser muito belos, mas às vezes, por razões óbvias, também podem nos condicionar). As pessoas também são o que comem, e, como já é uma hora da tarde, precisamos comer, quero apenas fazer duas observações e, esquematicamente, três provocações bem rápidas.

A primeira observação: preciso expressar minha gratidão pelo método que está caracterizando nosso encontro. Estou muito satisfeito por termos começado com boas práticas.

Para quem talvez não saiba, tive uma experiência que, em minha humilde opinião, foi verdadeiramente bela. Para mim, foi uma experiência epifânica, uma grande revelação, quando vivi o Jubileu junto com todas aquelas pessoas que se tornaram queridas para mim. O Jubileu em Roma com pessoas homoafetivas e transgênero: ouvir, estar entre elas, compartilhar. Para mim, ainda hoje, é uma das experiências mais belas que guardo.

Eu me converti. Óscar Romero costumava dizer: "O povo me converteu." Precisamos nos permitir ser convertidos pelos acontecimentos, pelos sinais dos tempos, pelas pessoas, pelas histórias, pelos rostos voltados para nós, como diria o grande padre Tonino Bello [bispo católico italiano, escritor e pacifista, conhecido por seu forte compromisso social com os pobres], em cuja escola fui formado durante pelo menos sete ou oito anos.

Quero dizer desde já que essas boas práticas que nos foram compartilhadas não são protocolos para serem arquivados, mas nomes, histórias de homens e mulheres; são rostos que bateram às portas de nossas comunidades, às vezes com medo, às vezes carregando feridas profundas, e que, pela providência, encontraram alguém que teve a coragem de abrir a porta, deixá-los entrar, oferecer-lhes uma cadeira e um ouvido disposto a escutar.

Esta manhã ouvimos quatro histórias belas, com todos os seus nós problemáticos. Mas, para mim, são quatro histórias que se tornam paradigmáticas, que se tornam experiências do Espírito e experiências de encontro para mim no meu ser bispo, mas, antes disso, no meu ser cidadão e crente.

Estou convencido de que, quando a Igreja se faz carne, quando nós nos fazemos carne, o Evangelho volta a ser crível. Hoje nós, como Igreja, temos uma questão importante: a credibilidade. Se hoje a prioridade é a transmissão da fé e precisamos nos perguntar "Quem evangeliza quem?", para mim há uma segunda grande questão que nos acompanha e diz respeito a todos nós: a credibilidade da Igreja hoje.

Não somos críveis para muitas pessoas, sobretudo porque também sofremos, como a política hoje, de uma espécie de "anúncio-te": anunciamos, mas não há a correspondente coerência em nossas ações. Hoje as pessoas já não estão dispostas a aceitar nossas incoerências paradoxais.

Uma segunda observação. Preciso agradecer ao padre Luca [Lunardon]. Aliás, eu lhe pediria os slides e o texto de sua reflexão, porque considero fundamental o que você nos disse sobre o princípio da pastoral hoje. O que você disse, a meu ver, põe em movimento um processo de mudança na pastoral.

Se a pastoral consiste em criar as condições para que homens e mulheres vivenciem o encontro decisivo de suas vidas, o encontro com Jesus, muitas vezes tenho a impressão de que a pastoral se tornou mais uma técnica, um método ou uma organização do que uma experiência geradora.

Em minha humilde opinião, precisamos passar de uma pastoral organizacional para uma pastoral geradora. Enquanto nossas pastorais forem meramente organizacionais, não gerarão nada: serão verdadeiramente estéreis e correm o risco de se tornar formas de pastoral autocentradas, narcisistas e patológicas. Digo isso com grande sinceridade e empatia!

Uma característica fundamental da pastoral é entender que ela é feita de relações, encontros e rostos que se cruzam e se encontram.

Fico muito contente que você, padre Luca [padre Gianluca Carrega, coordenador da pastoral LGBT+ da Arquidiocese de Turim], tenha mencionado Christoph Theobald [padre e teólogo francês, radicado na Alemanha, membro da Companhia de Jesus]. Li Urgences pastorales, e esse livro mudou positivamente minha perspectiva como pastor, convidando-me a questionar a pastoral que praticamos.

Permitam-me dizer que essa forma de fazer pastoral que vocês nos propuseram precisa ser cultivada e ter permissão para amadurecer. Acrescentaria que essa forma de fazer pastoral também deve ser pedida e invocada na oração, para evitar nos tornarmos neopelagianos [cristãos que acreditam poder alcançar a salvação e a perfeição usando apenas suas próprias forças e capacidades].

Lembro-me de que, na época do Papa Bento XVI, eu procurava um livro de Karl Rahner. Adoro Karl Rahner. Fui à Livraria do Vaticano e não consegui encontrar um único livro de Karl Rahner. Depois, assim que Bergoglio se tornou papa, muitos livros de Karl Rahner apareceram. É assim que somos: seguimos tendências, mais ou menos. Tenhamos cuidado!

Agora chego a três pequenas provocações.

A primeira. Apreciei a reflexão final oferecida por meu irmão no episcopado, dom bispo Giampaolo Dianin [arcebispo de Gorizia], por quem tenho grande apreço e que nos ajudou muito, inclusive dentro da Conferência Episcopal da Calábria, da qual sou membro, a entender qual abordagem adotar em nossos seminários. A reflexão sobre a dignidade.

Aqui, todos nós temos uma grande tarefa. Eu disse isso durante o Jubileu: é hora de restaurar a dignidade de todos, especialmente daqueles a quem ela foi negada.

Às pessoas homoafetivas foi negada a dignidade de ser pessoas. Precisamos reconhecer que isso também aconteceu por causa de parte de nossa pregação, descrita por vocês de certa maneira. Não quero defini-la eu mesmo, senão poderíamos abrir uma polêmica…

Precisamos restaurar a dignidade. Além de todas as antropologias, sociologias, filosofias e teologias, aqui precisamos restaurar a dignidade das pessoas transgênero e das pessoas com atração pelo mesmo sexo.

Uma das pessoas que conheci na vida e que me converteu (dom Mimmo Chiarantoni também está aqui, meu vigário paroquial, e ele pode confirmar essa experiência) foi uma pessoa transexual que me abriu, a ele [Chiarantoni] e à comunidade, uma forma diferente de olhar para a vida.

Seu nome artístico era Laura, e também publicamos seus poemas [numa edição impressa limitada para uma paróquia local]. Ela era uma pessoa transexual que mudou minha vida e minha visão sobre a vida. Nós a acompanhamos quando ela adoeceu de AIDS. Ela morreu de AIDS, e a enterramos no cemitério da cidade onde eu era pároco, em Bitonto, na província de Bari.

Então tenhamos cuidado: restauremos a dignidade daqueles a quem nós também a tiramos.

Uma segunda provocação. Entendo que estou abrindo um capítulo extremamente difícil e problemático. Digo isso aos meus irmãos padres e irmãos bispos: não chegou a hora de ajudar os padres com atração pelo mesmo sexo a não viverem seu ministério de forma bloqueada e rigidamente vigiada, sobrecarregados pelo medo e pelo receio de serem julgados?

Vou tentar dizer isso com grande sinceridade, e digo como uma lição para mim mesmo: dialogo bastante com padres homoafetivos*, ajudando-os a serem eles mesmos.

Há irmãos padres homoafetivos: qual é o problema? Um grande monge de Bose, o padre Giancarlo Bruni, servo de Maria, diz que o que importa é que tanto as pessoas heterossexuais quanto as homossexuais busquem ser coerentes e fiéis ao que prometeram no dia de sua ordenação. Ponto final.

Há preconceito demais, há preconceitos demais. Vejo irmãos padres homossexuais vivendo com medo de julgamento e com medo de serem descobertos por serem homossexuais. Eles frequentemente vivem numa solidão enorme.

Uma terceira provocação. Estou muito amargurado, com raiva, de certos políticos que, apenas para conquistar miseravelmente alguns votos a mais, colocaram novamente no centro a chamada questão woke, dizendo: "Não, isso é uma questão que deve ser excluída da política."

Se, no terceiro milênio, voltarmos a colocar os direitos civis contra os direitos sociais, nunca sairemos disso, e retrocederemos os ponteiros da história, rumo aos períodos mais sombrios de nossa República Italiana e da Europa.

Tenhamos cuidado, eu digo a vocês: tenhamos cuidado! Digo isso também a mim mesmo. Não coloquemos os direitos civis contra os direitos sociais. Ambos são direitos fundamentais da pessoa.

Os direitos sociais são tão importantes quanto os direitos civis, porque, se voltarmos a colocá-los um contra o outro, a civilização se torna apenas uma palavra no dicionário, e a democracia retrocede.

Obrigado a todos.

Nota da tradutora

*O título da conferência italiana e Savino usaram a palavra "omoaffettivo" (homoafetivo), uma escolha lexical fortemente contestada na Itália. Alguns preferem "omosessuale" (homossexual), argumentando que omoaffettivo enfatiza a dimensão emocional, mas retira a dimensão sexual da palavra, o que pode contribuir para a ideia de que relações entre pessoas do mesmo sexo são aceitáveis desde que enquadradas principalmente em termos de afeto, e não de sexualidade. Essa seria uma preocupação particularmente relevante num contexto eclesial, no qual a dimensão sexual das relações entre pessoas do mesmo sexo tem sido frequentemente tratada como a principal fonte de desconforto. Outros preferem omoaffettivo justamente porque desloca o foco da hipersexualização das pessoas LGBTQ+, sobretudo dos homens gays, para a dimensão afetiva e relacional de suas vidas e relacionamentos.

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